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sábado, 8 de dezembro de 2018

"Poxa, nenhuma branca..." OU, SOBRE COMO A BRANQUITUDE NÃO É O CENTRO DO UNIVERSO

dezembro 08, 2018 0
Precisamos parar de existir apenas em contraposição à existência do outro. Isto é urgente.

Quem cria "o outro" é quem o nomeia. Para explicar melhor, o "negro" só existe em contraposição ao "branco", isto está bem explicadinho em Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, dá uma lidinha neste clássico, com amor. Em África nós não éramos apenas os negros, eram os Bantus, Congoleses, Zulus, estávamos nos impérios de Gana, Mali, no Egito Antigo. Eram médicos, mestres, homens e mulheres, não apenas negros isto é uma invenção da branquitude, do colonialismo, da dominação, não nossa. E é exatamente por isto que é perigoso continuar existindo apenas dentro desta condição de oposição à este conceito criado pelo colonizador.

Mulheres e homens afro brasileiros são uma multiplicidade de seres. Assim como fomos no período pré-colonial, hoje somos médicos, professores, artistas, escritores, mães, avós, pais, reis, rainhas, pessoas de sorte. E podemos ser tudo isto sem o contraponto branco. Crítica da Razão Negra, livro de Achille Mbembe, discute a formação dessa identidade que surge em contraposição ao branco e busca exatamente resgatar os nossos próprios termos de comparação. Ou seja, é como dizer que nossas referências também podem ser negras, não existe aqui uma disputa ou uma intenção de ocupar o lugar do outro. 

Esta semana, com o lançamento do feat desastroso de Mano Brown e Cléo Pires, surgiram vários comentários defendendo e acusando o cantor – como se coubesse algum tipo de acusação ao fucking Mano Brown – e um deles em particular me chamou atenção. A defesa se baseava em algo mais ou menos assim:

"Vocês estão bravos porque ela não escolheu um branquinho do olho azul pro clipe."

Minha gente, pelo amor de Oxalá.. Quem é que quer ocupar esse lugar!? Representatividade do que?

Participação de Mano Brown no clipe da Música "Melhor que eu" - Disponível no Youtube
Comentários no mesmo sentido puderam ser lidos quando Flávio Renegado, Rapper de Belo Horizonte, colocou mulheres negras – conscientes e de maneira consentida – num clipe simulando sexo, na penumbra – eu odiei! Pronto, bastou isso para que os comentário de “defesa” se baseassem em: “Vocês estão achando ruim porque ele não colocou mulheres brancas do olho azul...”. Querida, eu não! Lembrando que o refrão da música trazia o “acabou o amor, agora é só luxúria”, basta dar uma olhada na carreira do rapper para sabermos onde cabe amor, não é mesmo?

Cena do clipe da música "Luxo Só" - Disponível no youtube
Voltando as contraposições, esta é uma discussão cara e urgente, precisamos parar de existir apenas como contraponto de um outro ou outros. Quando procuramos em marcadores coloniais a nossa afirmação, a nossa existência, o nosso sucesso, não tem como dar certo, não tem como funcionar. 
Pois procurar ser tão bom quanto – insira aqui pessoas que tem uma trajetória totalmente diferente da sua – não faz nenhum sentido, pois, parafraseando Fanon: nós não buscamos ocupar o outro lado, nós queremos destruir o outro lado, nós queremos que não haja lados e só então será possível discutir, só fora da situação colonial é que teremos condições de (re)existir. 

Nós somos bonitos porque somos, porque basta olhar no espelho para ver o quanto nossos traços são maravilhosos. Nós somos fortes porque somos, porque basta ver que o mundo inteiro vem de nós. Nós somos inteligente porque somos, basta ver nossas contribuições para as ciências. Eu sou porque somos porque nós somos.

Nós somos diversos, plurais, múltiplos – sim, se repetir é necessário neste caso – podemos ser nossos próprios contrapontos. Já pensou nisto?

sábado, 1 de dezembro de 2018

A IMPORTÂNCIA DA ESCRITA NEGRA

dezembro 01, 2018 0
A história ancestral negra é marcada pela oralidade. Assim construímos e solidificamos tradições ao longo dos anos, inclusive os anos de escravidão, tráfico, torturas, violências e depois sobrevivendo ao genocídio, apagamento cultural, políticas de embranquecimento e etc... A oralidade foi e vem sendo a maneira que os negros que foram sequestrados pra cá, ou os que nasceram aqui, encontraram de resistir e fazer sobreviver a nossa cultura.
Por outro lado também vemos a necessidade de registrar nossas histórias ou, como diria Conceição Evaristo, cresce a necessidade e emergência das nossas Escrevivências. A importância da escrita negra vem sendo cada vez mais percebida e, note, estou longe de falar apenas sobre a escrita acadêmica.



Unicamp, dita por algumas pessoas como "a casa grande da acadêmia", incluiu o álbum Sobrevivendo ao inferno, de 1990, à leitura obrigatória para o vestibular de 2020. 
Ainda causa espanto para algumas pessoas, que um álbum longe de ser considerado clássico entre para a lista de um vestibular tão concorrido como o da Unicamp, mas, para repetir as palavras do coordenador executivo da comissão organizadora do exame (Comvest), José Alves de Freitas Neto, que também é professor de História: "As críticas feitas neste álbum permanecem atuais".

Para além de entrar para a lista de um dos vestibulares mais disputados do país, o que pode ser fácil para qualquer pessoa medíocre que não seja atingida pelo racismo, a escrita negra tem vários outros aspectos relevantes. A reconstrução da nossa autoestima, por exemplo, pode ter como ferramenta o que homens e mulheres negras vem escrevendo nos últimos tempos. Escrevendo com a planejada intenção de ser voz para uns que ainda não tem coragem de se expressar, ou ser apoio para outros que ainda se sentem sozinhos em meio as pauladas que o racismo nos dá, dia após dia.

Músicas, sambas-enredo, filmes, peças de teatro, blogs, canais de comunicação em geral, livros, teses e dissertações tem sido cada vez mais escritas por homens e mulheres negros. Isso significa começar a subverter uma ordem que aparentemente estava dada e era isso mesmo que ia acontecer... Mas, talvez não. Talvez nós tenhamos o que falar sobre nós.

Recentemente ouvi de uma amiga, que está no meio de seu doutorado, críticas pesadas à sua própria escrita. Ela repediu algumas vezes sobre como "escrevia mal" e sobre ter ciência da própria dificuldade de escrita. Procurei ouvir, porque era o papel que me cabia na hora. Mas, duvido muito que uma mulher, negra e com um grande pacote de particularidades em sua história, tenha chegado aonde ela está "escrevendo mal". Isso não é um luxo ao qual uma pessoa negra pode se dar. Se ela de fato "escrevesse mal", sou capaz de apostar que ela não estaria neste lugar dentro da academia.

O que acontece, e muito, é que somos constantemente tomados pela nossa oralidade. E, oras, não há como se afastar daquilo que é essencialmente nossa marca cultural, nossa origem. É difícil se desfazer completamente das suas origens, principalmente se for para cumprir uma agenda de exigências eurocêntricas que tentam a todo custo embranquecer nossas escritas para tolerá-las. 

A nossa missão passa a ser então, conciliar nossa maneira de Escreviver nossas histórias e registrar nossa marca para além da oralidade, na escrita. Sem deixar, no entanto, de marcar a nossa existência também nessa parcela da história. Como diria Lélia Gonzales, homens e mulheres negras ao falarem "assumem um risco", mas, um risco extremamente importante ao meu ver.

Podemos hoje registrar em jornais, revistas, livros, trabalhos acadêmicos, blogs, canais de vídeo e outras tantas formas de produzir História, a nossa própria marca, a nossa própria maneira de viver e ver o que acontece conosco. Para, num futuro breve, inaugurar uma nova leva de documentos em que estejamos nós mesmos falando de nós. Escrever, para homens e mulheres negros, é mais que colocar de maneira ordenada palavras no papel, é registrar de maneira fiel e próxima, aquilo que sabemos que é a nossa própria História.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

HISTÓRIA: ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO, VOCÊ CONHECE?

abril 12, 2018 1
Visita Guiada ao Arquivo Público Mineiro - UFMG. Foto: Lívia Teodoro
Nos dias de hoje é imprescindível "saber" História, mas, está muito longe disso representar apenas conhecer as datas e o nome de cada revolta de cor e salteado. Afinal, o papel da História, enquanto disciplina, não é ensinar decorebas, mas antes de tudo, preparar homens e mulheres para reconhecerem o passado e aprenderem algo - bom ou ruim - com ele. 

Como vocês devem saber, curso história há 4 semestres na UFMG e cada dia mais tenho certeza que escolhi o curso certo, a profissão certa. Como disse, ser historiadora me dá muito mais que a chance de decorar datas, mas me dá a oportunidade de conhecer e utilizar a história como ferramenta de transformação.
Visita Guiada ao Arquivo Público Mineiro - UFMG. Foto: Lívia Teodoro
O que pouca gente para e pensa é que a História não é exclusiva aos acadêmicos, doutores, "detentores" de todo o saber. A história da nossa cidade, do nosso país, do mundo é pública e pode estar ao alcance de todos. É este um dos papéis do Arquivo Público Mineiro - APM, publicitar a história, não só de Minas Gerais, mas, de todo o Brasil. 

Sem que isto se torne um discurso nacionalista, é importante sabermos O MÍNIMO das nossas origens. Digo "o mínimo" porque enquanto mulher negra, num país construído por cima do tráfico de pessoas escravizadas, é praticamente impossível saber sobre meus ancestrais com exatidão em documentos públicos. No entanto o Arquivo Público Mineiro pode ser útil com informações gerais, sobre localidades, fazendas, instâncias, enfim, lugares que podem dar uma ideia de por onde nosso povo passou.

Visita Guiada ao Arquivo Público Mineiro - UFMG. Foto: Lívia Teodoro
Na última quarta-feira aconteceu uma visita especial e noturna da nossa turma ao Arquivo Público Mineiro. O horário de funcionamento normal é de Segunda à Sexta, de 09:00 às 17:00hrs, mas, em caráter especial, fomos recebidos por Denis Soares da Silva, Diretor de Arquivos Permanentes, que guiou uma visita ao espaço, apresentou os setores do arquivo e preparou uma "mini exposição" de documentos raríssimos que se encontram sob guarda do Arquivo Público Mineiro. 

Visita Guiada ao Arquivo Público Mineiro - UFMG. Foto: Lívia Teodoro
A curadoria da "mini exposição" foi feita pelo nosso colega de turma e estagiário do Arquivo Público Mineiro, Ygor Alves de Souza, que separou raridades incríveis e que deixam a nós, historiadores, fascinados. Como estas fichas, do arquivo da Polícia Política do DOPS, que mostram os registros da nossa Presidenta Dilma Rousseff, do nosso atual Governador Fernando Pimentel e do antigo prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. 
Visita Guiada ao Arquivo Público Mineiro - UFMG. Foto: Lívia Teodoro
Este "trabalho de campo" foi orientado pela professora Regina Horta, na nossa matéria de Brasil III, que confesso amar. Já vimos colônia, em Brasil I, Império, em Brasil II e agora estamos vendo a Primeira República, em Brasil III. Não é fácil entender este país com tanta matéria, imagina então sem?

Cerca de 20%, segundo Denis, do acervo do Arquivo Público Mineiro estão disponíveis para consulta pública on-line, ou seja, não tem desculpa para não acessar, caso esteja em outro estado. Filmes, microfilmagens e digitalizações estão disponíveis neste site (http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/) e qualquer pessoa pode ter acesso. Além disso, dentro do horário de funcionamento do arquivo, todo o arquivo está disponível para consulta presencial. 

O Arquivo Público Mineiro fica localizado à Av. João Pinheiro 372, Funcionários, em Belo Horizonte, MG - Brasil. E você encontra maiores informações no site do espaço. Além de documentações "antigas", para falar de maneira geral", o Arquivo Público Mineiro ainda preserva a função de abrigar TODA a documentação em papel gerada pelos órgãos do Poder executivo em Minas Gerais, com exceção de algumas secretarias que tem falhado em cumprir os prazos de envio de documentação, você pode encontrar registros bem recentes no espaço. 

O mais importante é que tenhamos vontade de nos apropriar da nossa história, conhecer, ler, procurar e principalmente usufruir do que é de conhecimento público. Esta é uma das maneiras, quem sabe, de entendermos a história como fonte de aprendizado positivo.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

DESFILE PARAÍSO DO TUIUTI 2018: CARNAVAL E HISTÓRIA NA MARQUÊS DE SAPUCAÍ

fevereiro 13, 2018 0
(Foto: Fernanda Rouvenat/ Reprodução site: G1)
A escola Paraíso do Tuiuti levou para avenida em 2018 um enredo que homenageava os ancestrais negros, denunciava o sofrimento dos nossos mais velhos e demonstrava, principalmente, a ligação entra a herança escravocrata brasileira e os abusos e retrocessos que acontecem hoje no Brasil, em especial a reforma trabalhista.

O enredo da escola em 2018 (leia aqui) denunciou e chamou a atenção para a situação do povo negro no Brasil. E, durante o desfile a internet foi brindada com fotos de momentos maravilhosos. Confira.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

PARAÍSO DO TUIUTI FAZ HISTÓRIA (LITERALMENTE) NA AVENIDA

fevereiro 12, 2018 0
Mesmo que você não goste de carnaval hoje vai ouvir falar do desfile da "Paraíso do Tuiuti". A escola levou para avenida história, protesto, luta e o cenário político atual do Brasil. 

Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO (Reprodução Portal R7)
Foi difícil em especial para os comentaristas da TV que mais lucra em transmitir o carnaval carioca comentar o desfile da Paraíso do Tuiuti, comentários tentando deslegitimar o sofrimento do povo negro como "Podemos ver que o capataz também é negro" acompanharam a entrada da comissão de frente durante os comentários da TV Globo. O abre alas retratou com respeito e a luta e sofrimento dos escravos, utilizando a máscara que era utilizada como castigo aos nossos e ficou popularmente conhecida recentemente após ser usada como estampa por uma marca famosa ou como "jóia" por uma modelo semi-famosa no Brasil.

Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO (Reprodução Portal R7)

O enredo: "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?" dos compositores: Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, retratou a realidade brasileira além da nossa vontade de fazer parecer que vivemos numa democracia racial. 

"Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz"

As críticas seguiram os séculos avançando no que hoje pode ser considerado um estrago causado por nossa herança escravocrata, como as reformas da previdência e trabalhista, que tiraram direitos do povo brasileiro e, em especial, das camadas mais baixas que são "coincidentemente" as camadas mais ocupadas por pessoas negras.

Foto: Reprodução transmissão Globo.
A manipulação daqueles que pediram pelo golpe também foi retratada pela escola e também foi motivo de constrangimento para os comentaristas da dita televisão que, por muitos momentos durante o desfile da Paraíso do Tuiuti tiveram que se fazer de desentendidos para comentar as alas que passavam pela avenida.

(Foto: Fernanda Rouvenat/ Reprodução site: G1)

Estudar história é fundamental para entender os rumos que a política toma no nosso país, entender que a nossa já dita herança escravocrata tem total influência sobre a nossa situação só é possível se conhecermos o que já se passou. O professor Léo Morais veio representando um "personagem com uma faixa que fazia alusão a faixa presidencial, imitando um vampiro e de chifres", por motivos óbvios nem a escola ou o professor afirmam se tratar do presidente em exercício do nosso país, mas, para bom entendedor, meio vampirão basta, não é mesmo? Léo Morais afirma que como professor de história o protesto tudo tem a ver com ele e não poderia deixar de gritar, neste momento crítico do país, mais esta denúncia. A figura do "Presidente Vampirão" veio no último carro batizado de "Navio Neo Tumbeiro", um nome que diz tudo sobre o contexto. Léo também é assistente do carnavalesco da escola e, como sempre digo, história é tudo, a Paraíso do Tuiuti brilhou ao estudar para pisar na avenida, tocando de forma sutil e ao mesmo tempo contundente em pontos cruciais do nosso país. 


O ENREDO DA PARAÍSO DO TUIUTI 2018

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandinga, cambinda, haussá
Fui um rei egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se planta gente

Ê calunga! Ê ê calunga!
Preto Velho me contou, Preto Velho me contou
Onde mora a sengora liberdade
Não tem ferro, nem feitor

Amparo do rosário ao negro Benedito
Um grito feito pele de tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim, quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação


sábado, 1 de julho de 2017

DIA NACIONAL DE TEREZA DE BENGUELA E DA MULHER NEGRA | MULHERES NEGRAS DA HISTÓRIA

julho 01, 2017 0
Tereza de Benguela - Líder do Quilombo de Quariterê (Vale do Guaporé - MG)
O imaginário do povo negro brasileiro está sendo, aos poucos, ressignificado, povoado e composto por histórias de representantes que vieram do nosso povo. Quando criança, aprendi que a bondade da princesa Isabel havia libertado os escravos, que eu mesma era descendente de escravos, que o povo negro só sabia reagir na base das revoltas, violência e selvageria, que para as mulheres negras era reservado o espaço de agressivas e raivosas dentro da sociedade e hoje, mesmo que aos poucos, já vejo alguma mudança no imaginário que estamos criando na mente das nossas crianças. Mas, vivemos numa sociedade em que o homem sempre é considerado figura central nos atos heroicos ou revolucionários e a outra parte desta ressignificação envolve trazer a tona a participação das mulheres negras na nossa história.
O dia 25 de julho foi instituído, primeiramente, como DIA INTERNACIONAL DA MULHER NEGRA, LATINO-AMERICANA E CARIBENHA, em 1992 durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, capital da República Dominicana e desde então a data vem sendo comemorada por atos em todo o mundo, onde a nossa força e resistência são contados, recontados, lembrados e transmitidos para as novas gerações. Como disse, na minha realidade é um pouco mais recente esta perspectiva de destacar boas ações, coletivas ou individuais, do povo negro, o primeiro encontro por exemplo, aconteceu há 25 anos e só recentemente tomei conhecimento de como foi instituída a data. 
O que menos gente ainda conhece, é que no Brasil o dia 25 de julho tem um outro significado igualmente importante. Em 2014 o planalto sancionou a lei 12.987 que coloca nesta data a comemoração oficial do dia de Tereza Benguela e da Mulher negra¹, o texto foi feito pela então senadora Serys Slhessarenko, que justificou a proposta de criar a data como forma de entregar às mulheres negras do país mais uma referência de mulher, negra e da luta que foi ponto determinante nos rumos da nossa história.
Tereza de Benguela foi uma heroína negra que viveu no Mato Grosso, Vale do Guaporé, durante o século XVIII e, segundo os registros históricos que se tem da época, passou a liderar o quilombo Quariterê onde vivia, até então, sob o comando de seu esposo José Piolho, que foi morto por soldados, muito provavelmente durante a resistência. Os quilombos não eram, como muita gente costuma pensar, espaços onde apenas se escondiam escravos fugitivos, eram muito mais que isto, os quilombos eram comunidades com uma forte administração, divisão clara de tarefas e papéis de cada um que, sem toda uma organização não sobreviveriam tanto tempo. O quilombo Quariterê, comandado por Tereza Benguela, existiu, segundo as fontes, de 1730 até 1795, sessenta e cinco anos de resistência e, destes, 25 anos foram após a morte de nossa heroína. Tereza Benguela foi assassinada em 1770 (algumas fontes dizem que ela suicidou-se outras mostram uma doença como causa da morte), mas o quilombo resistiu sob sua liderança até ser atacado pelas tropas do então governador da capitania, Luís Pinto de Sousa Coutinho, que investia contra o quilombo ostensivamente enquanto foi administrador da região (1769-1772). As evidências de sobrevivência do quilombo após a morte de Tereza Benguela ainda são pouco discutidas por falta de documentação, mas, sabe-se que existem registros da coroa portuguesa citando o Quilombo de Quariterê (por vezes descrito como "Quilombo de Guaporé"), até por volta de 1793².
Tereza criou uma sofisticada organização para o Quilombo que, como já foi dito, contribuiu a para sua longa sobrevivência e importância na história do povo negro, 
“Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados, sendo o de maior autoridade, tido por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais. Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo” (Anal de Vila Bela do ano de 1770)³
Após a instituição, a data passou a ser lembrada e vivida no Brasil ainda com mais força do que diante da instituição lá de 1992, como um dia internacional, passando a ter um significado ainda mais forte e próximo para as mulheres negras e brasileiras.
No nosso país as mulheres negras recebem, em média, 1/2 do valor de salários recebidos pelas mulheres brancas e 1/4 dos valores de salários recebidos por homens brancos, na média geral do mercado, morrem numa proporção maior, sofrem mais abusos e estupros, proporcionalmente, são as maiores vítimas da violência obstétrica, além do racismo que nos abate todos os santos dias. Instituir e fazer lembrar nossos símbolos de resistência são um ponto chave para que a nossa auto-estima coletiva seja aos poucos recuperada. 
A grande maioria da documentação histórica que retrata a história do povo negro brasileiro, no período escravocrata, ou é da igreja ou da metrópole, são fontes, também em sua maioria, escritas por pessoas brancas em situação de privilégio em relação aos negros (padres, reis, governadores, senhores de escravos), porém não podem ser desprezadas e dali podem sair grandes dados para nossa história, desde que lidas se lembrando de que o opressor sempre conta a história do ponto de vista que lhe trouxer maior vantagem.


¹ Línk para lei: LEI Nº 12.987, DE 2 DE JUNHO DE 2014. Disponível 1/7/2017 em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L12987.htm>
² Fonte: Territórios quilombolas em linhas de fronteira: quilombolas do Forte Príncipe da Beira. Emmanuel de Almeida Farias Júnior. Disponível 1/7/2017 em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252013000100015&script=sci_arttext>
³ Fonte: Tereza de Benguela, uma heroína negra. Portal Geledés. Disponível 1/7/2017 em: <https://www.geledes.org.br/tereza-de-benguela-uma-heroina-negra/#gs.vWy3JuY>

sábado, 18 de março de 2017

COMO A EDUCAÇÃO SEXUAL REFLETE O PUDOR DOS LARES BRASILEIROS

março 18, 2017 0
A partir de agora, haverá neste blog uma série de textos e posts para falar da opressão na educação sexual que ocorre no Brasil. Ao conversar com amigas, é comum percebermos o grande número de mulheres, inclusive da nossa geração, que é considerada "mais moderninha", que desconhece ou tem medo de conhecer os detalhes do seu corpo e vivenciar a sua sexualidade. Isto não é coincidência ou acaso, historicamente somos moldadas à não viver com plenitude várias as aspectos de nossas vidas, entre eles a sexualidade e a exploração do nosso corpo, principalmente as mulheres neste último caso. Por considerar importante esta discussão e essencial para ajudar estas mulheres, vamos falar mais sobre a fisiologia do corpo feminino, masturbação, prazer e muitos outros assuntos considerados tabus.
Vivemos numa sociedade machista, patriarcal, onde ainda é considerado assunto proibido o prazer da mulher, o corpo feminino, suas particularidades e, alguns pontos, chegam a ser tratados como "errados ou sujos" desde a infância. Assuntos como estes, deveriam ser tratados com naturalidade, para que nossas jovens mulheres pudessem ter mais autonomia sobre o próprio corpo, vontades e poder fazer escolhas conscientes, sem depender de que uma outra pessoa lhe diga como deve ser o seu gosto, mas não é assim que acontece.
Sala de aula - Brasil 1920 - Blog Na Veia da Nêga - Contextualizando a Educação Sexual Opressora
Historicamente a Educação Sexual dentro das salas de aula sempre teve um caráter opressor e higienista, buscando ensinar através de conceitos moralistas ou religiosos que hábitos, que sabemos ser saudáveis para os seres humanos, deveriam ser combatidos e abolidos da vida dos nossos jovens e crianças. A França é considerado berço da escolarização incluindo educação sexual, porém com fim de reprimir também atos como masturbação, inclusive dos meninos, por exemplo, por lá, por volta do século XVIII já se discutia algo ligado a Educação Sexual em ambiente escolar, afim de reprimir qualquer expressão considerada sexualizada e "proteger" as crianças de qualquer comportamento que pudesse ser ligado a isto. Precisamos nos contextualizar historicamente também de que, no século XVIII apesar de ser marcado por diversas revoluções consideradas "a frente do tempo" para época, o sexo e todo seu contexto era assunto proibido. O ato sexual era considerado uma "obrigação impura" por muitos, uma tarefa que só se fazia por não haver outro meio de reproduzir a espécie, quase um sacrifício. 
Seguindo para o período contemporâneo da história, no século XX a educação sexual passa a abordar o foco reprodutivo, utilizada na França, por exemplo, para reforçar como positiva a lei que proibia o aborto (sancionada em 1920) ou mesmo justificar a proibição de propagandas de métodos contraceptivos (preservativo e DIU, por exemplo). Até então, o foco era apenas reprimir mas ganhou também a função de tornar o controle das práticas uma meta, mostrando que os governos se preocupavam em dar ao sexo a função de somente reprodução, proibindo o uso de métodos contraceptivos e criminalizando o aborto. A igreja católica tem grande participação neste enfoque que a educação sexual ganhou pelo mundo, afinal, o cristianismo não admite o sexo como uma prática apenas para o prazer, mas sim, ato para fins bíblicos, justificados pelo "crescei-vos e multiplicai-vos". 
Falando especificamente do Brasil, a educação sexual também teve (e ainda tem) caráter opressor que buscava reprimir expressões da sexualidade, desejos e, principalmente, ensinar às crianças que o papel do sexo era somente levar os seres humanos a se reproduzirem, com a igreja ajudando a reforçar a ideia de que sentir prazer com isto era errado. 
De 1920 até o fim da ditadura militar, o nosso país era um campo de repressão constante, que se utilizava da educação sexual como ferramenta para fazê-lo. Como já foi dito neste blog, a informação é arma de dominação, seja sendo ocultada ou liberada de forma incorreta e isto foi usado em todo este período como uma maneira de controlar a população. 
A década de 80 é considerada por historiadores da educação, um marco de avanços no campo da educação sexual, a população, livre dos ditadores e já podendo ir as ruas exigir o direito de escolher os próprios governantes, também começou a falar de sexo mais abertamente. O que não impediu, infelizmente, que o "crime de aborto" fosse incluído no nosso código penal, em 1984, penalizando as mulheres que precisassem recorrer a este método e assim permanece até os dias atuais. A França, país que proibiu o aborto em 1920, legalizou a prática em 1975, tornando-o uma questão de saúde pública, garantindo apoio emocional e segurança física para as mulheres.
Hoje no Brasil a educação sexual faz parte dos "Parâmetros Nacionais de Ensino" e orienta-se ocorrer de maneira transversal na educação, isso quer dizer que é responsabilidade de todos os professores inserirem este recorte em suas escolas, o que na prática não acontece, pois a maioria dos nossos educadores não está preparado para falar do assunto. Muitas vezes, inserindo seus conceitos religiosos ou morais à pauta, transformando a educação sexual em "falar de sexo", quando na verdade é muito mais que isto, pois a sexualidade humana é muito mais complexa.
Sala de aula - Brasil Sec. XXI - Blog Na Veia da Nêga - Contextualizando a Educação Sexual Opressora
Discute-se em plenário hoje, o que algumas pessoas chamam de "educação de gênero", um conceito que muitas pessoas acreditam que é defender "falar de sexo" para crianças, sem nenhum recorte, didática ou preparação para isto, fazendo com que assuntos pertinentes deixem de ser debatidos com a orientação de um professor, que poderia ser fundamental na hora de espalhar conhecimento de qualidade.
A Educação Sexual no Brasil, falando do ambiente escolar, sempre refletiu o que acontece em casa (ou o contrário seria o verdadeiro?), assuntos que são extremamente importantes para criarmos seres humanos conscientes, principalmente mulheres, são varridos para debaixo do tapete, ignorados ou muitas vezes podados, continuamos assim criando pessoas leigas quanto aos seus corpos, direitos reprodutivos, saúde sexual e tantos outros temas ligados a sexualidade. É preciso encontrar meios, enquanto profissionais da docência, de transversalizar este assunto e conseguir levá-lo da maneira mais responsável possível para dentro do ambiente escolar, garantindo assim jovens mais informados, que no futuro formarão de de maneira mais consistente aos seus filhos.

Fontes de pesquisa:

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