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quarta-feira, 22 de maio de 2019

VOCÊ QUER O FIM DO PRIVILÉGIO OU APENAS QUER FAZER PARTE DELE?

maio 22, 2019 0
"Ah, mas, mulher preta também erra...". Erra, claro que erra! Mas, aqui estamos na frente de um probleminha bem maior.


Imagem: Retirado do site: Negrospe.blogspot.com 
Em tempos de exposição na internet para "resolver" divergências políticas e morais esbarramos em algo que até pouco tempo tínhamos como consenso não fazer. Uma delas, expor as atitudes que consideramos erradas e partiram de pessoas pretas no intuito de envergonhá-las ou fazer com que elas repensem atitudes que repudiamos. Era comum a máxima de que "a nossa roupa suja se lava em casa" e que expor os problemas internos da comunidade negra para o "grande público" – lê-se a branquitude que, ao presenciar estas discussões internas reuniria "ferramentas" para ataques desnecessários a pessoas ou grupos internos a comunidade negra – logo, silenciar publicamente para "não rechaçar os nossos", era um comportamento esperado, afinal, temos problemas maiores para nos preocupar – como, por exemplo, o genocídio do povo negro.

Acontece que vamos agora admitir que a internet também é nossa casa, ou seja, ao admitir que a internet também é um campo de disputa de poder para o povo negro, além de ser plural. Isto é, não é mais de negros versus brancos, mas, pessoas versus pessoas, admitimos que disputas criadas no campo virtual são passíveis de se desenrolar dentro dele, não importando que os personagens sejam pessoas negras. A internet é nossa casa e nossa roupa suja também pode ser lavada aqui.

Pessoas pretas são diversas. "Não somos garras de coca-cola" e não devemos nunca ser considerados como uma massa que pensa e age igual desconsiderando nossas especificidades e está tudo certo em discordarmos. Ou deveria estar.

Quando isso não acontece, a tendência é que várias pessoas se manifestem no sentido de demonstrar que tiveram seus sonhos quebrados, destruídos. Vira as vezes um longo roteiro de lamentação sobre ídolos perdidos. E este comportamento é extremamente perigoso. Primeiro, porque não devemos idolatrar (sem nenhum sentido cristão) as pessoas que admiramos, isto os torna inatingíveis, os desumaniza e corremos o grande risco de nos decepcionar com atitudes que são normais, humanas. E em segundo lugar, é preciso admitir que já passou da hora de colocarmos pessoas negras em locais imaculados (também ignorando o sentido cristão) e completamente perfeitos. Seres humanos negros são diversos.

Mas, para além da preocupação da desumanização por detrás disso, está um outro ponto muito importante: embora esperemos que as pessoas errem, afinal, são humanas, não devemos "justificar" comportamentos que vão contra o empoderamento coletivo.

Em seu livro O que é empoderamento?, a autora Joice Berth destaca a importância de ações coletivas que levam ao empoderamento. O empoderamento individual, este que não vai levar ao avanço da comunidade negra que, mesmo diversa, deve caminhar para a frente. É por isso que lutamos e por isso que entendemos a importância da equidade racial.

As críticas que muitos insistem em pessoalizar, transformar em "ataques de inveja" podem ir muito além disto. Explico.

Pessoas negras com acesso a meios institucionais que a maior parte da população negra não tem, não deveriam usar estes acessos no empoderamento individual, com carreiras e visibilidade – na internet – que lhes permitem acessar alternativas que outras pessoas não tem. Rafael Braga, por exemplo, embora tenha tido visibilidade não poderia nunca usar de artifícios do sistema ao seu favor, por não deter o capital cultural necessário para isso. Já pessoas negras que vivem num meio branco falando sobre a negritude e lucram com isto, tem uma entrada diferente e, ao entrar no sistema para mudá-lo de dentro assumem o risco de que o sistema também aja sobre elas. Neste momento deixam de apenas estar lá dentro para mudar, mas, também passam a fazer com que, em alguma medida, o sistema funcione para elas.

É lógico que, enquanto pessoa preta, este indivíduo jamais irá subverter a ordem social, mas, esses microabusos passam a ser cometidos de maneira deliberada. Aí que é que está, não é mais "um erro ao qual está sujeito todo humano".

Enxergar e sinalizar isto não é desumanização deliberada, não é tirar da pessoa preta o direito de errar. É apontar um erro sistêmico que leva o buraco bem abaixo.

Quem_tem_medo_do_feminismo_negro_djamila_ribeiro_treta_acao_judicial_movimento_negro

sábado, 15 de dezembro de 2018

CINCO MOMENTOS EM QUE FEMINISTAS BRANCAS FORAM TÓXICAS AO MOVIMENTO DE MULHERES NEGRAS

dezembro 15, 2018 4
A Brazilian family in Rio de Janeiro by Jean-Baptiste Debret 1839
"Vocês querem separar o movimento...", "Estamos todas sob a mesma opressão...", "Eu acho que você não entendeu direito o que eu quis dizer...”
Essas e outras frases são comuns nas falas de mulheres feministas que, embora acreditem estar em defesa de todas as mulheres, ainda tem seu julgamento e atitudes formados por estereótipos racistas, mas é como diz aquele velho ditado: de boas intenções o inferno está cheio!

1 – ELA É QUASE DA FAMÍLIA...

A relação das mulheres brancas – e ricas – com o serviço doméstico é algo que antropologia precisa urgentemente estudar. Em African Woman - A Political Economy, da autora Meredeth Turshen, publicado em 2010, a autora discute como a liberdade das mulheres brancas de classe média levou as mulheres negras das classes mais baixas africanas à outra opressão, a de estarem relegadas a executar as tarefas dentro do lar para aquelas mulheres que alcançaram a sua “liberdade profissional”. Embora esteja clara a intenção de escrever isso, acho interessante explicar que: isso não é sobre querer que as mulheres brancas não saiam de casa e conquistem seus empregos, é sobre dizer que elas precisam logo entender que a liberdade construída em cima da opressão de mulheres negras não contempla as mulheres negras.

2 – ABAIXO O PATRIARCADO OS HOMENS DO MUNDO!

Aqui concordamos em um ponto, a estrutura da sociedade patriarcal não é positiva para nós, mulheres. Isto é um fato. O machismo, que não é o contrário do feminismo, não é positivo e não nos contempla, nos mata, nos fere e nos violenta todos os dias. Nós, mulheres negras, somos provas físicas e numéricas de que o machismo mata. Nos últimos 15 anos, segundo o mapa da violência divulgado em 2016, o número de mortes violentas das mulheres brancas caiu pouco mais de nove por cento, enquanto o assassinato de mulheres negras subiu mais de 50%, então, nós precisamos sim gritar contra o sistema que está posto. Por outro lado, há uma dificuldade de compreender as mulheres negras que ao mesmo tempo que lutam contra o machismo também lutam pelos homens negros. A população carcerária do Brasil cresceu mais de 600% nos últimos 10 anos, em especial após a nova lei “antidrogas” que criminaliza o pequeno comércio e os homens negros são a maioria nas prisões - a autora Juliana Borges discutiu em seu livro O que é encarceramento em massa? (2018) o aumento exponencial da população carcerária e vale a pena a leitura. Estes homens são nossos filhos, irmãos, amigos, companheiros, netos, sobrinhos e somos nós, mulheres negras, muitas vezes a única esperança de alguém lutando por seus direitos aqui fora. Portanto, quando você feminista branca acredita que o problema está unica e exclusivamente nos homens, nós temos muito ainda para lhe mostrar.

Mãe Preta (lLucílio de Albuquerque), tela, c. 1917, Museu de Arte da Bahia

3 – A NUDEZ EMPODERADORA QUE NEM SEMPRE NOS CONTEMPLA

É importante saber que cada uma faz do seu corpo o que quiser, mas, um resgate histórico breve do lugar do corpo da mulher negra em nossa sociedade mostra muito bem onde a nossa nudez foi colocada. O corpo negro, tanto homens quanto mulheres, é historicamente hipersexualizado e, como disse Elza Soares, “A carne mais barata do mercado é a carne negra...”. Esse lugar de peça exposta já foi dado as mulheres negras desde o nosso primeiro sequestro, os estupros praticados pelos senhores ou mesmo os castigos impostos pelas sinhás quando as mulheres negras “seduziam” seus maridos – lê-se, eram estupradas por eles – tudo isso é reflexo da forma como nosso corpo é apresentado e, ainda assim, há várias críticas do feminismo branco à episódios como no caso em que foi – finalmente – vestida a “Globeleza”. Este corpo besuntado de óleo e exposto nu não é mesmo a representatividade que estamos buscando e vestir o símbolo nacional da “mulata do samba” para nós é uma pequena vitória.

4 – OS ESTEREÓTIPOS DE FEMINILIDADE

Ao mesmo tempo que comemoramos o progressivo fim da Globeleza nós ficamos felizes quando mulheres negras vencem o concurso de Miss Brasil. Aí a feminista branca se pergunta, 
“MaS cOmO aSsIm?”.
Então, minhas caras, lhes explico: O lugar de carne barata, da mulher “não mulher”, daquela que tem que lutar para ter sua humanidade e feminilidade reconhecidas sempre foi das mulheres negras. Entendemos que o machismo coloca as mulheres – todas as mulheres – em lugar de inferior ao homem, mas, no caso das mulheres brancas ambos continuam sendo humanos e de nós foi tirada inclusive a humanidade. Angela Davis discute em seu livro Mulheres, classe e raça (2016), como as mulheres negras foram, junto com os homens negros, retiradas da categoria de humanas. O discurso de Sojourner Truth no século XIX (1851) é um grito por existência, humanidade e, porque não, feminilidade. Por isto, entendam, lutar contra os estereótipos de gênero ligados as mulheres brancas – princesinha, sensível, aquela que necessita de cuidados – não é uma pauta que historicamente seja das mulheres negras, afinal, não sou eu uma mulher? Pois bem, ter a nossa humanidade e feminilidade reconhecidas também pode ser então positivo neste sentido. O mesmo sobre as flores do dia da mulher, como disse anteriormente, nós somos a prova física e numérica da violência contra mulher e flores definitivamente não eliminam as nossas mortes, mas, queremos as flores também, queremos a humanidade também.

5 – PORQUE RADFEM NEM É GENTE!

Ah, os memes, estes que se expressam melhor do que eu jamais poderia!
O feminismo radical, que certamente deve ter coisas mais interessantes do que esta parte que menciono, é um bom exemplo de como o feminismo branco – e entendo que podem haver mulheres negras nesse movimento, fazer o quê?! – ainda precisa entender muito sobre recortes. O Brasil é o terceiro país mais perigoso para uma pessoa trans ou travesti, o país que mais mata e mais consome pornografia do gênero, ao mesmo tempo e ainda assim é possível encontrar discursos contra a população transexual dentro desta vertente do feminismo. Se cruzamos os dados teremos então a cor das pessoas trans que mais sofrem. E o mais curioso nisso tudo é que, a raiz do movimento do feminismo radical, veio exatamente da necessidade de acolher os homens trans, bizarro, não?
As mulheres transexuais são diariamente empurradas para a prostituição por motivos óbvios, o racismo é mais um ingrediente da criminalização destes corpos e para completar conseguimos encontrar um movimento feminista que – certamente, entre outras pautas relevantes – se dedica a discriminar estas mulheres. A pergunta que não quer calar é: precisa mesmo?
Toda a problemática de performar gênero e feminilidade já foi respondida no tópico anterior deste texto, se não entendeu, basta voltar um ponto.


Por fim...

Precisamos entender que dizer tudo isto não é uma conclusão de que a vida das mulheres brancas está ótima, um conto de fadas, acabou machismo, nada disto! Mas, reconhecer as diferenças é o primeiro passo para solucioná-las, apagar as diferenças que a raça provoca dentro do gênero e fazer com que estas divergências não sejam discutidas é a maneira mais eficiente de fazê-las permanecer. Só poderemos considerar o feminismo uma luta de todas, quando todas estas pautas  forem discutidas e antes de mencionar que o feminismo não é "mãe" para "resolver todas as opressões", eu te pergunto, "E não sou eu uma mulher?".

segunda-feira, 9 de maio de 2016

CAFÉ DAS PRETAS: PARTILHAR É SE CURAR UMA NA OUTRA

maio 09, 2016 0

Acontece hoje logo mais a noite em Belo Horizonte o segundo "Café das Pretas", idealizado e realizado pelas mulheres do Coletivo "Pretxs em Movimento", do qual eu também faço parte.
Já faz algum tempo que coletivos de mulheres negras vem se organizando para discutir "internamente" as questões do machismo e de como podemos pará-lo dentro da comunidade negra, porém nós sentimentos a necessidade de envolver (na medida do possível) os homens negros nesta discussão.
Ainda que nós saibamos que o machismo é uma das bases que sustenta o modelo de sociedade em que vivemos atualmente e que os homens se beneficiam disto não adianta que nós tenhamos conhecimento disto apenas, é preciso que eles saibam e se estiverem dispostos entrem num processo de desconstrução disto.


O projeto "Café das Pretas" nasceu dentro deste coletivo que tem como propósito fazer com que homens e mulheres negras ocupem de forma IGUALITÁRIA espaços na política e acho que um ponto positivo é que os homens deste grupo estão (ou pelo menos parecem bastante) dispostos a caminhar junto com as mulheres e entender que o respeito a figura feminina é uma das coisas que nos fará sair do lugar que consideram "lugar do negro" na sociedade atual.
O evento de hoje é uma roda de conversa mediada em que as mulheres negras falam e os homens ouvem para refletirem sobre o seu lugar de abusadores em muitas relações, por exemplo. Espaços assim são raros de existir porque geralmente quando as mulheres param para para apontar aos homens o seu machismo e outras características negativas, logo são apontadas de loucas, exageradas, entre outros adjetivos que buscam apenas tirar a credibilidade das nossas pautas que são tão pertinentes.
Está em Belo Horizonte? Então venha tomar este café conosco, será um comecinho de noite muito agradável para trocarmos experiências, carinho, afeto e buscar entre nós e com os homens, soluções para um dos problemas que mais nos afetam atualmente: o machismo. O encontro será no Espaço Negras Ativas que fica localizado a Rua da Bahia, 573, 7° andar, sala 703 no Centro de Belo Horizonte e vai começar às 18:30 horas. Teremos lanche coletivo e todxs podem ficar a vontade para contribuir. Vamos lá trocar amor?

domingo, 24 de abril de 2016

LEMONADE: O NOVO "TIRO" DA BEYONCE ~ FAÇA O DOWNLOAD

abril 24, 2016 0

Ainda não estou conseguindo falar muito sobre o álbum #LEMONADE porque, convenhamos, acho que a Beyoncé fala o que deveria estar entalado na cabeça e no coração dela a bastante tempo enfrentando críticas e mais críticas em relação ao seu posicionamento em relação a sua raça. Beyoncé nunca negou que era negra, mas não é segredo para ninguém: A MÍDIA SÓ ACEITA GENTE BRANCA e embranqueceram ao máximo a Bey para que ela coubesse neste papel de DIVA nos Estados Unidos E NO MUNDO, portanto esse álbum chega a ser um alento para nós fãs negros que por vezes tivemos que usar a nossa voz para dizer que toda aquela maravilhosidade é sim, negra e se orgulha disto. Agora, ela mesma disse em 12 faixas e com todas as palavras exaltando negritude e ancestralidade. Por isso só posso dizer, que ainda estou no chão e compartilhar com vocês esse tiro!

Beyoncé, Lemonade, Faixas do Disco:
1. “Pray You Catch Me”
2. “Hold Up”
3. “Don’t Hurt Yourself”
4. “Sorry”
5. “6 Inch”
6. “Daddy Lessons”
7. “Love Drought”
8. “Sandcastles”
9. “Forward”
10. “Freedom”
11. “All Night”
12. “Formation”

Agradecimento especial do Ricardo "Laranjudo" que disponibilizou o link para download deste tiro completo ~ CLIQUE AQUI OU NA IMAGEM ABAIXO



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

SOBRE RÓTULOS: SABE A LÍVIA? AQUELA PRETINHA MARRENTA...

fevereiro 15, 2016 0


Cresci acostumada a ser rotulada desde a época da escola, e NUNCA eram rótulos legais assim de primeira, sou aquele tipo de pessoa que geralmente depois da primeira conversa sempre escuta: "Nossa! Achei que você não era legal, antes de conversar com você". Eu aprendi que não posso dar muita trela para os homens, desde criança nós meninas somos ensinadas que nós é que devemos tomar cuidado com os meninos, eles nunca são ensinados que devem nos respeitar. Então como era esperado eu cresci criando barreiras entre eu e os homens que não estivessem no meu círculo de convivência (e isto permanece pois confio cada vez menos nos homens). Cresci numa sociedade machista e até bem pouco tempo não tinha consciência, de que a estrutura que fomos criadas é que faz com que consideremos imediatamente qualquer mulher como "inimiga", isto cria uma antipatia por vezes intransponível entre mulheres, afinal "ela pode ser invejosa" ou "uma recalcada" querendo tudo o que é seu, somente hoje tenho consciência de que não é bem assim.

Mas alguns rótulos me acompanham desde esta época, hoje mais empoderada, conhecendo mais de como racismo e machismo caminham lado a lado, consigo fazer uma análise de rótulos que são comumente associado às mulheres negras. Quem nunca ouviu a expressão "neguinha de favela" ou "neguinha barraqueira"? Referindo-se a mulheres nervosas ou histéricas.
Normalmente a sociedade não ouve as mulheres, se ela for uma mulher preta então? Piorou! E qual a saída para sermos ouvidas? Falarmos de forma firme e se necessário for, gritar para que nossa voz seja percebida. Não há nenhum problema nisto, o problema está na sociedade que é doente, e tenta a todo custo dar a entender que as mulheres que "não se comportam como devem" precisam ficar a margem. O caso é que a saída para nós termos voz é nos comportar de maneira firme, por isto a sociedade está o tempo todo nos colocando a margem.

Os rótulos são vários: de antipática por não dar risadinha de piada racista, machista, misógina, transfóbica, gordofóbica, ou de marrenta por não achar que eu sou pior que ninguém não deixando nunca de me colocar quando acho que devo, de folgada pois respondo a altura toda e qualquer ofensa, venha de quem venha... Estes esteriótipos sempre me acompanharam, mas hoje fazem mais sentido quando vem de homens machistas, gente racista e outras pessoas com a cabeça de senhores e sinhás de engenho.

E aí você deve se perguntar: Como lidar com isto Lívia? Não se lida, se as pessoas lhe rotulam por conta de esteriótipos racistas este é um problema da sociedade e não seu! Ninguém tem que ser racista, machista, gordofóbico ou ter qualquer outro tipo de preconceito, para ser aceito. Se a turma que você anda está lhe dando estes rótulos por estes motivos, talvez esteja passando da hora de você rever o seu círculo de amigos, não é mesmo?

Ao longo dos anos da minha vida, melhorei muito como pessoa e principalmente após a maternidade, pude experimentar ser um tipo de ser humano que nem eu sabia que conseguiria, muito do meu imediatismo foi embora e hoje minhas repostas rudes são direcionadas ao "alvo certo". Então quando vierem críticas, lembrem-se que as mulheres negras vem carregando rótulos a muito tempo pois fomos criadas numa sociedade que é obrigatório saber se defender. Quanto as criticas que recebemos, temos que absorver os pontos de melhoria e o resto deixar ir assim como chegou, estes esteriótipos que criam para a nossa  raça é um problema deles. Racistas, machistas e todos os outros preconceituosos terão que aprender a lidar com esse novo modelo de sociedade, em que os oprimidos não se calarão.

sábado, 19 de dezembro de 2015

QUAL A MINHA MOTIVAÇÃO PARA ASSUMIR O CABELO NATURAL?

dezembro 19, 2015 1
Esta pergunta tem sido frequente na minha vida desde que assumi os meus cabelos e não tenho problema nenhuma em respondê-la pelo contrário, adoro contar a minha história capilar que na maioria das vezes serve para encorajar a outras mulheres negras e crespas, fazendo-as acreditar que é possível sim ser feliz com os nossos cabelos naturais e livres!
Eu já contei para vocês aqui no blog que alisei os meus cabelos por doze anos. O primeiro relaxamento foi por volta dos dez anos com um produto considerado "fraquinho", diluído em creme de hidratação e só para "abaixar o volume". Há quatorze anos atrás, cabelo crespo era considerado desleixo e não era possível a menina sair com "aquele cabelo" na rua ou do contrário, o que as pessoas iriam pensar não é mesmo? Pois do relaxamento fraquinho eu parti para o relaxamento de fato, depois o alisamento e por fim (quase fim mesmo do meu cabelo) o alisamento com progressiva a base de formol! O meu cabelo é CRESPO, vai do 3C ao B e era realmente impossível encontrar um produto que de fato deixasse o meu cabelo "liso" por isso ele sempre deixou evidente que ele era "alisado", não passava nem perto da aparência natural. Depois de muitos produtos fortes, alergias a formol, caspas, cortes químicos e quebras um dia decidi colocar um megahair porque eu realmente NÃO TINHA MAIS CABELO, era colocar a mão e ele simplesmente se soltava da raiz ou quebrava. Fiquei dois anos no total usando alongamento até que caiu a ficha: "eu estou pagando para alisar o meu cabelo e colocar um cabelo cacheado, qual é o meu problema?". Nunca havia me feito esta pergunta sinceramente e menos ainda havia parado para pensar que eu estava pagando rios de dinheiro para fazer o que a natureza já havia me abençoado de graça, risos. O bichinho da economia me mordeu e eu resolvi parar com as químicas mas eu não conseguiria ainda tirar o megahair porque meu cabelo destruído até então não estava "socialmente apresentável". 
Estamos acostumados a ver na tv ganhando cada dia mais espaço, os cachos não é mesmo? Mas eu não tinha certeza se tinha cachos (e de fato não tenho os cachos 3A que todo mundo quer ter) e ainda estava meio insegura em assumir os meus próprios cabelos. 

O que no começo era só vontade de economizar dinheiro com relaxamento, passou a ser vontade de parar de gastar com alongamento e por fim virou vontade de abandonar todas as imposições da sociedade. Um dia você para e se pergunta: "Porque é que eu estou alisando os meus cabelos?" ou "Porque é que eu passo tanto tempo tentando me encaixar numa coisa que eu não sou?". E essa foi a tacada final para que eu decidisse de vez que não deveria mais buscar me encaixar!
A decisão de entrar em transição é única e exclusiva da mulher, não adianta a amiga, a vizinha, a cunhada, a tia ou a prima tentarem enfiar goela abaixo que não vai. Cabe a própria mulher se conhecer, se amar e decidir se desprender de todo o padrão que temos imposto hoje em dia. O que não quer dizer que seja fácil nem obrigatório. Esta porta só abre pelo lado de dentro mas todo mundo precisa de um abraço para vir aqui pra fora. 
Agora me conta, qual foi o seu motivo para assumir o seu cabelo natural? Espero que tenham curtido este post e que ele sirva para incentivar quem ainda está com aquele pezinho na indecisão. Abraços, até a próxima!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NÃO FOI A BONDADE DE BELL MARQUES

dezembro 17, 2015 0
Esta semana foi divulgada a notícia de que o cantor Bell Marques terá que mudar a letra de sua música racimachista se quiser continuar reproduzindo ela por aí e nas redes sociais circula a nota de esclarecimento do cantor onde ele coloca que "não foi por pressão" que resolveu modificar o absurdo que ele pretendia cantar no carnaval 2016. Bell Marques conta que foi convidado pelo Ministério Público da Bahia e foi de "boa vontade" ouvir o que as promotoras tinha a dizer sobre a sua música e dá a entender que, por ser "bonzinho" ele resolveu que modificaria a canção junto aos seus compositores. 
Bom, mas não é bem assim não é mesmo? Fui atrás de estudar um pouco para entender o que de fato aconteceu com o sr. Bell Marques e compreender que ele não é tão bonzinho, compreensivo assim e mais, que o Ministério Público da Bahia agiu sim e não somente o convidou a tomar um café aproveitando para apelar ao seu bom-senso.

O que é um TAC? O que Bell Marques assinou na reunião que teve no MP-BA foi um TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA e vou colar aqui a definição disto para que vocês possam entender:

"O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), também conhecido como Compromisso de Ajustamento de Conduta, há quase 20 anos, tem sido um instrumento de resolução negociada de conflitos envolvendo direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos muito utilizado pelos órgãos públicos de defesa do consumidor, principalmente pelo Ministério Público.  A utilização do TAC é feita, por excelência, no âmbito extrajudicial, nos autos de inquérito civil ou procedimento similar, instrumento destinado a investigar lesão ou perigo de lesão a interesses ou direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos de consumidores. O objeto do TAC é prevenir, fazer cessar ou buscar indenização do dano aos interesses acima mencionados.  Quando o escopo do TAC é prevenir ou fazer cessar dano aos interesses em questão, a obrigação a ser assumida é de fazer (obrigação positiva) ou não fazer (obrigação negativa ou de abstenção). O TAC pode ter por objeto, simultaneamente ou não às obrigações antes apontadas, obrigação de indenizar (danos a interesses individuais homogêneos ou dano coletivo: material ou moral, ex: publicidade enganosa). Os direitos que podem ser objeto do TAC são, entre outros, os referentes ao meio ambiente, ao consumidor e à ordem urbanística. A área em que o TAC é mais utilizado é a do consumidor, pois esta confere maior margem para negociação para as partes (órgão público representa a parte ideal = coletividade). Em síntese: o TAC é um instrumento legal destinado a colher, do causador do dano ao consumidor coletivamente considerado, um título executivo extrajudicial de obrigação de fazer, não fazer ou de indenizar, mediante o qual o compromitente assume o dever (ou obrigação) de adequar sua conduta às exigências legais, sob pena de sanções fixadas no próprio termo de ajustamento de conduta." Fonte: Marco Antonio ZanellatoProcurador de Justiça

Em resumo, o termo de ajustamento de conduta é uma ação do MP quando as partes tem condição de entrar num acordo que seja considerado bom para ambas mas, ainda estando clara a posição do que causa o dano e o prejudicado, bem como punições e ações que devem ser tomadas afim de reparar o dano que foi causado.

Apesar de todos os comentários estarem sendo excluídos das redes sociais de Bell, as promotoras do caso afirmam terem usado prints das reclamações para fortalecer a ação que levariam ao Ministério Público e, antes que dessem entrada na ação, o advogado de Bell as procurou e disse que eles teriam o interesse de conversar com o MP. 


"Uma das promotoras do caso, Márcia Teixeira, que também é coordenadora do grupo de Atuação em Defesa das Mulheres e Defesa LGBT (Gebem/ LGBT) relatou como o cantor procurou o MP.“Rapidamente essa música foi lançada e começaram a surgir várias manifestações nas redes sociais. Nós printamos as denúncias e realizamos um procedimento preparatório de investigação. Na sexta-feira (11), o advogado de Bell nos procurou a pedido dele, informando que Bell tinha interesse de conversar com o Ministério Público, porque nem ele, nem os compositores tinham interesse em fazer qualquer conteúdo discriminatório”, relatou a promotora.Márcia ainda esclareceu os detalhes do TAC. “Nossa proposta foi que a música fosse trabalhada em uma nova versão, o que eles acolheram imediatamente. Outra proposta foi que eles produzissem, durante o carnaval 2016, um material através de ventarolas [abanador de papel] e plotagem do trio elétrico, que promovesse uma campanha de combate ao racismo e violência contra as mulheres”, explica.“Depois do carnaval, eles devem fazer materiais de combate ao racismo também. Toda essa campanha será divulgada nos meios de comunicação. Além disso, Bell ofereceu um espaço no trio dele para que um representante do MP, que integra o Observatório do Carnaval [centro onde o público pode fazer denúncias de racismo, casos de desrespeito, homofobia e violência contra mulher], trabalhe durante a festa, e assim termos um observatório móvel. Este último não está na TAC, foi uma proposta de Bell”, completou a promotora." Fonte: Nitro News Brasil  


Entendendo o que é um TAC e entendendo que nossas manifestações nas redes sociais foram sim ÚTEIS para que algo fosse pensado e principalmente feito contra esta música racista e machista nós conseguimos ter a noção da dimensão e força do ativismo digital. Caso nós não tivéssemos nos manifestado contra a música preconceituosa do cantor ela continuaria ecoando no carnaval da Bahia (e do Brasil inteiro pelo visto) em 2016. Bell Marques não foi bonzinho em repensar sua atitude, ele entendeu que nós hoje temos uma voz poderosa, consciente e que principalmente, não iriamos levar na brincadeira a atitude racista e machista do cantor junto aos seus compositores.

Após todas as manifestações de mulheres, homens e o povo negro indignado com a música do cantor, ações foram tomadas e ao descobrir a dimensão das nossas ações, ele retrocedeu! O povo negro venceu, povo negro unido é povo forte e #RacistasNãoPassarão!

domingo, 1 de novembro de 2015

A UNIÃO DAS MULHERES PRETAS

novembro 01, 2015 0

O post de hoje se faz necessário por uma coisa que vejo todos os dias, me incomoda demais e talvez incomode a outras pessoas que ainda não escreveram sobre o assunto. A sociedade da qual fazemos parte ensinou para as mulheres de forma geral que via de regra nós somos "azinimigas", outra mulher será sempre rival, a adversária, aquela com quem você vai disputar desde a sua própria aparência até homens mas de forma alguma é culpa nossa reproduzir esse comportamento ok? Quem nunca se sentiu "provocada" por uma mulher "mais bonita" em algum momento da vida? Pois é isso, fomos condicionadas a acreditar que não devemos confiar em outras mulheres pois elas são sempre as histéricas, loucas, falsas que estão sempre prontas para dar o bote. Ou pior, a outra mulher é sempre a "p*ta oferecida" que vai "roubar" o seu precioso homem de você. 



Mais recentemente tem surgido várias "rixas" entre as mulheres negras: alisada x cacheada, transinete x cacheada/crespa, crespa x cacheada e por ai vai... Precisamos observar isso com um foco crítico: quem ganha com isto

Já pararam para pensar que pode ser qualquer pessoa, menos a mulher negra?
A única pessoa que poderia ter uma vivência parecida com a sua e talvez, lhe mostrar um novo ponto de vista você afasta e outra pessoa que não tem nenhuma ligação com o seu histórico social, você atraí e por vezes defende em detrimento a uma irmã da mesma cor! Espera aí, isso está certo? 

Precisamos nos unir e enxergar a situação além daquilo que o sistema nos ensinou desde o principio, mulheres negras unidas podem conquistar o mundo, pensem nisto!
Permaneçamos juntas e até o próximo post!


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

MULHER NEGRA: A CONSTRUÇÃO A AUTOESTIMA

outubro 22, 2015 0

Oi mulheres, tudo bem com vocês? É sempre ótimo ter cada uma de volta ao blog e receber o retorno das manas de que estou fazendo um bom trabalho! O assunto de hoje é especial e delicado mas que precisa ser discutido sempre e a cada dia para que isso seja natural nas próximas gerações de mulheres negras.
As pretas da minha geração cresceram ouvindo muitas piadinhas racistas que massacraram a nossa autoestima, comentários sem nenhuma razão de serem engraçados ou normais mas que, por vivermos numa sociedade naturalmente racista, foram normalizados e colocados como algo que deveríamos ser consideradas culpadas. Ficou instituído então que a mulher negra não poderia ser considerada bonita, não dentro dos padrões eurocêntricos da sociedade brasileira, assim quando vinham os elogios eram sempre dizendo "Nossa como você é uma negra bonita!", sempre ressaltando que é incomum ou como eles gostam de dizer "exótico", uma mulher negra ser bonita. 
A construção da autoestima da mulher negra tem importância além daquilo que vemos no espelho, atualmente mais de 60% das vítimas de violência doméstica são mulheres negras, sabemos que uma mulher que é manipulada pelo seu agressor geralmente além da violência física sofre de violência psicológica e o agressor tem como arma o racismo aliado ao machismo. Usa dos nossos traços ou características para ferir e dar a mulher negra a sensação de que a estética dela é completamente rejeitada pela sociedade logo, ele pode ser considerado um salvador por "aceitar" aquela mulher cujo a estética é desprezada por muitos.
Por muitas vezes, nós mulheres negras não acreditamos na nossa beleza exterior exatamente por todo este "trabalho bem feito" da sociedade em tornar desprezível todos os nossos traços. Quantas vezes vocês já ouviram alguém dizer que não gosta do próprio nariz, ou o quadril, ou os lábios grossos? São todas características da nossa raça que fomos sistematicamente ensinadas a achar visualmente "feias". Quanto mais escura a pele, mais a dificuldade em ser considerada beleza padrão e é isto que precisamos nos esforçar para mudar, principalmente em relação as nossas crianças!

Rainha do Mundo, Lupita! Ressignificando a beleza da mulher preta!
A Gabi Oliveira do Canal DePretas tem um vídeo ótimo sobre O QUE NÃO DIZER QUANDO NASCE UMA CRIANÇA NEGRA e é bem útil, porque realmente é um excelente ponto para começar a tratar, desconstruir e desenvolver em nós!
Precisamos trabalhar em conjunto para o fortalecimento da nossa autoestima individual e de todas as irmãs, só assim conseguiremos transmitir isso as próximas gerações de mulheres negras! 
Voltem sempre ao blog. Beijos e até o próximo post!


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

UM ASSUNTO RECORRENTE NOS GRUPOS DAS PRETAS: ESTAMOS SÓS

setembro 04, 2015 7
Eu sempre estive mais tempo sozinha do que emocionalmente entregue num relacionamento e eu sempre achei que isso fosse culpa minha de alguma forma. Talvez eu fosse brava demais, independente demais, ingrata demais... Ou falava demais, me entregava demais, amava demais, os fins sempre chegavam mais rápido do que eu gostaria ou achava justo e foram necessários anos para que eu entendesse que a máquina que estava me moendo poderia ser chamada de RACIMACHISMO
No século XIX as mulheres negras ganharam a sua "liberdade" e foi uma espécie de convite a viver com as próprias pernas, anos depois veio o feminismo branco e nos disse "vocês não precisam de homens pra viverem, sejam livres e felizes", só esqueceram de um detalhe bem importante: nós fomos largadas a própria sorte e esse papo de "homem pra chamar de meu" nunca foi pra nós, o "direito de dar pra quem/quantos quiser" não é exatamente a nossa problemática. 
Ouço sempre das mulheres pretas que me rodeiam as mesmas questões: o quanto é difícil entrar e manter uma relação estável, monogâmica e sentimento unilateral com um parceiro e neste texto eu gostaria de me ater ao meu espaço de fala, enquanto mulher cis, negra, heterossexual e afrocentrada porque eu realmente não tenho vivência para falar das irmãs trans ou das lésbicas, eu simplesmente odeio falar daquilo que não conheço pois isso é desrespeitoso e cruel!
O assunto "Solidão da Mulher Negra" passou a ser amplamente discutido dentro do Movimento Negro após o

lançamento do livro da Claudete Alves e existem diversas falas sobre o assunto hoje é dia de falar de mim e das pretas com quem eu convivo.
Nós mulheres negras fomos colocadas na sociedade como as mulheres "boas de cama, cujo o fogo nunca termina, mais quentes, mais libertárias, mais dispostas a satisfazer suas fantasias", aliás nós somos consideradas o próprio fetiche, alimentando de forma nojenta o imaginário racimachista da sociedade brasileira, isso é fomentado a cada dia pela mídia e nós fomos comprando o titulo de "mulata exportação" como algo bom! Na sociedade, coloraram a mulher negra no lugar de amante, escape sexual mas sempre de forma discreta - lê-se as escondidas - assim como os senhores de escravos que usavam dos corpos das pretas pra se aliviar na madrugada mas pela manhã voltavam para fazer a figura de bom marido ao lado das sinhás. As mulheres negras tem séculos de história de serem preteridas, escondidas e não levadas a sério.



Existem sim as pretas felizes, realizadas e que encontraram um homem de verdade que as respeitam enquanto mulheres e negras, existem também as que são fortes, "espertas" e já estão escaldadas demais para deixar os homens utilizarem desse preterimento histórico para nos manipular entretanto, o número de mulheres pretas sensibilizadas por isto é grande e real e precisamos ser irmãs de fato nestas horas.

Durante o BBB deste ano, a Amanda foi extremamente julgada por aceitar toda a manipulação do Fernando que ao sair da casa foi correndo para os braços da branca, num dos programas eu ouvi o choro da Amanda "as pessoas me julgam porque eu aceito o que ele faz comigo, mas eu nunca tive essa chance, ninguém nunca disse que me ama, ele fala o que eu quero ouvir" e por mais que ela soubesse que era falácia ela se sentia preenchida por tudo aquilo. É bem este o sentimento da maioria das mulheres negras e isso precisa ser trabalhado e não julgado!
É preciso falar, não somos obrigadas a ser fortes o tempo todo. 


"Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor", essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso." Bell Hooks (escritora americana).



Apesar da pauta ser delicada e complexa, precisamos fortalecer as rodas de conversas virtuais e pessoais para discutir e ouvir as irmãs negras, empoderar uma mulher negra para que ela se conscientize de que esta solidão NÃO É CULPA DA MULHER NEGRA e que juntas seremos muito mais fortes para juntar contra o sistema racimachista opressor.


A pauta é longa e as vezes dolorosas para nós mulheres negras e daria muito mais que um post aqui no blog, mas por hora é isto, quem sabe não voltamos neste assunto. 

Sintam-se a vontade para deixar as críticas/comentários aqui ou no contato da página pois é muito importante para o meu trabalho ouvir vocês!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

QUEM É MAKOTA VALDINA?

julho 30, 2015 2
Valdina Pinto, é uma mulher negra, professora, líder comunitária e religiosa, marcada pela fé e pela luta por dignidade de todos os brasileiros afro-descendentes, especialmente das mulheres negras . Ela foi contada no vídeo-documentário “MakotaValdina: Um jeito negro de ser e viver” (vale muito assistir a este documentário, são dezenove minutos que enriquecem e muito nosso repertório) um dos vencedores do Primeiro Prêmio Palmares de Comunicação – Programas de Rádio e Vídeo, realizado no ano de 2005. Nascida, criada e sempre moradora do Engenho Velho da Federação, bairro de Salvador onde se registra a maior concentração de Terreiros de Candomblé, ela é reconhecida como educadora, religiosa, ambientalista e militante negra. No ano de 2005, foi proclamada “Mestra de Saberes” pela Prefeitura Municipal de Salvador. 

Como educadora e Makota de terreiro, Valdina vem lutando desde a década de 1970 contra a intolerância, principalmente a religiosa. Ela se posiciona na sociedade como militante e fez questão de impulsionar as mudanças na própria religião. Como ela diz, "é preciso ser sujeito dessa história e não objeto". Sobre a visão da vida, comunidade e religião, Makota acredita que nada vive em separado. Tudo para ela é uma relação única. Uma das lutas da educadora é que o Candomblé precisa ser mais respeitado no Brasil.


"A nossa negritude sempre foi exportada como algo mágico, como algo folclórico e não como a cultura de um povo. Mesmo porque nós ainda lutamos contra racismo, preconceito e discriminação. Quando me tornei uma ativista e que comecei a falar de uma outra maneira, mostrando o candomblé, mostrando o sujeito de quem vive, eu me dei conta que nós éramos objeto de pesquisa, alguém falava sobre nós. Então foi intencional empunhar essa bandeira religiosa para desconstruir uma série de estereótipos e teorias desenvolvidas sobre nós e que eu considero ainda inverdades. 
É preciso que cada vez mais sejamos sujeitos de nossa fala, nossa escrita, de nossa história. É preciso parar de ser objeto. É preciso dar essa voz, dar esse espaço. Nesse ponto eu acho importante o fato da Flica me convidar, porque eu acho importante eles me darem um espaço para poder falar sobre isso, além de estar em uma mesa junto com Pepetela e, por meio dessa oportunidade, desconstruir essa imagem"
Em entrevista a Revista Palmares Valdina contou da sua vida, da sua trajetória de empoderamento do povo negro e suas lutas para nossa valorização, o link para download da publicação ESTÁ AQUI e todos podem baixar e ler na íntegra além das partes que eu achei importante destacar abaixo

Revista Palmares: Você se considera uma “sábia negra”? Não, eu me considero uma aprendiz. Dizem que eu sou uma sábia. Na semana passada, fui homenageada com uma placa como mestra de saberes populares. Então eu digo: a negra que eu sou, o ser humano que eu sou, sou porque aprendi com os meus mestres. Meus primeiros mestres foram meus pais. Meus segundos mestres foram os outros negros da comunidade do Engenho Velho da Federação. Na primeira escola que estudei, minha primeira professora escrevia as letras e os números em uma pequena pedra, uma lousa apoiada em madeira. Meu lápis era também feito de pedra. Aqueles negros, aquelas negras, mulheres e homens da comunidade onde nasci, cresci e moro até hoje, foram os meus primeiros mestres. Naquele tempo a família era extensa. A comunidade era uma família. E ali a gente ensinava o que aprendia. Toda criança era responsabilidade de todo adulto. A gente aprendia dentro de casa a fazer as coisas, a cuidar da casa, a cuidar de outros. Como era a terceira filha e a mais velha das mulheres, aprendi também a ter cuidado com outros e com as crianças. A sabedoria que tenho hoje é que me foi passada por eles.

Revista Palmares: Quando a percepção das diferenças sociais e da discriminação foi sentida por vocês? Naquela época todo mundo era igual. Essa situação começou a mudar a partir da década de 70, quando aquele grupo começou a ver lá fora o outro. A gente vivia aquele mundo dali, onde todos eram iguais. Quando começou a chegar o progresso, o “Mata Maroto” passou a não ser mais Mata Maroto, e sim “Cardeal da Silva”. O asfalto chegou ali. A Horta dos Padres já começava a deixar de ser Seminário e passou a se transformar no que é hoje a Faculdade Católica. O Quebra Laço, onde hoje é a Escola Via Magia, onde a gente tirava mato para enfeitar a casa no final de ano, passou a ser desmatado. Foi uma fase em que Salvador começou a inchar e o Engenho Velho começou a ter uma outra cara. Também no início dos anos 70, chegou a televisão, começou a chegar uma invasão de outros jeitos, de outras formas de vida. Neste momento surgiu o Ilê e o Movimento Negro. De um lado a gente encontrava uma forma de se expressar, juntamente com outros grupos que tinham o nosso mesmo jeito de viver, como os grupos lá do Curuzú. Por outro lado, vinham também informações de como a gente vi- via e de como éramos vistos. Até aí, achávamos que tudo estava legal, que esse era o nosso mundo. Começaram então a chegar informações de que existia um outro mundo e que você não era parte dele. Aí é que começou uma tomada de consciência.Em 1970, as coisas que eu vivenciava não eram questionadas. Em relação a mim mesma acontecia algo muito importante. Em 1970, fui convidada a ensinar Português para um grupo de voluntários, naquela época no Grupo Voluntários da Paz. Até aí eu não tinha noção de que o jeito como nós vivíamos era objeto de estudo, que tinha valor para alguém. Porque eu simplesmente vivia aquilo.  
"Nunca deixei de ser a educadora que sempre fui. Luto até hoje e até o final da minha vida, enquanto eu tiver força e enquanto eu tiver motivo por lutar, eu lutarei. Por Justiça, igualdade, paz e pela liberdade".



Fontes: PORTAL G1  | REVISTA PALMARES  

quarta-feira, 22 de julho de 2015

MULHER PODE FALAR DE SEXO?

julho 22, 2015 0


Porque é tão difícil para nós mulheres falar deste assunto sem parecermos "saidinha demais"?
Desde que me entendo por gente, mocinhas não falam palavrão, não sentam de pernas abertas, não falam alto, não jogam futebol, não brincam de carrinho, não brincam de tazo, não assistem filme de tiro... olha, eu poderia ficar aqui o dia inteiro falando de tudo de legal que é tirado do nosso mundo, mas hoje eu resolvi falar só de sexo!
Primeiro de tudo, tenham em mente que quando falamos de sexo, não estamos necessariamente falando do nosso sexo, ok? Mulheres podem falar de sexo de forma general numa mesa de bar, por exemplo, sem pensarem que estão relatando suas experiências pessoais. Sexo é humano, natural, fisiológico e necessário para a sobrevivência da nossa espécie (no caso do sexo entre heterossexuais). Ainda não estamos falando de sentimento!

Somos ensinadas desde crianças que como mulheres nossos corpos são templos sagrados para total admiração, deleite masculino e hoje tenho bem clara qual foi a intenção deste "treinamento" na minha vivência: quanto menos a mulher se conhece menos propriedade e autonomia ela tem sobre si mesma. Sim, eu estou falando de masturbação! Conhecer seu corpo e as características dele, deveria ir além das aulas de biologia do ensino médio e assim muitas mulheres não seriam dominadas com sexo. Sim, isto é real! Muitas mulheres encontram-se hoje em relacionamentos abusivos e tóxicos porque descobriram o "melhor sexo da sua vida", enquanto seria muito mais simples se conhecer e poder se dar ao luxo de estar com quem quiser! Amiga, se você não quiser transar com você mesma, quem vai querer?

Há um tempo eu recebi uma mensagem no WhatsApp que dizia: "você é bem safadinha né? Gosta de falar besteira", isso depois de ter rolado o assunto sexo num grupo que eu e a pessoa que enviou isto  participávamos. O assunto era sexo no geral, não o meu sexo, eu como mulher adulta e civilizada participei da conversa e dei boas risadas, mas, parece que para este homem, mulher que fala de sexo é "bem safadinha".
Por isso a urgência de normalizar esse assunto entre nós. Não existe mal em falar de sexo e se você não se sentir à vontade de falar das suas experiências pessoais, não fale. Sexo é pode ser um assunto genérico, normal e cotidiano.

Não vamos mais ensinar as nossas meninas que "assunto de homem não é para mulher", elas precisam ter propriedade nos assuntos para que isso seja tranquilo na vida delas. Hoje no Brasil uma mulher é estuprada a cada quatro minutos, diversas vezes por seus próprios parceiros/namorados e muitas sequer denunciam isto por medo, por vergonha e as vezes por receio de como serão acolhidas pela sociedade. “Ah, mas ela provocou...", “Ah, mas mulher direita não usa essas roupas...", “Ah, mas você disse que queria..." São inúmeros os argumentos da sociedade apoiados nessa doutrina de que mulher não podem falar/pensar/aprender sobre sexo, porque seria "sujo ou impuro". Empoderar e conscientizar as mulheres à terem uma relação mais naturalizada com o assunto está diretamente ligado a correta punição de abusos deste tipo.

Quando ela conhece o seu sexo e tem liberdade para falar disto a mulher identifica e não teme reclamar os seus direitos.

Atualmente com a minha experiência junto a outras mulheres empoderadas a discussão fica bem mais leve e facilitada, quanto mais consciência adquirimos maior a preocupação de naturalizar o assunto para outras mulheres. Por isso, sempre que puder empodere uma mulher, vamos mostrar que sexo não tem que ser tabu, quanto mais nos conhecemos maior o nosso poder!

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