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sábado, 26 de maio de 2018

O ÓDIO DO COLONIZADOR VESTE TERNO E GRAVATA

maio 26, 2018 0
O ÓDIO DO COLONIZADOR VESTE TERNO E GRAVATA - Imagem Projetado pelo Freepik
Fazer ciranda e aplaudir o sol é privilégio de quem nunca precisou ser combativo.

Isso é o típico pensamento de quem nunca precisou viver “apesar de tudo”. Ser good vibes e previamente a favor da paz e do amor é privilégio de quem nunca foi odiado. Desculpa, amigo.

Você acredita nisso do seu contexto. Gente como eu, já cresce em modo defensivo. Não porque alguém vai me chamar de “boba, feia, chata”, mas, porque a sociedade me ensinou o que é ódio desde muito cedo. Gente como eu conhece o ódio e o que eu sinto está longe de ser comparado a "brancofobia".

Talvez vocês, brancos, nunca vão entender ou reconhecer o ódio que eu experimento. E talvez por isso seja fácil dizer que "acho que não precisam sair odiando todo mundo de graça...". Não é de graça, nunca foi. O ódio direcionado para mim e para o meu povo não é de graça. Custa caro, custa vidas e sonhos. E mata todos os dias.

Por isso, repito: É muito fácil criar raízes “good vibes”, se sua terra é “good vibes”. Se te regam com ódio, das suas raízes até sua última folha é ódio mesmo que vai sair.

Eu sou movida por ele, inclusive. E sei que isso não parece nada confortável. Mas quando o assunto é racismo, não pretendo trazer conforto à ninguém aqui, nem mesmo meus amigos.

Embora o desconforto seja necessário pra fazer vocês pensarem sobre isso, acho legal explicar o porque: Estamos numa sociedade em que pessoas negras vivem provocando fobias e medos em outras pessoas, até nos próprios negros. A instintiva escondida de bolsa dos meninos “maloqueiros” no busão, que toda pessoa já fez, vem desse medo social que paira sobre as nossa cabeças. Todas as cabeças.

Dentro deste medo estão os estereótipos que são as amarras que mantém a sociedade nesse looping infinito de preconceito e racismo. E um dos estereótipos atribuídos às pessoas negras, em especial mulheres, são os de violentas e raivosas. Mais recentemente, na internet, o título de “pessoas que apelam gratuitamente e saem distribuindo ódio como forma de revidar” também nos foi dado. Será mesmo que revidamos?


Lendo Homi Bhabha (O local da cultura), a gente entende que os estereótipos retroalimentam a sociedade racista.

O racismo divide as pessoas que "eram iguais" em violentos e dóceis. Os dóceis são aqueles que atendem a expectativa de comportamento ensinada pelo racismo, sejam eles brancos ou negros, os violentos se revoltam. A revolta é com a forma que somos tratados e daí o racismo nos leva ao limite do limite, para enfim poder dizer com provas, além de convicção: "Tá vendo, são violentos, distribuem ódio gratuitamente!".Só que não há nada de gratuito nisso, uma vez que a sociedade está diuturnamente sendo pensada e pensando para moer essa parcela social, para nos eliminar.

Frantz Fanon vai dizer exatamente que não somos capazes de desenvolver a paranoia clínica, porque não há nem espaço pra imaginarmos não sermos amados, quando convivemos com o colonizador, porque a verdade é que não somos mesmo.

Então, é isso, mais uma vez estou me dispondo a explicar que "apelar" com tudo, não é simplesmente apelar com tudo, devolver ódio de graça. O ódio reservado para nós custa caro, muito caro, já disse. E mesmo que todas as minorias do mundo devolvessem com "ódio", iria faltar racista pra pagar essa conta!

E lembrando que o "ódio" de que eu falo, não é "apenas" da parte de quem chama negro de macaco, mas principalmente de todas as formas de ódio: institucionais, na saúde, educação, saneamento básico, genocídio negro. Isso tudo é ódio.

Só que o ódio do colonizador geralmente veste terno e gravata. E até quando nosso ódio "veste terno e fala bonito", como Djamila, Filósofa e "bem vestida", essa galera privilegiada com uma vida de gratidão reclama que "não precisava, tão apelando com tudo...".

E blábláblá. Fim.

segunda-feira, 26 de março de 2018

PORQUE A GENTE CHORA POR DESCONHECIDOS?

março 26, 2018 0
Não sei exatamente por onde começar a escrever esse texto, porque eu estive nos últimos dias chorando a morte de alguém que não conheço, lamentando uma perda que não foi minha. Ou foi?

Marielle Franco - Mulher Negra, Socióloga, Favelada e Lésbica. Mulher de Luta!
Embora tenhamos consciência de que todos os dias, em média, 60 pessoas negras são assassinadas neste país, a morte da Marielle Franco ganhou destaque e eu acredito que não precisaríamos explicar o porquê. Mas, ainda é preciso ensinar didaticamente às pessoas na internet o porquê vidas negras importam.

Marielle Franco, vereadora mais bem votada da cidade do Rio de Janeiro, preta, favelada, lésbica e mãe. Mulher que, em pouco mais de um ano de mandato, falou e deu voz às favelas cariocas dentro da câmara de vereadores da cidade do Rio de Janeiro. Mulher preta, favelada, que rompeu a curva das estatísticas das jovens mães negras da periferia. Estudou, foi à luta política, colocou a sua voz para ecoar na torre de marfim que são espaços de poder, brancos, masculinos e ricos.

No sábado, dia 10 de março de 2018, Marielle Franco levou a público a denúncia de violência do 41º Batalhão de Acari.

E apenas quatro dias depois, Marielle foi executada com nove tiros na cabeça, no meio do centro do Rio de Janeiro. Onze tiros disparados em direção ao veículo e cinco na cabeça de uma mulher negra. Marielle, que gritou sempre contra os criminosos, contra uma política de extermínio nos morros, contra a luta hipócrita, supostamente pelas guerras, que justificaria a morte de "varejistas" do tráfico. Marielle Franco sempre lutou contra os bandidos, afinal, bandidos não estão somente onde seu racismo aponta, saiba.

Marielle Franco, mulher de luta, assim como tantas de nós, cada uma na sua luta e a sua maneira, morreu denunciando crimes durante a Intervenção Federal – que se mostra militar – no Rio de Janeiro, sobre a qual o responsável declarou: "Queremos garantias de que não haverá uma nova comissão da verdade". A vereadora havia sido indicada dias antes como relatora da Comissão que fiscalizaria as ações do interventor, preciso dizer mais?

Mas, voltando ao assunto de Marielle Franco ser uma “desconhecida”, lhes pergunto: está proibido sentir a morte dos meus? Das minhas? Principalmente a morte de uma irmã que, assim como eu, lutava em sua frente de batalha por todos nós, cada uma na sua luta, no entanto, LUTANDO e denunciando abusos de poder de um estado. Como já sabemos, um Estado racista e genocida, que poderia ser qualificado como máquina de moer o povo negro, com fortes indícios de ser o responsável por mais essa execução sumária, se esse Estado não se lamentará pela nossa, nós também não podemos?

Nesses dias que sucederam a execução de Marielle Franco tive, por diversas vezes, que explicar a algumas pessoas porque é que o que Marielle defendia era o direito de todos nós, humanos, e pasmem, também foi necessário explicar porque não era “correto” comemorar a morte de uma mulher negra exatamente por ela lutar e defender os direitos humanos. Me espanta, vivemos num país onde é necessário lutar para poder defender o básico, o direito à vida e à dignidade de TODOS os seres humanos, não apenas dos fardados ou engravatados.

No dia 15 de março, enquanto alguns canais comemoravam o “Dia do Consumidor”, muitos de nós chorávamos a morte de alguém que MUITOS, principalmente de outros estados, não conheciam, mas nossa luta nos torna íntimos e por isso nos limitamos a viver esta dor. Sair à rua no dia 15 e abraçar irmãos e irmãs de luta, me deixou com a sensação de que eu estava guardando eles no meu abraço, quase com a intenção de não os deixar partir dali, com medo de perder, assim como perdemos a Marielle Franco.

E assim seguimos, nos identificando com a dor dos nossos que morrem todos os dias, desde muito tempo. O golpe para nós, mulheres, homens e crianças negras, começou lá atrás, quando partiu de África o primeiro navio negreiro.

segunda-feira, 19 de março de 2018

WORLD NEEDS TO KNOW THE TRUTH ABOUT THE GENOCIDE OF BLACK PEOPLE IN BRAZIL

março 19, 2018 0
Councilwoman Marielle Franco was executed with five headshots in Rio de Janeiro
Last week the councilwoman Marielle Franco was executed with five headshots, in a bustling street in Rio de Janeiro city. Marielle, who was a sociologist and mother, was fighting for the human rights  and slum’s people in her job.

The suppositions about the case point to involvement of policie officers and state agents, they supposedly wanted to shut down her reports of abusive state agents working on the federal intervention in Rio de Janeiro City. Marielle Franco reported on Saturday (March, 10th) the dead of two young residents of the Favela da Maré. In her report, that circulated on Facebook, Wahtsapp and other social networks, Marielle narrated the violence commited by the police officers from the  Acari's 41th police station. According to Marielle, in her text share on the networks, the police officers shot to kill innocent people, they came to say this, also shot in the direction of Marielle and other resident that was whit Marielle in the street in the exactly moment. Still according the related of Marielle, they said that "he's was coming to kill all the people, not only criminals" and that "they want to take souls". 

The story of the Saturday morning was terrible, and caught attention of the residents and, mainly, dangerous and powerful people. Four days later, Marielle was executed along with her driver.

Brazil is the country that has killed more human right activist lately, and the main suspects of the majority of these crimes are state agents, Brazil has the most violent police in the world, which commit the most murders and is almost never punished by their crimes. We need to talk about the police violence on our country and the victims of murders are mainly black people. The young black people, in Brazil, have three times more chances to be killed than white people. In some states, like Alagoas, for instance, the odds are twelve times higher. In Brazil, on average, 63 young black people are killed every day, which is terrifying.


Brazilian states have a social cleansing policy, in which firstly, the throw black people for the slum and then kill the slum's residents. Kids, young, old, all the people are black and poor have chance to dying in the state war against the poor. 

If we do not tell about this violence against black people, we will not have any chance to denounce the abuses and make everyone see the truth about the racism in Brazil, since social cleansing (killed black and poor's) is directly linked to racism in the here. Rio de Janeiro city is only a “test zone”, and we fear that is could spread to entire country.

As independent communicators, such a blogger, radio hosts and digital influencers, we need to spread what is happening here. Marielle died because she dared to warn people about the police agents brutality in the Favela da Maré, in Rio de Janeiro city. We can't allow to be her become just another statistic, another black people killed thank the genocide in Brazil.

Collaborate: João Victor Chamon, Lavínia Rocha, Gabriela Sarmento.

sábado, 25 de novembro de 2017

CINCO VÍDEOS PARA CONSTRUIR DISCUSSÕES SOBRE A CONSCIÊNCIA NEGRA

novembro 25, 2017 0
O Dia da Consciência Negra no Brasil é "comemorado" no dia 20 de Novembro, mas, as discussões que envolvem raça e, principalmente, racismo no Brasil não podem se resumir a este dia. Vivemos num país de maioria negra, o maior em população negra fora do continente Africano e mesmo assim experimentamos o racismo em suas mais diversas facetas, absurdas ou veladas, o que nos obriga a discutir sempre e muito bem todas estas questões. 
Durante a semana da Consciência Negra foram ao ar cinco vídeos no canal do YouTube que podem lhe ajudar a traçar várias discussões em sua comunidade escolar, acadêmica e em todos os espaços de socialização em que é indispensável a discussão sobre o tema e suas implicações na vida de todas as pessoas. 

1 - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA OU DIA DA PACIÊNCIA NEGRA?

O Dia da Consciência negra é, antes de tudo, um dia de luta, reflexões sobre as conquistas e os desafios que as pessoas negras ainda enfrentam no Brasil, mesmo com tantas demandas estruturais algumas pessoas só enxergam o assunto neste mês e acabam transformando a data em mais um dia de testes para a nossa paciência. 


2 - PORQUE O DIA 20 DE NOVEMBRO É O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO BRASIL?

Sabemos que o dia 20 é um dia de debate sobre o assunto, em alguns lugares do Brasil é considerado também feriado ou ponto facultativo, mas, você sabe o porque da data ter sido escolhida como o dia para marcar esse ciclo de discussões?


3 - O CAPITAL CULTURAL DAS PESSOAS NEGRAS

Mais um "fenômeno" que ocorre especialmente no mês de novembro e contribui para a desvalorização das pessoas negras: a desvalorização do capital cultural na hora de convidar para darmos "aquela palavrinha" no dia da consciência negra. Nós, pessoas negras, podemos falar não só em novembro, não só sobre raça, racismo e, principalmente, devemos receber por isto, afinal, capital cultural não cai do céu. 


4 - PADRÃO DE BELEZA E AUTOESTIMA DA MULHER NEGRA

A estética tem um lugar de discussão para além dos cabelos e batons coloridos, tranças e toda a estética libertadora que algumas de nós tem assumido, a autoestima da mulher negra não é devidamente trabalhada desde a infância e quando chegamos a idade adulta é difícil construir um novo lugar para autoimagem, numa sociedade racista se achar bonita é uma afronta.


 5 - PORQUE O DIA 20 DE NOVEMBRO NÃO DEVERIA SER FERIADO

Esta é uma discussão dentro do movimento negro e ainda não há um consenso, mas, é importante ouvirmos os argumentos dos dois lados para formarmos nossa opinião.


Existem dezenas de outros temas que podem e devem ser abordados durante todo o ano quando o assunto é relação racial, estes vídeos podem ser um pontapé inicial para que o debate se inicie e crie frutos na sua comunidade. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

PLANETA 50/50 - EU SOU NEGRA E QUERO FALAR: ONU MULHERES BRASIL

julho 28, 2017 0

O Blog Na Veia da Nêga foi convidado pela ONU Mulheres Brasil para participar da semana de visibilidade de Influenciadoras digitais Negras, casando os projetos da Década Afrodescendente com a as ações da Agenda 2030 na Semana em que se comemorou o dia da Mulher Negra, Afro Latino-Americana e Afro-Caribenha, foi falar um pouco mais para o nosso público e o público da Organização das Nações Unidas sobre como nós, negras e digitais, pensamos caminhos e propostas para que essa igualdade seja alcançada. Além do Na Veia da Nêga, outros três canais foram convidados a integrar a ação e puderam compartilhar suas ideias para que nós sejamos um planeta 50/50 em 2030.

Buscar um planeta com igualdade de gênero depende de todos nós, a sociedade como um todo é responsável pelo cumprimento e fiscalização do andamento de todos estes combinados e nós, mulheres negras, como base da pirâmide social, temos mais ainda a missão de fiscalizar e exigir um mundo em que a combinação gênero-raça seja igual para todos. É sabido que mulheres brancas e negras não atingiram ainda a equidade social e, por mais que entendamos que somos diferentes (obviamente), não podemos perder de vista que as diferenças devem nos equalizar e não separar. 

O Brasil foi um dos primeiros países a assumir o compromisso com o desenvolvimento e apoio de políticas que busquem dar equidade aos gêneros, em 2015 com a então presidente eleita Dilma Rousseff, o Brasil se comprometeu diante de outros países a levar todas as mulheres em situação de violência à serem assistidas e protegidas através do programa “Mulher, Viver sem violência”; cuidados de saúde materna e assistência às meninas; plano para os cuidados prestados às vítimas de violência sexual por parte de profissionais de segurança pública e de saúde; grupo de trabalho sobre a saúde para as mulheres com deficiência; licença-maternidade para mulheres militares; permissão de registro do nascimento de filhas e filhos sem a presença do pai.

Diante da situação política do nosso país, tendo pouca ou nenhuma estabilidade democrática é preciso estar atenta ao cumprimento das metas e, em casos de violência que não seja resolvido por nossas instâncias comuns, recorrer sim aos órgãos internacionais. Mesmo tendo total consciência de que não é fácil ou tão acessível assim as pessoas pobres do país, o fato de divulgarmos esta informação já é um grande passo.


O convite da ONU Mulheres Brasil é, além de uma imensa responsabilidade, uma honra e um reconhecimento de todo um trabalho que vem sendo feito de informação e conscientização das mulheres brasileiras, é impressionante saber que estamos sendo observados e acompanhados justamente por quem tem feito um trabalho mundial e tão importante. 

Quanto aos caminhos para igualdade, dentre tantas coisas que precisamos melhorar para fortalecer as mulheres negras deste país, sugeri a educação como caminho para alcançarmos isto. Nós como a maioria na base da tal pirâmide social somos a base também da transformação, se as mulheres negras que carregam esta sociedade, quase que literalmente, nas costas, forem movidas para situações positivas dentro da estrutura, com certeza o restante da sociedade se move junto. Educação e conhecimento pode sim mudar o rumo de muitas histórias negras e, é papel do estado fornecer condições para isto, promovendo equidade entre as raças. O que isto quer dizer? Se determinado grupo social precisa de duas vezes mais condições para acessar o mesmo serviço, é papel do estado fornecer estas condições de forma profissional para mulheres negras, a fim de que a situação se iguale. A equidade no acesso educacional é um, dos muitos, caminhos para que haja igualdade de gênero-raça no Brasil em 2030.
Quer saber mais? Assista aos vídeos no canal, se inscreva e deixe seu comentário sobre o que você acredita ser o melhor caminho para atingirmos esta meta.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SE VOCÊ É NEGRO, PRECISA LER ESTE TEXTO: SER OU FAZER PARTE DE UMA MINORIA NÃO TE IMPEDE DE SER OPRESSOR

julho 17, 2017 0

É muito difícil reconhecer privilégios, para uma população que tem pouco ou nenhum lugar de prestígio dentro da sociedade isto é uma tarefa muito difícil, mas, precisamos parar para pensar neste assunto.

Pessoas negras não tem lugar de privilégio na sociedade falando de maneira macro, institucional e de classe, mas, entre nós, é possível encontrar pessoas com mais ou menos prestígio social e que, vez ou outra, podem ser opressoras com minorias que estão dentro de minorias. Se não entendeu, eu explico! Pessoas negras não serão (tão cedo) padrão dentro da sociedade brasileira, pelo simples fato de sermos negras, mas, estar próximo ao que é considerado padrão, ou seja, branca, magra, heterossexual, cabelo “cacheado” comportado e que tenha os famosos “traços finos”, lhe confere algum destaque em relação a pessoas negras que não estão próximas deste ideal. Ser magra, de pele clara e heterossexual, por exemplo, te deixa bem à frente de pessoas gordas, negras de pele escura e homossexuais, deu para entender? E, quando alguém aponta isto, não está querendo dizer que você é privilegiado diante de toda uma sociedade que não te enxerga como portador de vantagem, mas sim, diante daquela outra pessoa que, mesmo também sendo negra como você, vai enfrentar outras opressões além do racismo. Entendeu?

No entanto, mesmo tendo isto claro nas nossas cabeças, não é tarefa fácil reconhecer isto e, mais ainda, se lembrar disto sempre na hora de falar sobre estes assuntos, já que a nossa reação enquanto integrantes de minorias sociais (e não estamos aqui falando de número de pessoas, sei bem que a população negra é a maior parte da sociedade brasileira) é, normalmente, se defender, tentar justificar ou mostrar logo quais e quantas são as opressões que nós sofremos diariamente. É importante ter em mente que este não é um concurso de “quem sofre mais”, “quem apanha mais” ou “quem é mais desprezado pela sociedade", nada disto, mas nós que não somos gordas, por exemplo, precisamos reconhecer que caso nós não tenhamos consciência do nosso lugar, nós também seremos uma fonte de sofrimento para as pessoas que já precisam aguentar todos os dias o massacre da sociedade. Se r gordo não é, necessariamente, uma doença e não vamos nem entrar no mérito de “saúde”, porque isto pode ser só uma desculpa para você esconder a sua gordofobia, você se preocupa tanto com a saúde dos outros, mas, quantos copos d’água bebe por dia? Fuma? Faz exercícios regulamente? Consome álcool com frequência? Isso tudo são comportamentos que, caso você seja magro, ninguém fiscaliza sob esta justificativa. Se a pessoa gorda se sente bem com o que ela é, que tal nós que não somos gordas, não normalizamos aqueles comentários como “eu acho você linda, mas eu não fico bem gorda” (você pode até achar isto, do fundo do seu coração, sem nenhuma maldade, mas, cá entre nós, qual a necessidade de falar isto para uma pessoa gorda?), “ai, como eu tô gorda” (isto depois de comer bastante numa festa e continuar enfiada no seu jeans 38), “nossa, viu como fulana está gorda... ” (como se isto fosse um defeito super relevante), entre outros comentários que nós, que não somos gordas, fazemos rotineiramente e sem pensar que isto incomoda as pessoas que são.

A mesma reflexão serve para as pessoas negras e de pele clara, sabemos muito bem que ser negro no Brasil é complicado, para TODAS AS PESSOAS NEGRAS independente do tom da pele, mas, é preciso reconhecer que a questão do racismo no Brasil é pigmentocrática e quanto mais escuro você é, mais racismo você sofre, já para as pessoas de pele clara, quanto maior for a sua passibilidade branca, maior a possibilidade de ser tolerada em alguns meios. Isto também vale para características físicas que não são negroides, lábios pequenos, nariz pequeno, testa menos protuberante e por aí vai... apontar este tipo de privilégio, como já dito neste texto, entre pessoas negras precisa ser visualizado e enxergado como um ponto a equilibrar e não uma disputa infundada de “quem sofre mais”, porque isto não contribui em nada no nosso crescimento enquanto povo.

Entender que nós, pessoas negras e heterossexuais, temos privilégios em relação as pessoas negras não-hétero, não é dizer que nossa vida é tranquila e sossegada nos nossos relacionamentos “normativos”, entendo bem que relacionamento entre pessoas negras não é “normativo” para uma sociedade racista, raramente nós somos a família representada no casal da propaganda de margarina. Mas, é preciso que reconheçamos que se estivermos dentro do esperado pela tradicional família brasileira (isto quando estamos num relacionamento, porque a solidão da mulher negra é um fato que não tem discussão), vai ser muito mais aceito um casal de homem e mulher cis de mãos dadas na rua, do que duas mulheres ou dois homens negros. Discursos como “já basta ser preto, ainda tem que ser viado”, é algo que nós que não assumimos relacionamentos homossexuais nunca vamos escutar. Sem falar é claro, dos homens negros gays que são sempre enquadrados em lugares que a hiperssexualização dos nossos corpos os coloca, os ativos, besuntados em óleo e prontos para serem o fetiche sexual de todos que quiserem, que é outro problema enfrentado pelos gays negros, segundo os relatos que escuto.

São muitas as particularidades que nós, pessoas negras, temos e não precisamos levar a discussão “para fora de nós”, fico pensando o quanto da desumanização restante da escravidão não permanece em nosso pensamento. Nós temos tantas facetas que nos diferenciam e, mesmo assim, continuamos comprando a ideia de que “preto é tudo igual”, não, não é, não somos todos iguais e o que nos diferencia é que nos faz especiais. E, principalmente, reconhecer que temos as nossas diferenças sabendo que isto não pode nos separar, mas sim nos tornar mais conscientes de como e porque devemos, ou não, dar aquele abraço ou aquele espaço ao outro. Negro não é tudo igual, pessoas não são todas iguais e nós precisamos saber como, quando e até onde vai nosso tratamento com o outro. Respeito é a base para qualquer relação, com qualquer outra raça, mas, foi tirado de nós esta humanidade e o cuidado com a outra pessoa negra acaba ficando em outro plano, ou pior, acaba não existindo, porque fomos ensinados pelo racismo que “negro é tudo a mesma coisa”.

Discutir não é sinônimo de brigar, discutir é debater determinado assunto para chegar, ou pelo menos tentar chegar há um consenso que seja bom para todos os lados e, neste caso, esta é uma discussão entre pretos, para pretos e que deve ter o propósito de crescimento, não ser mais um ponto de discordância que nos separe e fortaleça o macro opressor que temos em comum: o racismo.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

ATENÇÃO HOMENS, PRECISAMOS FALAR SOBRE CONSENTIMENTO

julho 12, 2017 0



Consentimento parece ser mais uma das muitas palavras da língua portuguesa que os homens (cis) foram ensinados a não compreender, mas, apenas em relação as mulheres. Para o homem o consentimento da mulher passa diretamente pela sua vontade, isso quer dizer que, o não de uma mulher, principalmente, só vai ser aceito se for validado pela intenção do homem numa ou outra situação.

E, antes que você continue a leitura deste texto, é preciso que você saiba que discutir machismo e a sociedade estruturada neste mal, exige uma despersonalização do discurso, exige que você não entenda que isso trata apenas do seu amigo que não é machista ou do seu namorado incrível e respeitador. Infelizmente, quando falamos de sociedade, aquele homem que faz a sua obrigação em respeitar a vontade da mulher não é maioria no comportamento masculino.

Quando crianças, somos ensinadas que o "não" da menina quer dizer charminho, manha, uma estratégia para "valorizar o passe" diante dos meninos e homem que se preze insiste até conseguir, até transformar aquele "não" em um "sim", afinal, era o que ela queria dizer o tempo todo, mas estava "fazendo doce". Com estes e outros comportamentos ensinamos, desde crianças, que o não da mulher pode ser um talvez ou até um sim dependendo da insistência do homem, cresce-se dentro da ideia de que a mulher que recusa, na verdade queria dizer sim, mas está ali se fazendo de difícil, afinal, mulher que não se faz de difícil não se valoriza.

Como resultado disto temos, entre outros, uma quantidade imensa de estupros todos os dias. Para além daqueles que são denunciados, temos os casos de estupros que ocorrem dentro de relacionamentos amorosos, violências em baladas, assédio em ambientes de trabalho, assédios na rua e mais uma longa lista de violações que nós mulheres ouvimos todos os dias, que facilmente deixariam de ocorrer se os homens entendessem o significado da palavra CONSENTIMENTO. 

Do dicionário:



O significado da palavra não poderia ser mais explícito, precisa haver MANIFESTAÇÃO de autorização e, o NÃO é uma palavra mundialmente conhecida como uma MANIFESTAÇÃO NEGATIVA, seja em relação a autorização nestes casos ou qualquer outra ação, em relação ao que foi consultado. No entanto, o "não" feminino tende a ser relativizado de acordo com a vontade do homem. Não bastasse todas as implicações negativas que isto tem na nossa vida, o ato de apontar esta incapacidade masculina também tende a nos trazer mais problemas. Experimente questionar à um homem, a dificuldade dele em respeitar o seu "não" e veja o que acontece! 

Para falar do ponto de vista de mulheres, heterossexuais, que mantem relacionamentos abusivos, é assustadora a quantidade de casos em que elas são estupradas rotineiramente dentro de seus lares. Mais uma vez a ideia de que o "não" da mulher, está subjetivo à vontade do parceiro, faz com que todos os dias mulheres sejam submetidas a este "desejo" incontrolável de homens e seu não, mais uma vez, seja desprezado. Muitas mulheres não sabem que também é estupro quando é cometido pelo seu companheiro, mas, forçar ou intimidar a companheira afim de conseguir sexo é igualmente violento.


CRÉDITOS: FONTE: IPEA

A ideia de que a mulher precisa consentir está longe, por exemplo, das 42,7% de pessoas mostradas nesta pesquisa do IPEA que concordam que as mulheres que usam roupas curtas merecem ser atacadas, voltando lá na definição do dicionário, consentimento envolve expressar o acordo e A ROUPA QUE A PESSOA USA não é convenção mundial de afirmação, apenas na cabeça dos homens machistas da nossa sociedade e de mulheres que reproduzem esta ideia. Um número também alto e assustador de pessoas acredita que, se a mulher soubesse se comportar, haveria menos estupros e mais uma vez o absurdo se mostra, o que seriam estes "comportamentos" que validam o estupro? Uma vez que é sabido que estupro é uma violência, não sexo? 

Falando de outras personagens, igualmente ou por vezes mais violentadas, a situação das mulheres LGBT também não é fácil. A sociedade precisa buscar uma "justificativa" para àquela mulher "não gostar do óbvio", que em situações estruturadas sob, é o homem. Assim a negativa de uma mulher que se relaciona com mulheres em no que diz respeito a tentativa de homens também gera agressões, violações e, em casos extremos, a morte. "Como assim você não quer um homem?", "Você não quer mesmo, nem experimentar?", ou a clássica, "Você só fica com mulheres porque não encontrou um homem que te "pegue de jeito" e te faça mulher!". Estas e outras expressões são características do desrespeito dos homens ao nosso "não". 

Como mostrado ao longo deste texto é preciso que os homens, primeiramente, abandonem esta postura defensiva de, antes de enxergarem o problema, fazerem uma salvaguarda de si e enxerguem que o problema é macro e sistemático. Adotar uma postura correta, porém individual, não basta se seu amigo ou colega do lado continua insistindo em se comportar de maneira abusiva e você fecha os olhos. Entendam que consentimento é necessário e precisa ser explícito para que qualquer relação aconteça, afinal, aprendemos também quando crianças que "quando um não quer, dois não brigam". 

terça-feira, 4 de julho de 2017

INFORMAÇÃO É UM PRIVILÉGIO. E VOCÊ, COMO DISTRIBUI O SEU CONHECIMENTO?

julho 04, 2017 0
A informação, assim como a ciência e o conhecimento acadêmico, são "poderes", isto é, quem os detém pode manipular, compartilhar, esconder, ajudar ou prejudicar pessoas e muito mais. O que fazemos com o conhecimento que temos é responsabilidade nossa e você já parou para pensar o que você está fazendo com as informações que detém?
Vira e mexe é comum encontrar pelas redes sociais pessoas que debocham, fazem pouco caso ou piada de dúvidas que podem parecer "bobas" para muitos, mas, que para outros, pode ser algo muito importante e valioso e é aí que mora a diferença entre os seres humanos. Ter informação as vezes só faz de você um idiota com referências e conhecimento se você escolhe usar estas informações para subjugar o outro, sabia?
Dividir o conhecimento com o próximo, seja na intenção de apenas partilhar ou mesmo para ensinar o outro deveria ser tão praticado quanto nosso tradicional "bom dia" ou "boa tarde" ao encontrar alguém que precisa da informação, ao invés de usar do poder que o privilegiado pela informação detém para achincalhar o próximo, que tal?
Este videozinho curto no Facebook convida a reflexão e propõe que façamos um uso mais inteligente do nosso conhecimento. 

terça-feira, 28 de março de 2017

SOBRE INÊS BRASIL E A SIRIRICA: OU VOCÊ É BRANCA OU VOCÊ É LOUCA

março 28, 2017 2
SOBRE INÊS BRASIL E A SIRIRICA: OU VOCÊ É BRANCA OU VOCÊ É LOUCA
Sempre que ouço o assunto "Inês Brasil", meu radar de treta liga e eu já espero alguma análise racista ou sexista vindo em seguida, porque o Brasil, racista como só ele, não consegue em hipótese alguma falar de uma mulher negra sem envolver racismo e machismo para tecer a crítica.
Para quem não conhece a história da Inês Tânia Lima da Silva, vai aí um breve resumo: ela é uma mulher cis (estou explicitando isso, porque eu mesma achava que era uma mulher trans e, no alto da minha transfobia, usava isso como ofensa - no passado, passou!), nascida em 1969, ou seja, tem hoje 48 anos (quem me dera chegar às 48 nesse pique) e já viveu muito mais do que os memes da internet podem demonstrar. Aos 22 anos, Inês iniciou sua carreira como uma das "Mulatas" de Sargentelli na casa de Shows "Oba-Oba", seu pai foi cantor e compositor da Escola de Samba Quilombo dos Palmares, o que possivelmente influenciou a entrada dela como professora de samba, também aos 22 anos em outra escola. Foi na mesma época que Inês conheceu o primeiro marido, Christian Karp, que contribuiu com a sua carreira. Inês é fluente em alemão, tendo morado na Alemanha por 18 anos, sendo 10 deles casada. Inês Brasil é mãe de duas filhas, uma delas, Monique Lima Karp, é sua empresária atualmente.
É esta mulher que hoje, vocês tentam interditar por meio do tribunal do Facebook. Acusando-a de não ser "dotada de faculdade mentais", após ela se masturbar num show. É bem verdade que não é a primeira vez que Inês dá um tom sexual às suas apresentações, e quem assistiu qualquer show dela sabe disto, só que parece que desta vez, a masturbação causou um choque "plus". Mas é verdade também que, Inês não é a única, duvida?

Miley Cirus - Isso te parece uma siririca?
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Miley Cirus - VMA de 2013 - SOBRE INÊS BRASIL E A SIRIRICA: OU VOCÊ É BRANCA OU VOCÊ É LOUCA
Lady Gaga - Isso te parece sexo à três?
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Lady Gaga - Apresentação em Toronto, 2009 - SOBRE INÊS BRASIL E A SIRIRICA: OU VOCÊ É BRANCA OU VOCÊ É LOUCA
Nem vou mencionar, nosso comportamento permissivo em relação aos homens quando é este o caso, não é mesmo? Quem nunca sonhou em ser a escolhida pelo Usher neste contexto? Homens exploram a imagem sexual nos palcos à muito tempo e isso não dá à eles uma imagem de "loucos", mas sim, reforça sua virilidade.


O caso é que para muitos internautas, desta vez Inês Brasil "exagerou" ao se tocar DE VERDADE num show em Manaus usando um microfone. Aparentemente este é um motivo concreto para a sanidade mental de Inês Brasil ser posta em dúvida.
O centro da discussão deveria ser, obviamente, o fato de mulheres negras serem AS MAIORES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, como se supõe ser o caso da Inês em relação ao seu produtor, ou mesmo os inúmeros casos de mulheres desinformadas sobre o próprio corpo e a própria sexualidade, ou ainda a questão do corpo negro estar exposto como carne para venda, desde que o Brasil é Brasil, no entanto, preferiram partir para deslegitimar a vontade ou mesmo duvidar da sanidade mental de uma mulher negra. Posso estar enganada, mas não vi nenhum textão questionando a sanidade mental da Miley Cirus na época do VMA.
O que a maioria das pessoas racistas não entende é que, muitas de nós, mulheres negras, morremos todos os dias por duvidarem da nossa sanidade mental, por julgarem nossas atitudes por um prisma racista, ninguém se preocupa, por exemplo, com as cicatrizes que os anos de prostituição deixaram em Inês, ou que o provável abuso por parte do produtor pode estar deixando, ou ainda pior, não ser nenhuma destas opções, mas sim o fato de Inês ser mais uma mulher negra que, como muitas de nós, confunde a liberdade sexual branca como uma questão à ser defendida por nós. Nossos corpos estão expostos à tempos e este discurso de "liberdade sexual" tem que ser muito bem recortado para caber em nossas vidas. 
Portanto, antes de sermos racistas e partir para o caminho mais óbvio, que é chamar a mulher negra de louca, é preciso considerar alguns pontos:
- Tratar a mulher negra como uma figura irracional, movida por impulsos primitivos, sejam de raiva, desejo ou fúria, É RACISMO e vocês não estão fazendo nada de novo, a sociedade faz isso à mais de cinco séculos;
- Liberdade sexual precisa de recorte racial e, principalmente, considerar a vivência particular de cada uma;
- Mulheres brasileiras, negras ou brancas, são historicamente podadas da liberdade de se tocarem, conhecer seus corpos e seu próprio prazer, portanto criticar isso sem ressalvas, só vai fazer com que mais mulheres se sintam envergonhadas em fazê-lo;
- Mulher se masturba sim! Cada uma escolhe se vai ser na intimidade do seu banheiro, do quarto, na sala de casa, na varanda ou num palco em Manaus. A masturbação masculina, ou mesmo a manipulação do pênis é aceitável, mas quando se trata da vagina ou do prazer feminino, a conversa muda, não é mesmo? Homens artistas manipulam sua sexualidade e seus órgãos em shows DESDE QUE SHOW É SHOW e não são questionados. Tem muito do nosso machismo nesta crítica sim.

Uma das propostas deste blog e do Canal do Youtube este ano, é exatamente discutir e incentivar as mulheres a conhecerem mais e melhor o próprio corpo e a própria intimidade. Mas, vai ficar muito difícil se vocês acharem que toda mulher que bate siririca é uma maluca precisando ser interditada. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

QUAL LUGAR A FIGURA DO NEGRO OCUPA DENTRO DO SENSO COMUM?

fevereiro 22, 2017 0
Algumas coisas nós já sabemos, como, por exemplo, que vivemos numa sociedade em que o racismo é uma das ferramentas usadas para manutenção de privilégios de uma determinada etnia, apesar de ser sabido também, mas não custa explicar novamente, dizer isto não é falar de indivíduos, é falar de branquitude enquanto conjunto social e todos os privilégios que são conferidos ao grupo, como poder entrar numa loja sem ser seguido, tendo como argumento base apenas a cor da sua pele.
Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu.
Cientes de que esta é a base social, podemos concluir então que o "senso comum" (Senso comum é o modo de pensar da maioria das pessoas, são noções comumente admitidas pelos indivíduos. Significa o conhecimento adquirido pelo homem partir de experiências, vivências e observações do mundo. O senso comum se caracteriza por conhecimentos empíricos acumulados ao longo da vida e passados de geração em geração. É um saber que não se baseia em métodos ou conclusões científicas, e sim no modo comum e espontâneo de assimilar informações e conhecimentos úteis no cotidiano. Fonte: Significados.) desta sociedade também é racista, afinal foi construído por uma engrenagem que se alimenta disto para continuar mantendo a hierarquia.
E é vivendo dentro do "senso comum" que todos continuam ajudando o racismo à existir. Não problematizar o que acontece e justificar com "mas é assim mesmo" ou "é normal acontecer isto", sem levar em consideração de que seu conceito de normalidade é uma construção social, faz com que este sistema se mostre um plano perfeito.

Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu. (Foto - Arquivo Pessoal)
No começo deste mês (fevereiro, 2017), Marcella Eduarda Januária Carvalho (mais conhecida como Madu), mulher negra, periférica e cantora em Belo Horizonte, foi presa numa situação no mínimo absurda. Resumidamente, em Belo Horizonte e Região Metropolitana alguns ônibus foram incendiados por criminosos (segundo relatos, em represália às péssimas condições do presídio de Bicas, que fica na RM de Belo Horizonte) e, por este motivo, a polícia intensificou as rondas noturnas afim de proteger os veículos. Numa destas rondas conseguiram impedir dois criminosos de incendiar um ônibus coletivo, mas não prenderam somente os homens que eles tinham evidências concretas para isto, Madu havia coincidentemente dado sinal de parada (estando dentro do veículo), para descer no mesmo ponto que posteriormente os suspeitos embarcaram. Para a polícia, isto, associado ao fato da Madu ser uma jovem negra, pobre e moradora de uma ocupação urbana, foi motivo suficiente para ser dada como "parceira" dos criminosos e ser presa. À ela foi negado o direito de defesa, já que não foi apresentada diretamente ao juiz para contar sua versão dos fatos e anteriormente, o direito de se comunicar com a família, que só ficou sabendo da prisão no dia seguinte através da ligação anônima de um agente.
Após toda a coleção de absurdos relatada acima, a internet nos brinda com uma coleção de comentários vindo diretamente do "senso comum", já amplamente explicado neste texto. 
Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu.
Não é "errado" pensar assim (não que eu considere isto certo, mas este não é um texto sobre juízo de valor), mas é exatamente o que acontece quando estamos dentro da ideia de que, no Brasil a democracia racial é real e não há uma estrutura racista mantendo a nossa sociedade como é, feita para acreditar que, a princípio, todo negro é culpado até que se prove o contrário. Se fizermos o exercício de imaginar, uma pessoa branca nesta situação e sem todas as "variáveis" de Madu, pobre e moradora de ocupação urbana (que sabemos da perseguição que estes moradores sofrem), receberia o mesmo tratamento? Seria julgada da mesma forma? Madu foi liberada, mediante pagamento de fiança, ainda obrigada a cumprir horários rígidos e a usar tornozeleira eletrônica para monitoramento, sem sequer ter sido ouvida por um juiz.
Aos negros brasileiros, pobres, em situação de rua, moradores de ocupações urbanas, favelas e, em algumas vezes, até mesmo os de classe média, é este o tratamento oferecido e geralmente a análise feita dentro do senso comum, sempre chega a mesma conclusão: "Vocês estão exagerando", "Isto não é racismo", "Chega de Mimimi", se esquecendo de levar em conta a nossa construção social, os parâmetros ensinados à todos nós para separarmos os "bons dos maus". Este padrão é branco, heteronormativo, machista e rico, fora deste padrão você sempre estará sujeito ao tratamento e o julgamento do senso comum.
E como resolver isto? Claro, se tivéssemos a resposta absoluta seria muito mais fácil, mas é preciso que cada indivíduo tome consciência da sua responsabilidade no desmonte desta grande estrutura que é o racismo, ajudando a combatê-lo dentro da área que lhe compete. Acredito ser meio utópico esperar que os privilégiados lutem contra o seu próprio privilégio, imaginar pessoas lutando para não ter mais os benefícios que hoje os mantém na frente? Pois é, isto é difícil realizar, mas nós enquanto pessoas negras temos mais próximo da realidade, a possibilidade de adquirir conhecimento e sair da reprodução de senso comum, enxergar a estrutura como ela realmente é, é talvez uma forma de mudá-la de maneira mais eficiente.
A falsa ideia de democracia racial é uma venda sobre nossos olhos, com ela nos ocupamos mais em reproduzir aquilo que a sociedade condicionou como verdade. Se a sociedade é racista em sua estrutura, logo, vamos repetir a essência dela: O RACISMO. Pensar com a própria cabeça, utilizando-se dos próprios argumentos, ouvir novos pontos de vista sem apresentar tanta resistência ao que contraria aquilo que você aprendeu por toda a vida, é uma porta para combatermos a disparidade que existe. Pense nisto!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

QUERIDAS MARCAS DE COSMÉTICOS NACIONAIS: MULHERES PRETAS TAMBÉM USAM BATOM

janeiro 04, 2017 1
QUERIDAS MARCAS DE COSMÉTICOS NACIONAIS: MULHERES PRETAS TAMBÉM USAM BATOM
Porque anda é preciso brigar tanto por representatividade? Aqui mesmo no blog existem vários posts sobre isto, explicando da importância, mostrando exemplos, bons e ruins, demonstrando como fazer e principalmente como nunca fazer, mas ainda assim é preciso desenhar para as empresas porque faz parte de sua obrigação moral enxergar todas as etnias com igual importância.
Falando especialmente da indústria cosmética, por muitas vezes chego a pensar que eles tem total certeza de que nós, mulheres negras, não consumimos seus produtos, porque é fácil perceber o quão ignoradas somos nas publicidades, anúncios, nas revistas, na televisão e em quantos campos mais eles aparecerem.
Das marcas de cosméticos nacionais é praticamente impossível encontrar representatividade nas redes sociais, exceto quando uma ou outra lança uma coleção "exclusiva" com algum "morena" ou "exótica" embutido no nome e nós apenas engolimos esta "representatividade". Como consumidora com dinheiro que vale igualmente ao de mulheres não negras, o mínimo que espero é ter a alguma noção de como uma determinada sombra ou batom provavelmente vai se comportar na minha pele. Não venham me convencer aqui de que as marcas não sabem que em nossa pele as cores se comportam de forma diferente, o contraste altera a cor e tudo isto que nós já sabemos ou descobrimos da pior forma, que é comprando um batom maravilhoso na modelo branca que fica totalmente diferente em contraste com a nossa pele.


Ontem minha amiga querida, Nayara Garófalo (do Blog TW: Preta), me fez lembrar da Eudora, marca nacional que faz parte de uma rede onde outras bastante conhecidas e consumidas também integram e nada fazem para incluir representatividade em suas redes sociais. Embora eu prefira não consumir marcas nas quais eu não me vejo ou não fazem o menor esforço para terem representatividade às mulheres negras, hora ou outra eu sou obrigada à fazê-lo, afinal, fica difícil consumir apenas +MAC Cosmetics e +NYX Professional Makeup, não é mesmo? 






É basicamente disto que falamos ao cobrar das marcas que sejamos IGUALMENTE representadas em suas redes sociais e publicidades, porque nós mulheres negras temos tanto direito quanto as outras de nos enxergar com estes produtos. E, como já foi explicado anteriormente, faz muita diferença sim o tom de pele para a apresentação do cosmético, além das postagens apresentadas aqui não deixarem dúvidas disto. E, avaliando a última hipótese de que "é tudo igual" ou "dá tudo na mesma", porque é então que só temos demonstração de um lado? 
Pois bem, não é igual, como vocês puderam ver bem exemplificado, além de nos poupar um tempo valiosíssimo que é gasto entrando nas lojas nacionais e sendo ignorada pelas vendedoras ou tratadas com descaso, que é o que acontece comigo, além de outras leitoras relatarem isto na página constantemente, em 100% das vezes que entro em uma loja da +Eudora, do +O Boticário ou da +quem disse, berenice?.
Queridas marcas de cosméticos nacionais, mulheres pretas também usam batom. Por gentileza, adaptem-se. 

domingo, 9 de outubro de 2016

ATENÇÃO MULHER PRETA, SE TOCA!

outubro 09, 2016 1
Outubro Rosa - A importância do autoexame na luta contra o câncer de mama. CREDITOS DA IMAGEM
Vamos aproveitar este mês para discutir um assunto importante, para nós mulheres e especialmente, para as mulheres negras. Falar sobre a importância de se amar e se cuidar, deve ser pauta o ano todo mas, é hora de focarmos no cuidado com o nosso corpo em especial, aproveitando o alcance da Campanha "Outubro Rosa". 
Você sabia que nós, mulheres negras, somos maioria entre os casos de câncer de mama, antes dos 40 anos de idade? Em março do ano passado, foi publicado um artigo no jonal Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, revelando que uma mutação genética atinge às mulheres afrodescendentes, explicando assim, nossa propensão à desenvolver a doença, de forma considerada precoce. 
Este, com certeza, é um motivo importante para estarmos atentas à nossa saúde, pois além do fator genético, outros hábitos de vida podem influenciar no aparecimento dos cânceres, inclusive o de mama. Além de exames preventivos, especialistas recomendam manter um peso saudável (lembrando que isto não significa ser magra, obviamente, mas sim, manter-se bem dentro de um peso que não prejudique a sua saúde, gente magra não é automaticamente saudável), manter uma regularidade na prática de exercícios físicos, consumir álcool com moderação, evitar gordura  trans, alimentos processados, evitar exagerar no açúcar ou no sal e principalmente, evitar fumar.
Então, este é o momento para incentivar que você, mulher negra, se toque, se conheça, conheça seu corpo. O câncer de mama tem até 90% de chances de cura, quando detectado na fase inicial e, vamos combinar, noventa por cento é muita coisa, inserir este hábito na sua vida pode ser decisivo, no caso desta doença aparecer. 
Outubro Rosa - A importância do autoexame na luta contra o câncer de mama. CREDITOS DA IMAGEM
Sabemos bem que, o racismo institucional que acontece dentro do sistema de saúde, principalmente o público, leva ao aumento das mortes das mulheres negras em decorrência desta doença, portanto, esta é outra luta que temos, na nossa extensa lista de pautas, a enfrentar neste país.
Sejamos atentas aos sinais, muita gente pensa que apenas o "caroço" (nódulo) no seio, é sinal da doença, mas o corpo pode demonstrar outros sintomas significativos como vermelhidão na pele, alterações no formato dos mamilos ou das mamas, nódulos nas axilas, secreção escura saindo dos mamilos ou descamação, locais com pele enrugada e nesta hora, conhecer o seu corpo faz toda a diferença, quanto mais cedo se nota qualquer um destes sinais e se procura ajuda, maiores as chances de curar a doença. E se houver dúvidas ou algum sinal que lhe incomode, não deixe de procurar ajuda médica, hoje às técnicas de exame e principalmente de cura estão menos invasivas, os tratamentos cada vez mais assertivos, sabendo claro, que o acesso não é para todas e mas isso não deve nos impedir de correr atrás de todo o tratamento possível. 
A partir dos 40 anos, recomenda-se que seja feito anualmente o exame de mamografia e, a partir dos 70 anos, a frequência deve ser definida pelo médico. Mas, no caso das pacientes com risco aumentado, com histórico familiar da doença por exemplo, a recomendação do exame anual começa um pouco mais cedo, com 35 anos.
Uma dica, alguns hospitais em todo Brasil, em decorrência da campanha "Outubro Rosa", estão realizando neste mês exames de mamografia gratuitamente, sem a necessidade de um pedido médico. Procure se informar sobre estas oportunidades na sua cidade e, se você tem acesso ao serviço particular de saúde, alguns convênios também neste mês, aceitam o pedido médico feito por qualquer especialista para que você realize a mamografia.
É muito importante estar atenta à estas questões, mesmo jovens, estar por dentro do assunto e espalhar estas informações, pode salvar a vida das mulheres que você ama. Que tal cuidarmos umas das outras?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

LUDMILLA NÃO É A MAIOR DESCONSTRUIDONA QUE VOCÊS RESPEITAM

setembro 28, 2016 2
As situações as quais nós mulheres negras, principalmente as de pele escura e cabelo crespo, somos submetidas todos os dias, muitas vezes nos expondo ao ridículo, nos levando a depressões e outros problemas psicológicos, parecem não terem somente os racistas como impositores.
LUDMILLA NÃO É A MAIOR DESCONSTRUIDONA QUE VOCÊS RESPEITAM
As dezenas de compartilhamentos que vi hoje, das fotos da cantora Ludmilla após todas as suas cirurgias plásticas, vieram de pessoas negras. Homens e mulheres, não foram dois ou três amigos, foram mais de vinte vezes em que eu tive de ocultar essa publicação na minha timeline. Bom, é normal e esperado que tudo que passe na minha linha do tempo venha de pessoas negras, afinal, são mais 70% dos meus amigos nesta rede social. E também é bem verdade que esta discussão vem rolando nas redes sociais a vários dias, Ludmilla vem fazendo transformações nas suas características negroides a várias semanas. 
O problema não está em compartilhar piadas, eu não sou aquela que virou ativista e não sabe mais rir de piadas, mas sim, em expor ao deboche novamente uma mulher negra, que certamente chegou a este ponto por todo deboche e pressão que sofreu durante a vida. 
Esqueçamos aqui quem é a Ludmilla, celebridade e que aparece na mídia conquistando fãs e haters, mas vamos tratá-la como um mulher negra "qualquer", destas que nós encontramos na rua todos os dias. Sempre que eu vejo uma mulher negra numa destas situações que nos causam "vergonha alheia", eu não consigo mais debochar ou ficar de piadinhas, porque eu sei que poderia ser eu naquele lugar ou qualquer outra mulher negra, que como tal, não precisa de mais piadas e mais opressão, já fizeram isto o bastante para que ela chegasse até o tal ponto. 
Não consegue associar essa situação com nenhum caso "comum"? Eu ajudo a pensar numa situação mais próxima. Por muitos anos, eu usei aplique nos cabelos. Das muitas preocupações de quem usa aplique estão duas, cair uma mecha numa situação inoportuna, ter menos cabelo no aplique do que se deveria e ele ficar totalmente separado do seu cabelo, dando aquele efeito mais falso possível. E não é raro ver isto nas ruas, um aplique tão mal feito, mas tão mal feito, que você pensa: "nossa, como essa mulher preferiu se submeter a esse papel, do que assumir o próprio cabelo?" Mas não podemos esquecer, que ela prefere ter aquele cabelo "mais ou menos bonito" do que o seu próprio porque provavelmente, ela deve considerará-lo muito "pior" que aquilo. Consegue imaginar o quanto de opressão essas mulheres sofrem, para aceitarem ser sujeitadas a este papel vexatório?
Porém hoje, nós temos os super heróis da auto-estima negra, os "empoderadões", aqueles que já transcenderam todas as opressões, não se importam mais em serem chamados (por vezes aos gritos) de "cabelo duro" nas ruas, não se importam mais em ter o nariz ou a boca como centro de piadas, ou até se importam, mas sabem responder à altura e exaltar a sua estética em revide a esse tipo de comentário racista. E não há nenhum problema nisto, a menos que você se esqueça que nem todos são "os desconstruidões que você respeita"!
Assim como diversas mulheres negras se sujeitam aos mais diversos papéis que nós, criaturas que não sofrem de auto-ódio, não nos sujeitaríamos, a Ludmilla não está imune a isto. O fato dela ser uma celebridade, não a protege dos racistas. Ter dinheiro neste país, não nos blinda dos racistas, nunca nos esqueçamos disto. 
Por último em relação a todas as piadas, xingamentos, deboches e ofensas que a Ludmilla tem recebido, seria interessante os negros pensarem: já pararam para ler e perceber, que vocês estão falando exatamente como os nossos opressores nestes comentários? Não se trata aqui de defender a Ludmilla, há diversos traços no comportamento dela que não concordo, mas sim de me posicionar ao ver vocês desconstruidões da internet, criticarem uma mulher preta que está apenas tentando fugir da nossa estética, que todos os dias é diminuída, ridicularizada e alvo de RACISMO. O racismo é uma máquina, que nos esmaga todos os dias, das mais diversas formas, somos alvos de piadas, nenhum meme ou vídeo viral sobre "cabelo ruim" tem uma personagem branca, loira e lisa como centro, porque será? Vamos fazer neste momento um exercício de consciência, quantas vezes vocês imaginam que, por ser uma pessoa exposta na mídia, esta mulher sofreu com o racismo? Quantas vezes a mídia não deve ter exigido que esta mulher se embranquecesse para alcançar o sucesso? É sabido que no Brasil, a preta que faz sucesso tem cabelo liso ou ondulado, pele clara e nariz fino. 
Por tudo isso, façamos o exercício de entender que a Ludmilla é apenas mais uma mulher negra, sucumbindo ao sistema de branqueamento que opera nesse país desde que o negro é negro por aqui, que ela está reagindo a opressão exatamente como muitos de nós reagimos tempos atrás, que a mídia que paga o trabalho dela exige isso para que ela continue ganhando dinheiro e, imagino que ninguém aqui esteja muito disposto a deixar de ganhar dinheiro pela militância, não é mesmo?

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