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domingo, 24 de janeiro de 2016

A PERGUNTA QUE NÃO CALA: PARTO NORMAL DÓI?

janeiro 24, 2016 0
Está ai uma pergunta que nunca vai ser respondida por nenhuma mulher, nem mesmo as que já pariram, pelo simples fato de que dor e nível de dor são coisas pessoais. Só cada mulher sabe o quanto e como a dor vai afetá-la por isso, é difícil tentar supor como será a sua dor pelo relato de dor da outra. Não tem muito a ver apenas com resistência a dor, parto não é uma prova ou uma disputa de quem resiste mais, parto tem mais a ver com entrega e sentimento de segurança. Ao longo do texto você irá entender melhor toda esta história!
O parto começa muito antes das contrações e todo aquele turbilhão de harmônios que culminam no nascimento do bebê, o parto começa quando você entende que estudo é totalmente importante para escolhas conscientes. Estudar é a parte mais importante do enxoval do bebê, já que você pode abrir mão de todos os luxos (bebês precisam de mamá, fraldas e colo de mãe essencialmente) mas não pode abrir mão de conhecer tudo aquilo que é e o que não é necessário para o momento da chegada do bebê. Quando uma parturiente está bem informada de tudo que está acontecendo e todos os procedimentos que serão ou poderão ser feitos é natural que as coisas fluam com mais facilidade, afinal, este momento já é desconhecido e se juntarmos à ele a ignorância à respeito do processo  o medo pode aumentar. Nós somos animais e como qualquer animal, com medo ou desconfortáveis nós não conseguimos nos entregar ao natural, assim como qualquer fêmea precisamos de paz, tranquilidade para que nosso corpo trabalhe e voltamos a informação ser essencial afinal, ninguém vai se sentir segura sem ter o mínimo de ideia do que está ou pode acontecer.
É importante dizer que NÃO DÁ PARA PREVER TODOS OS PASSOS DO SEU PARTO, a informação a qual me refiro é quanto ao que TEORICAMENTE vai acontecer porque o roteiro mesmo a gente só descobre na hora 'P'. É importante estarmos cientes por exemplo de que é LEI que as parturientes tenham um acompanhante de SUA LIVRE escolha durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato, 24 horas durante todo o período de internação, isto é lei, não é bondade do hospital e é fundamental para que a parturiente fique mais tranquila passando pelo momento da dor com mais serenidade.

LEI Nº 11.108, DE 7 DE ABRIL DE 2005

O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
        Art. 1o O Título II "Do Sistema Único de Saúde" da Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, passa a vigorar acrescido do seguinte Capítulo VII "Do Subsistema de Acompanhamento durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato", e dos arts. 19-J e 19-L:
CAPÍTULO VII
DO SUBSISTEMA DE ACOMPANHAMENTO DURANTE O
TRABALHO DE PARTO, PARTO E PÓS-PARTO IMEDIATO
Art. 19-J. Os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde - SUS, da rede própria ou conveniada, ficam obrigados a permitir a presença, junto à parturiente, de 1 (um) acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.
§ 1o O acompanhante de que trata o caput deste artigo será indicado pela parturiente.
§ 2o As ações destinadas a viabilizar o pleno exercício dos direitos de que trata este artigo constarão do regulamento da lei, a ser elaborado pelo órgão competente do Poder Executivo.
Art. 19-L. (VETADO) 
        Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
        Brasília, 7 de abril de 2005; 184o da Independência e 117o da República.
JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVALuiz Paulo Teles Ferreira BarretoHumberto Sérgio Costa Lima

Contração dói? Dói, mas passa! A contração não dói o tempo todo do trabalho de parto como mostram nas novelas, existem trabalhos de parto algumas mulheres conseguem até dormir entre uma e outra, tudo vai depender do nível de relaxamento da parturiente. A dor vem, dóooooi e passa. Se eu puder dar um conselho é SE MOVIMENTE durante as contrações, porque para o meu corpo doía muito mais se eu estivesse deitada ou quietinha. No meu caso, funcionou a dica de andar, me movimentar e chuveiro, MUITO CHUVEIRO. Lembro que no meu trabalho de parto eu brinquei com as enfermeiras que sairia do chuveiro branca de tanto ficar debaixo d'água, a água quente na lombar assim como massagens podem ajudar E MUITO no alívio da dor. E é alívio mesmo, principalmente tendo consciência de que a dor vem e vai!
Acompanhante faz diferença? Toda a diferença do mundo! É importante ter do seu lado alguém que lhe lembre o quanto você é poderosa, o quanto você estudou e se empoderou para àquele momento, às vezes a gente esquece porque a partolândia é bem louca! Existem também às doulas (doula não substitui acompanhante e vice-versa - doula não é acompanhante) que são mulheres com formação e preparação para estarem do seu lado, oferecendo conforto físico, emocional, principalmente te lembrando que tudo àquilo é um processo natural e que você vai chegar ao final dele com sucesso.
É importante (sempre que possível) escolher uma equipe ou hospital que vão lhe apoiar e não te desencorajar de um parto natural / normal porque quem faz o parto É A MULHER mas a equipe pode sim prejudicar ou ajudar muito neste processo. E falo isto totalmente ciente de que algumas de nós não tem o mínimo poder de escolha, então vamos investir nos itens anteriores!
Então, no final das contas, parto normal/natural dói?
Dói mas depende muito de você também se esta será uma dor boa ou ruim. Dor é geralmente associado à acontecimentos trágicos ou malditos e no parto, a dor é boa, o desfecho é um filho que na maior parte das situações é um presente esperado e desejado. A dor do parto é até gostosa quando você entende da fisiologia do seu corpo, como as coisas funcionam e principalmente cada contração é uma onda a menos para a chegada do bebê! Estar entregue, se sentir segura, ter companhia (e se possível uma doula), se sentir dona do processo faz toda a diferença e torna aquela história de "sensação de dor" que eu expliquei no começo do texto ser muito melhor e o trabalho de parto ser algo mais suave. Informação é um excelente analgésico/anestésico no parto! 
É sempre muito bom  ter vocês por aqui, voltem sempre ao blog. Abraço e até o próximo post.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

GESTAR E PARIR: A MINHA EXPERIÊNCIA COM O PARTO NORMAL

janeiro 06, 2016 0
Foto: Ariane Realino



O que me tornou ativista certamente foi a minha gestação. Até eu ficar grávida sempre achei que algumas questões eram "tanto fez tanto faz". Apesar de eu ter nascido com um senso de justiça imenso, causas sociais nunca haviam me seduzido a ponto de fazer tirar a bunda da cadeira pelos meus ideais. A gestação me fez entender que eu precisava sim me movimentar para mudanças e mesmo que aquelas mudanças não fossem somente para mim ou que eu não pudesse usufruir delas imediatamente, pessoas importantes para mim poderiam colher os frutos da minha luta, como meu filho, por exemplo. 
Em 2012 eu entrei de cabeça nos estudos para entender o que poderia ser melhor para os caminhos da minha maternagem e lembro de ter ouvido que a maternidade e o parto começam entre os seus ouvidos, dentro da cabeça. Gestar é mais do que esperar, é estudar muito, quase que sem parar para que as informações sejam absorvidas e processadas. É claro que como leiga, nós entendemos bem menos do que profissionais formados para isso, mas acreditem, muitas vezes aquilo que muitos dos tais profissionais sabem e transmitem já está ultrapassado a muito tempo. A base para qualquer questionamento é a informação e então fui atrás dela feito louca durante a minha gestação, quanto mais se informa mais se questiona e consequentemente mais se empodera, foi ai que começou a minha jornada.
Nas primeiras semanas da minha gravidez (depois de descobrir com 11 semanas, rs) eu estava apavorada com a possibilidade de um parto normal, porque cresci acreditando que parto normal era sinônimo de sofrimento, uma espécie de castigo para a mulher por ter comido a maçã e transformado o paraíso nisto que vivemos hoje, mas enfim, essas eram as informações que eu tinha sobre o parto "normal" e eu simplesmente tinha pavor disto ter que acontecer comigo, mas sem plano de saúde eu não tinha muitas opções: ou pagava por uma cesária eletiva ou recorria a um parto traumático na rede pública. Indo atrás de alternativas, descobri que poderia haver uma terceira opção para o nascimento do meu filho: um parto digno, humano e respeitoso.
Parto humanizado tem sido pauta constante no mundo virtual, virou filme, virou "moda" entre as famosas e o assunto tem sido bastante comentado. Mas, como trazer a realidade maravilhosa do mundo de quem tem dinheiro para humanizar, à uma mulher negra de periferia, mãe fora de um relacionamento e sem emprego? Mais um motivo para eu correr atrás de me empoderar. No parto também não existe meritocracia: não basta querer um parto humanizado para ter um tratamento humano, precisa muito trabalho e uma dose de privilégio social. Na situação de parto as mulheres negras são mais uma vez prejudicadas, os dados sobre violência obstétrica no Brasil gritam que as mulheres negras morrem mais, sofrem mais e tem menos acesso a tratamentos dignos então para nós o buraco realmente é mais embaixo.
Devorando livros, jornais, reportagens e absorvendo o máximo dos grupos de apoio virtual ao parto normal, foi assim que passei a gestação inteira.
Entendendo sobre os procedimentos obsoletos que ainda são aplicados na obstetrícia atual, sobre os processos com o RN que não são recomendados pela OMS mas o Brasil insiste em praticar.. Enfim... Estudar, Estudar e esperar! Em meio as pesquisas encontrei o site da Doutora Melânia Amorim, uma obstetra humanizada do nordeste do Brasil que trabalha exclusivamente no SUS e ainda encontra tempo para informar ao público leigo muitas coisas sobre parto e desvendar muitos mitos que nós ainda sustentamos na nossa sociedade. Falsas indicações de cesarianas e desculpas que o sistema de saúde inventa para que as mulheres acreditem cada vez menos nos seus corpos. Com raras exceções o parto natural é sempre o melhor para mãe/bebê, infelizmente o nosso país é campeão em cirurgias cesarianas e nossos bebês tem nascido cada vez menos.
A consequência de se informar é o empoderamento, consequência quase imediata, muito mas muito maravilhosa e o empoderamento leva a escolhas conscientes. Isso quer dizer que toda mulher empoderada vai parir? Não! Quer dizer que toda mulher empoderada vai tomar decisões conscientes dos riscos e estar disposta à assumí-los. A mulher empoderada pode sim escolher uma cirurgia cesariana eletiva mas se o fizer, fará totalmente sabida de que está aumentando em mais de oito vezes os riscos de morte para ela e o seu filho. Se ela sabe de tudo isso e mesmo assim escolhe esta forma para à chegada do seu filho ao mundo, ela está tomando as rédias da própria vida e se responsabilizando por isto. 
Eu escolhi o parto natural depois de muita informação absorvida e estudada. Não me senti mais obrigada a parir empurrada pelo sistema publico de saúde e com certeza essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito para o meu filho e para mim. Mas o melhor desfecho para mãe e o bebê é aquele que acontece no decorrer do trabalho de parto, no meu caso o parto natural passou a ser um parto normal induzido e igualmente lindo, costumo dizer que é o melhor parto que meu filho e eu poderíamos ter. Mas o relato do meu parto vai ficar para outro post, pois este já vai se alongando mais do que deveria.
O que me trouxe a descobrir que minhas atitudes podem sim mudar o mundo , que devemos sim nos empoderar, ter conhecimento para lutar foi o mundo do parto. Por um tempo eu virei a "chata do parto normal", aquela que as pessoas tinham até medo de tocar no assunto, porque já imaginavam que iam se tornar textão mas o conhecimento nos ensina inclusive a calar na hora mais adequada e conforme a experiência vai se alongando mais sensatos ficamos nisto. O parto, de fato começa entre os ouvidos dentro da cabeça e o conhecimento é que empodera. Portanto, mães negras, estejamos cientes dos dados que provam o quanto somos prejudicadas pelo racismo institucional mas precisamos ainda mais ter ciência também de como podemos lutar para que isso mude. E o principal, depois de adquirir conhecimento é importante descobrir como usar ele para ajudar outras mulheres negras a terem um bom desfecho, como eu por exemplo.
Fiquem a vontade para deixar dúvidas ou contar suas experiências nos comentários e logo logo falaremos mais sobre parto e maternagem aqui no blog. 

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