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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

NÃO SENTIR MEDO DE AMAR É UM PRIVILÉGIO

janeiro 29, 2019 0
Amar sem medo é um privilégio
A vida às vezes nos coloca para pensar nos nossos "privilégios".

Já falamos sobre isto aqui. Numa sociedade que é machista e racista, é impossível dizer que uma mulher preta e bissexual tem algum privilégio. Mas, então vamos falar de acessos.

A não-monossexualidade não é a situação mais confortável. A sociedade é homofóbica, os desconstruídos buscam lidar com a não-heterossexualidade de uma maneira mais suave, mas, ainda pecam quando a caixinha abre para uma sexualidade que abarca ambos os gêneros. Ainda estamos caminhando na intenção de fazer as pessoas entenderem isso.

Mas, os desconstruídos nem sempre estão dentro da nossa casa. Ou, se estão, somem quando a não-heterossexualidade bate à porta com um familiar. E essa é uma reflexão que se torna inevitável quando você pára para pensar: "Opa, eu vou apresentar uma namoradinha em casa!"

Os números de mortes por homofobia crescem a cada dia, no Brasil: no ano de 2018 foram registradas 419 mortes de pessoas LGBT tendo a LGBTfobia como motivação. A fonte é o site Quem a homofobia matou hoje?, que apresentou um ranking realizado pelo GGB - Grupo Gay da Bahia. Minas Gerais ocupa o 20º lugar entre os 27 estados brasileiros, contabilizando 27 mortes no ano de 2018. Para além das mortes registradas, os casos de violência aumentam todos os dias. A eleição de um governo fascista, pautado em preconceito e ódio deixou às claras muitos dos eleitores que, motivados pela cólera, votaram neste governo. A consequência dessa onda de retrocessos não é obviamente o próprio presidente eleito ou o exército entrando nas casas e matando pessoas LGBT - como gostam de repetir, em tom debochado, seus eleitores - mas, significa que a institucionalização do preconceito e do ódio tornam o Brasil um país "seguro para ser homofóbico".

A não-monossexualidade nos deixa mais próximos de entender as sutilezas da lesbofobia. Isto é, experimentar os dois lados do tratamento social nos faz enxergar com uma nitidez  absurda o tratamento que é dispensado a duas mulheres que se amam. As pessoas não se incomodam com casais heterossexuais e isso é fato. Shoppings, cinemas, shows ou no dia-a-dia na rua NINGUÉM SE INCOMODA e isso eu posso dizer de cadeira.

E a coisa muda de figura quando uma mulher decide namorar uma mulher. Muda muito.

E é nessa mudança de figura que reconhecemos o privilégio que significa poder se relacionar em paz, sem brigas, guerras, agressões ou maus tratos. Você, pessoa heterossexual NUNCA vai ter dúvidas se a sua família vai ou não aceitar a pessoa que você escolheu para estar do seu lado - exceto se você tiver um família racista, classista ou escrota de alguma maneira, mas, isto é assunto para outro texto. Registradas estas exceções, os demais casos não tem o que temer. Mas, você já parou para pensar que casais LGBT têm, por princípio, esse medo?

Logo, não sentir esse medo é um privilégio.

sábado, 1 de dezembro de 2018

A IMPORTÂNCIA DA ESCRITA NEGRA

dezembro 01, 2018 0
A história ancestral negra é marcada pela oralidade. Assim construímos e solidificamos tradições ao longo dos anos, inclusive os anos de escravidão, tráfico, torturas, violências e depois sobrevivendo ao genocídio, apagamento cultural, políticas de embranquecimento e etc... A oralidade foi e vem sendo a maneira que os negros que foram sequestrados pra cá, ou os que nasceram aqui, encontraram de resistir e fazer sobreviver a nossa cultura.
Por outro lado também vemos a necessidade de registrar nossas histórias ou, como diria Conceição Evaristo, cresce a necessidade e emergência das nossas Escrevivências. A importância da escrita negra vem sendo cada vez mais percebida e, note, estou longe de falar apenas sobre a escrita acadêmica.



Unicamp, dita por algumas pessoas como "a casa grande da acadêmia", incluiu o álbum Sobrevivendo ao inferno, de 1990, à leitura obrigatória para o vestibular de 2020. 
Ainda causa espanto para algumas pessoas, que um álbum longe de ser considerado clássico entre para a lista de um vestibular tão concorrido como o da Unicamp, mas, para repetir as palavras do coordenador executivo da comissão organizadora do exame (Comvest), José Alves de Freitas Neto, que também é professor de História: "As críticas feitas neste álbum permanecem atuais".

Para além de entrar para a lista de um dos vestibulares mais disputados do país, o que pode ser fácil para qualquer pessoa medíocre que não seja atingida pelo racismo, a escrita negra tem vários outros aspectos relevantes. A reconstrução da nossa autoestima, por exemplo, pode ter como ferramenta o que homens e mulheres negras vem escrevendo nos últimos tempos. Escrevendo com a planejada intenção de ser voz para uns que ainda não tem coragem de se expressar, ou ser apoio para outros que ainda se sentem sozinhos em meio as pauladas que o racismo nos dá, dia após dia.

Músicas, sambas-enredo, filmes, peças de teatro, blogs, canais de comunicação em geral, livros, teses e dissertações tem sido cada vez mais escritas por homens e mulheres negros. Isso significa começar a subverter uma ordem que aparentemente estava dada e era isso mesmo que ia acontecer... Mas, talvez não. Talvez nós tenhamos o que falar sobre nós.

Recentemente ouvi de uma amiga, que está no meio de seu doutorado, críticas pesadas à sua própria escrita. Ela repediu algumas vezes sobre como "escrevia mal" e sobre ter ciência da própria dificuldade de escrita. Procurei ouvir, porque era o papel que me cabia na hora. Mas, duvido muito que uma mulher, negra e com um grande pacote de particularidades em sua história, tenha chegado aonde ela está "escrevendo mal". Isso não é um luxo ao qual uma pessoa negra pode se dar. Se ela de fato "escrevesse mal", sou capaz de apostar que ela não estaria neste lugar dentro da academia.

O que acontece, e muito, é que somos constantemente tomados pela nossa oralidade. E, oras, não há como se afastar daquilo que é essencialmente nossa marca cultural, nossa origem. É difícil se desfazer completamente das suas origens, principalmente se for para cumprir uma agenda de exigências eurocêntricas que tentam a todo custo embranquecer nossas escritas para tolerá-las. 

A nossa missão passa a ser então, conciliar nossa maneira de Escreviver nossas histórias e registrar nossa marca para além da oralidade, na escrita. Sem deixar, no entanto, de marcar a nossa existência também nessa parcela da história. Como diria Lélia Gonzales, homens e mulheres negras ao falarem "assumem um risco", mas, um risco extremamente importante ao meu ver.

Podemos hoje registrar em jornais, revistas, livros, trabalhos acadêmicos, blogs, canais de vídeo e outras tantas formas de produzir História, a nossa própria marca, a nossa própria maneira de viver e ver o que acontece conosco. Para, num futuro breve, inaugurar uma nova leva de documentos em que estejamos nós mesmos falando de nós. Escrever, para homens e mulheres negros, é mais que colocar de maneira ordenada palavras no papel, é registrar de maneira fiel e próxima, aquilo que sabemos que é a nossa própria História.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

EU SOU A DEFENSORA DE DIREITOS HUMANOS QUE JAIR BOLSONARO QUER EXTERMINAR

outubro 24, 2018 0

Eu sou a defensora de Direitos Humanos que Jair Bolsonaro vai matar.
Eu sou a pessoa negra que não serve nem para procriar, segundo Jair Bolsonaro.
Eu sou a mãe que vai dar agrotóxico para o filho comer, porque seu candidato não vê problema na liberação.
Eu sou a mulher que vai morrer porque o meu agressor agora vai andar armado e quando eu disser NÃO para as investidas dele ele irá me matar.
Eu sou o próximo corpo tapado com um lençol no meio do caminho para o seu trabalho.
Eu sou a próxima desaparecida e torturada por uma polícia autorizada a matar quem discorda de um governo fascista.

E você é a pessoa que não se importa com nada disso, porque o fascismo é irracional, fascistas são irracionais. Você é o fascista que está colocando em risco a minha vida.

Eu, mulher negra, hoje cursando a metade da graduação em História na Universidade Federal de Minas Gerais, mãe de uma criança negra me coloco a pensar o seguinte: se em toda sua história o Brasil assumiu um genocídio da população negra, sob o falso pretexto de "combater a violência", matando homens e mulheres, jovens e crianças, todos negros e as vezes com um Iphone na cintura, ou uma furadeira na mão, isso tudo de maneira ilegal, o que acontecerá então conosco dentro de um regime Fascista?

Que país em 2018 se levanta à favor do fascismo, alguns estudiosos perguntam... eu arriscaria uma resposta:

O Brasil é racista, machista, misógino, homofóbico e ainda consegue a proeza de ser xenofóbico com compatriotas, isso não significa que todos os brasileiros são, significa dizer que nossa cultura é, portanto o monstro do fascismo sempre esteve nos pilares da nossa sociedade, o que ele precisava, no entanto, era de um líder que autorizasse a publicidade desse discurso, o tornasse socialmente correto. Oras, numa sociedade racista, é normal ser racista. Numa sociedade homofóbica, é normal ser homofóbico e se o líder da nação for, porque vão julgar o Zé das Couves?

Hoje eu escrevo este texto com a esperança de passar os próximos anos da ditadura sendo corrigida nas minhas falas, escrevo esperando que todos os dias este texto seja revisitado por alguém dizendo "nada disto aconteceu, tá vendo?", mas, ontem eu discuti com colegas que muito em breve nós provavelmente estaremos cavando covas coletivas para nossos pares, estaremos enterrando nossos mortos pelo totalitarismo - A morte de Mestre Môa está aí para não nos deixar esquecer.

Atribuo esse momento - que não é de hoje, é de pelo menos desde 2013 - a nossa deseducação. Num país onde Historiador não é sequer uma profissão regulamentada, nos acostumamos a empurrar para debaixo do tapete todas as nossas vergonhas, a começar pela escravidão. Na cabeça da maioria das pessoas sem acesso a educação - e algumas com acesso a educação mas com privilégios suficientes para cegá-las - não falar sobre os mais de 300 anos de escravidão no Brasil seria o melhor jeito de acabar com as suas sequelas. Igualmente a ditadura, em mais de 20 anos de ditadura militar pessoas foram mortas, torturadas, exiladas e, após a retomada da nossa frágil democracia, o Brasil escolheu mais uma vez colocar para debaixo do tapete nossa história violenta. O que não se pensou é que  toda esta sujeira escondida estava alimentando um monstro, o monstro do fascismo que agora bate na nossa porta - e muito em breve em nossos corpos - foi alimentado com a nossa mania histórica de "deixar disso" assuntos tão caros à nossa história. Pagaremos agora o preço de ignorar e não ensinar à todos sobre o que foi ditadura, pagaremos o preço de não criar memória histórica nos brasileiros. É por falta dessa memória que agora homens e mulheres vão as ruas exaltar torturadores e pessoas que fazem apologia a tortura.

Não acredito que o candidato Jair Messias Bolsonaro irá pessoalmente, de casa em casa, matar cada um dos defensores dos Direitos Humanos, o problema é o discurso social que passa à ser considerado autorizado quando um regime fascista é instaurado e todas estas pessoas enlouquecidas, entorpecidas e irracionalizadas por este "líder" é que estão se tornando um perigo de fato. Estando fora de um regime fascista oficial o Brasil é o terceiro país do mundo no ranking de morte de Defensores de Direitos Humanos, agora, tente imaginar o que aconteceria se elegêssemos um fascista para comandar o país?

No próximo domingo eleitoral esteja próximo e seja presente para as pessoas que você ama, para as pessoas que correm risco de vida nestes tempos sombrios que virão. Sejam apoio, sejam companhia, sejamos uma resistência inteligente. Resistamos juntos e sejamos a força do outro quando faltar. Este não é um texto pessimista, não é uma carta de reconhecimento de derrota, pois independente de quem vença as eleições no próximo domingo nós já perdemos. Perdemos amigos, perdemos familiares, perdemos a sanidade mental, perdemos a confiança na evolução humana, perdemos a crença nas instituições intelectuais e nas instituições legais, perdemos a capacidade de ter empatia, o Brasil já perdeu tudo. Ninguém mais vai acreditar no mito de que somos bons e receptivos por natureza, ninguém mais vai olhar para o amigo legal apesar de homofóbico e acreditar que ele não te mataria se pudesse. 

Todos perdemos.

14/04/2015 - Bolsonaro é condenado por declarações homofóbicas e racistas
https://oglobo.globo.com/sociedade/bolsonaro-condenado-por-declaracoes-homofobicas-racistas-15866495

17/03/2016 - 100 Frases homofóbicas de Jair Bolsonaro
https://revistaladoa.com.br/2016/03/noticias/100-frases-homofobicas-jair-bolsonaro/

07/10/2018 - Bolsonaro propõe ensino a distância para combater marxismo e reduzir custos
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/bolsonaro-propoe-ensino-a-distancia-para-combater-marxismo-e-reduzir-custos.shtml

17/10/2018 - Quem é Ustra, o torturador celebrado por Bolsonaro até hoje
https://www.cartacapital.com.br/politica/quem-e-ustra-o-torturador-celebrado-por-bolsonaro-ate-hoje

17/10/2018 - Investigação policial conclui que morte de Moa do Katendê foi motivada por briga política
https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/10/17/investigacao-policial-conclui-que-morte-de-moa-do-katende-foi-motivada-por-briga-politica-inquerito-foi-enviado-ao-mp.ghtml

18/10/2018 - Bolsonaro é uma ameaça ao planeta - O candidato de extrema direita já anunciou medidas que vão abrir a Amazônia ao desmatamento
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/17/opinion/1539799897_917536.html

18/10/2018 - Como o ensino a distância defendido por Bolsonaro prejudica os brasileiros?
https://www.brasildefato.com.br/2018/10/18/como-o-ensino-a-distancia-defendido-por-bolsonaro-prejudica-os-brasileiros/

21/10/2018 - Alvos de Bolsonaro, equipes de Ibama e Chico Mendes sofrem ataques na Amazônia
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/10/alvos-de-bolsonaro-equipes-de-ibama-e-chico-mendes-sofrem-ataques-na-amazonia.shtml

22/10/2018 - Jair Bolsonaro fere a constituição de 1988 ao ameaçar de prisão ou exílio pessoas contrárias as "leis" de seu governo

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A AMBIÇÃO É UM PRIVILÉGIO E NÓS PRECISAMOS FALAR SOBRE ISTO

agosto 10, 2018 0
Escrever é um privilégio.
Ler e gostar de ler é um privilégio.
“A ambição é um privilégio.” (Clarice Guimarães)
E hoje nós precisamos e vamos falar sobre isto.



O racismo é uma ferramenta de poder que não foi criada pelos próprios oprimidos, embora os filósofos eventuais das redes sociais insistam em repetir esse discurso, batam na tecla de que “racismo está nos olhos de quem vê”. Mesmo que esse argumento não se sustente, ainda precisamos falar sobre as pessoas que acreditam que os subalternos se colocam neste lugar e não que são colocados. Quando somos falados pelo outro, geralmente o falado reflete o desejado por este outro. E é assim que estudiosos sobre a pobreza, que não são ou nem ao menos foram pobres um dia, teorizam sobre o que leva ou o que mantém os pobres onde estão.

Assim como o racismo a educação também é uma ferramenta de poder. Também usada para manutenção das relações, a educação enquanto ferramenta é usada para escolher quem vai e quem não vai acessar este ou aquele espaço. É básico: saber falar difícil te leva a certos lugares e te dá certas condições que não são dadas a quem não sabe. Assim como conhecer os mecanismos de certos grupos sociais pode te fazer entrar neste ou naquele local. Ao mesmo tempo, entender que isto é uma ferramenta também compõe um “privilégio”, que no caso das pessoas negras, por exemplo, pode ser apenas uma salvaguarda, mas, saber como e onde entrar a educação é uma forma de exercer poder sobre as camadas sociais.

Assim nós criamos a falsa ideia de que, pessoas que não acessam a educação não o fazem ou porque não querem ou porque são socialmente incapazes de se importar com isso de maneira autodeterminada. Certo? Não. Se a educação é uma ferramenta de poder, é impossível que o próprio oprimido esteja fazendo uso dela enquanto aparelho. Isto não faz nenhum sentido.

E é aí que o argumento dos filósofos virtuais, cai.

É possível acreditar que toda uma população que estivesse consciente do quanto a educação pode transformar sua realidade, pode tirá-los da condição de expectadores e levá-los ao lugar de roteiristas de suas próprias vidas, que poderia levá-los para frente, seria capaz de abrir mão deliberadamente disto? Repita em voz alta, se você soubesse que a educação é poder e fosse instruído de como ela pode te fazer avançar, você diria “não, obrigado, quero me manter aqui, pobre, resignado, submisso e fraco”? Você acredita mesmo nisto?

E é assim que os privilegiados fazem, dizem que “negros são maioria da população carcerária porque gostam de roubar”, ou que “são minoria na educação porque não gostam de estudar”, assim como já ouvi dizerem que mulheres negras “são minoria no mercado de casamentos porque não gostam de se casar”. Repito, é exatamente quando o teorizador privilegiado fala pelo oprimido que ele projeta nessa conclusão o esperado por ele, ou seja, a explicação mais óbvia para quem sempre teve acesso a informação e escolheu absorvê-la, é que todos os outros tiveram e escolheram não fazer, por isso não têm.

A educação para muitas pessoas não é uma escolha fácil, para outras ela não é sequer uma alternativa. Fazemos parte de uma sociedade capitalista e, como tal, é preciso ter pessoas específicas para cada setor desta sociedade, fazemos partes de uma engrenagem de uma coisa maior e a sociedade precisa continuar fabricando peças para todos os setores. É impossível manipular e “adestrar” pessoas basicamente educadas, é impossível pagar salários medíocres por trabalhos pesados se as pessoas que desempenham este trabalho forem educadas o suficiente para contestar esta lógica. Então, pense um pouco: Para quem interessa uma população não educada? Àqueles que trabalham dia e noite em trabalhos considerados subordinados e pesados, ou à quem precisa lucrar com aquela mão de obra barata? Não precisa ser um gênio para entender isto, mas, é preciso um repertório básico que nem todos tem. E é assim que a sociedade decide várias questões importantes, como por exemplo a criminalização do aborto, que atinge majoritariamente a população negra e pobre do Brasil. Não se educa sobre métodos contraceptivos, não se permite o aborto seguro e legal, depois criminaliza-se a saída desesperada das mulheres, pronto! Você tem uma fábrica de mais e mais pessoas que farão parte deste grupo que trabalha para sustentar a outra parte da história que não é criminalizada e muito menos presa por realizar um aborto, afinal, paga por ele.


Educação é um privilégio e nem o acesso a isto garante que vamos mudar as estruturas completamente, fato. Mas, pensar que quem não acessa escolhe simplesmente não o fazer é irresponsável. As perspectivas de vida dadas para certas camadas da sociedade são diferentes, elas servem ao interesse daqueles que detém o poder, como já disse anteriormente. E, não é porque nós tivemos algumas escolhas que todas as outras pessoas também tiveram.



Pessoas negras não tem privilégios sociais, mesmo quando têm acesso à educação. Para usufruir de privilégios numa sociedade racista, você precisa necessariamente não ser negro (ou indígena, no caso do Brasil). O que a pessoa negra adquire ao ter acesso à educação é um acesso, uma salvaguarda que não vai livrá-la de sofrer racismo, o espaço acadêmico está aí para nos provar isto, mas, vai dar acesso às ferramentas, conhecê-las ao menos para saber como são utilizadas enquanto instrumento de poder. E isto já pode ser alguma coisa.

LEITURA RECOMENDADA SOBRE O TEMA:

Pode o subalterno falar? Gayatri Chakravorty Spivak
O que é lugar de fala? Djamila Ribeiro

sábado, 26 de maio de 2018

O ÓDIO DO COLONIZADOR VESTE TERNO E GRAVATA

maio 26, 2018 0
O ÓDIO DO COLONIZADOR VESTE TERNO E GRAVATA - Imagem Projetado pelo Freepik
Fazer ciranda e aplaudir o sol é privilégio de quem nunca precisou ser combativo.

Isso é o típico pensamento de quem nunca precisou viver “apesar de tudo”. Ser good vibes e previamente a favor da paz e do amor é privilégio de quem nunca foi odiado. Desculpa, amigo.

Você acredita nisso do seu contexto. Gente como eu, já cresce em modo defensivo. Não porque alguém vai me chamar de “boba, feia, chata”, mas, porque a sociedade me ensinou o que é ódio desde muito cedo. Gente como eu conhece o ódio e o que eu sinto está longe de ser comparado a "brancofobia".

Talvez vocês, brancos, nunca vão entender ou reconhecer o ódio que eu experimento. E talvez por isso seja fácil dizer que "acho que não precisam sair odiando todo mundo de graça...". Não é de graça, nunca foi. O ódio direcionado para mim e para o meu povo não é de graça. Custa caro, custa vidas e sonhos. E mata todos os dias.

Por isso, repito: É muito fácil criar raízes “good vibes”, se sua terra é “good vibes”. Se te regam com ódio, das suas raízes até sua última folha é ódio mesmo que vai sair.

Eu sou movida por ele, inclusive. E sei que isso não parece nada confortável. Mas quando o assunto é racismo, não pretendo trazer conforto à ninguém aqui, nem mesmo meus amigos.

Embora o desconforto seja necessário pra fazer vocês pensarem sobre isso, acho legal explicar o porque: Estamos numa sociedade em que pessoas negras vivem provocando fobias e medos em outras pessoas, até nos próprios negros. A instintiva escondida de bolsa dos meninos “maloqueiros” no busão, que toda pessoa já fez, vem desse medo social que paira sobre as nossa cabeças. Todas as cabeças.

Dentro deste medo estão os estereótipos que são as amarras que mantém a sociedade nesse looping infinito de preconceito e racismo. E um dos estereótipos atribuídos às pessoas negras, em especial mulheres, são os de violentas e raivosas. Mais recentemente, na internet, o título de “pessoas que apelam gratuitamente e saem distribuindo ódio como forma de revidar” também nos foi dado. Será mesmo que revidamos?


Lendo Homi Bhabha (O local da cultura), a gente entende que os estereótipos retroalimentam a sociedade racista.

O racismo divide as pessoas que "eram iguais" em violentos e dóceis. Os dóceis são aqueles que atendem a expectativa de comportamento ensinada pelo racismo, sejam eles brancos ou negros, os violentos se revoltam. A revolta é com a forma que somos tratados e daí o racismo nos leva ao limite do limite, para enfim poder dizer com provas, além de convicção: "Tá vendo, são violentos, distribuem ódio gratuitamente!".Só que não há nada de gratuito nisso, uma vez que a sociedade está diuturnamente sendo pensada e pensando para moer essa parcela social, para nos eliminar.

Frantz Fanon vai dizer exatamente que não somos capazes de desenvolver a paranoia clínica, porque não há nem espaço pra imaginarmos não sermos amados, quando convivemos com o colonizador, porque a verdade é que não somos mesmo.

Então, é isso, mais uma vez estou me dispondo a explicar que "apelar" com tudo, não é simplesmente apelar com tudo, devolver ódio de graça. O ódio reservado para nós custa caro, muito caro, já disse. E mesmo que todas as minorias do mundo devolvessem com "ódio", iria faltar racista pra pagar essa conta!

E lembrando que o "ódio" de que eu falo, não é "apenas" da parte de quem chama negro de macaco, mas principalmente de todas as formas de ódio: institucionais, na saúde, educação, saneamento básico, genocídio negro. Isso tudo é ódio.

Só que o ódio do colonizador geralmente veste terno e gravata. E até quando nosso ódio "veste terno e fala bonito", como Djamila, Filósofa e "bem vestida", essa galera privilegiada com uma vida de gratidão reclama que "não precisava, tão apelando com tudo...".

E blábláblá. Fim.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

SOBRE SAUDADE, AMOR E SOBRE COMO A GENTE CONFUNDE ISSO COM POSSE

janeiro 10, 2018 0

Muito se discute sobre monogamia x poligamia e, na verdade, este texto não tem a menor intenção de ser sobre isto. Sentir saudade não tem a ver com isto, necessariamente. 

Enquanto você está com alguém é normal sentir saudade, é normal sentir vontade de ter por perto, mas, você já parou para pensar que você só sente falta de alguém que necessariamente por alguns momentos não está perto de você? Como diria minha avó "muito amor vira tumor", é um jeitinho engraçado dela dizer que pessoas que se amam muito e se grudam o tempo inteiro tendem a transformar rapidinho aquele monte de amor e doença. Claro que do jeito simples de dizer da minha avó ela não estava considerando relacionamentos abusivos e violentos, estamos falando aqui da nossa dificuldade as vezes de entender que saudade nem sempre é estar juntos, saudades as vezes pode ser um bom sentimento para te lembrar o quanto é bom ter aquela pessoa por perto, quando ela está por perto. Sentir saudade não é um apito ou um sino que você toca, "ei, vem cá", sentir saudade talvez seja um lembrete do seu coração de "olha, lembra como é bom quando fulano (ou fulana) está por aqui?"

Saudade é uma palavrinha bem brasileira, não que só nós sejamos capazes de sentir, mas, é no nosso idioma que existe grafia e significado para expressar essa dorzinha gostosa 

"Mas, nossa, saudade é um trem que tipo uma dorzinha gostosa, que você vai apertando pra ver até onde fica bom, aí quando você tá com a pessoa é como se você parasse de apertar um pouquinho, sabe?" (Lívia Teodoro)

A parte chata é quando a gente confunde essa saudade com posse, confunde a falta que a pessoa faz com uma necessidade absurda de ter a pessoa ali, cem por cento do tempo por perto e presente, porque, convenhamos, é diferente estar perto e estar presente, não é mesmo? Nossos celulares que o digam!

O problema da saudade não é sentir, a saudade é natural, é boa, o problema da saudade é quando misturada a outros sentimentos que as vezes nem sabemos que existe, vira posse, vira controle. Saudade está longe de ser um sentimento exclusivamente afetivo, exclusivamente homem-homem, mulher-homem, mulher-mulher, pessoa sexualmente interessada - pessoa sexualmente interessada, mas também existe saudade entre amigos, entre pessoas e lugares, pessoas e hábitos. Já pensou se pela sua saudade o outro tiver que abrir mão das saudades dele? Então, como fica a necessidade do outro de "parar de apertar um pouquinho a saudade?", hein?

Pense na sua saudade como um combustível para existir, não algo que te sufoca ou que deverá sufocar o outro. Como disse, saudade é um sininho que avisa "olha, como é bom quando o outro tá aqui, que tal a gente curtir mais quando o nosso momento chegar?", pense na saudade como algo bom, como algo que você só sente do que te faz bem, por fim, pense também que o outro também tem as saudades dele, só dele.

domingo, 7 de janeiro de 2018

EU TENHO UM MONTE DE ESTRIAS NA BUNDA, E AGORA?

janeiro 07, 2018 0

Dá para amar um corpo com estrias? E celulite? Dá para se amar com "defeito"?

Esta é a perspectiva que corpos comuns foram encaixados para serem enxergados, afinal, é comum ter celulites e estrias, levando em consideração que você é uma mulher adulta com um corpo que tem história para contar, você não é uma boneca de plástico rígido, isto mesmo, rígido, já que até as bonecas de corpo maleável vão acabar tendo marcas de tempo.

Outro fator que encaixa nossos corpos, todos normais, em diversas categorias de anormalidade: o machismo, isto mesmo, aquele conceito social que nos ensina, desde pequenas, a competir e atacar as outras mulheres com base em suas características visíveis, logo, ser gorda, magra, alta, baixa (demais) ou ter estrias e celulite é mais um artifício usado pela rivalidade feminina para categorizar de maneira negativa os corpos umas das outras. Não é incomum ver mulheres se exaltando ou relativizando a beleza das outras usando argumentos como "pelo menos eu visto 38" ou "pelo menos eu não tenho celulite", como se isto fosse fator determinante sobre a felicidade do outro. Isto de fato não deveria ser.

Suposto perfil falso atribuído a ex-bbb Vívian Amorim no Twitter
A verdade é que na prática estamos tão acostumadas a competir e usar como armas nesta disputa as características dos nossos corpos que ficou comum enxergarmos como defeito o que, na verdade, são marcas das nossas vivências, aquela estria não estaria ali não fossem as mudanças que seu corpo sofreu e só você sabe o significado destas mudanças. Isto não é só responsabilidade do machismo, ele isolado não conseguiria fazer isto, porém, temos a companhia de toda uma sociedade que endossa estes apontamentos, como as revistas, novelas, televisão, telejornal, a mídia "convencional" como um todo mostra o tempo todo que qualquer corpo que não seja magro, liso, "perfeito" e geralmente branco vai ser encaixado como errado. Não importa se para você está tudo bem, se não representa o ideal photoshopado na vida real, você não se encaixa no padrão. 

Capas de revista 2018
Não há nada de errado com corpos normais, que carregam marcas comuns de vidas que estão longe de serem novelas, estão longe de serem românticas em 100% do tempo, então, qual o seu problema com as suas estrias? Vejamos, se a sua história é só sua, seria normal então que só você tivesse as suas marcas, certo? Então porque se esforçar tanto para ter o corpo de um outro alguém que nunca habitou a sua pele ou viveu a sua vida? As atrizes de destaque da novela das oito, por exemplo, são sempre mulheres magras, geralmente brancas, com um corpo de "dar inveja" e que parecem nunca ter uma dessas marcas "normais" que nós temos. 

Bianca Bin e Grazi Massafera fazem parte do elenco de 'O Outro Lado do Paraíso

Atrizes estas que são comumente massacradas ao serem "flagradas" com uma ou outra "gordurinha" fora do lugar e muitas vezes nós, mulheres comuns, nos juntamos ao coro do julgamento onde o corpo "normal" é enquadrado como defeituoso. 

Será possível então ser feliz e encarar de frente uma sociedade gordofóbica, machista e preconceituosa, que coloca as mulheres como objetos a serem qualificados e separados apenas por suas características externas? É possível que nós consigamos nos desfazer destes padrões introjetados? Mais do que isto, como no exemplo ao lado, mulheres que estão longe de poderem ser consideradas gordas, são enquadradas como "defeituosas", por não esconderem ou retocarem marcas naturais de estrias ou celulites, as que são gordas então, melhor nem dizer por não ser meu local de fala, mas, sabemos bem o que a sociedade reserva para as mulheres que são gordas, não é mesmo?
Então, o que separa da felicidade uma mulher com um corpo perfeito e funcional, além do machismo, da rivalidade ou da gordofobia?
Aparentemente nada além disso separa nós, mulheres normais, de conseguirmos nos sentir confortável dentro dos nossos corpos que carregam marcas que são só nossas.

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