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sábado, 14 de setembro de 2019

AS PALAVRAS DE MULHERES NEGRAS SÃO ATRAVESSADAS DE SILÊNCIO

setembro 14, 2019 0
Resenha crítica apresentada ao curso de Literatura Afro Brasileira - Literafro, da formação transversal em Relações Étnico-raciais e História da África e Cultura Afrobrasileira¹.
1 - Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França (Autoras Afrobrasileiras).

Moema Parente Augel possui graduação em Letras Neolatinas pela UFBA (1961), mestrado em Ciências Humanas também pela UFBA em 1974 e doutorado em Letras Vernáculas pela UFRJ em 2005, desde a sua formação esteve atuando principalmente com literatura e cultura guineenses, literatura afro-brasileira e literatura de viagem (séc. XIX). É professora aposentada, tendo lecionado Português e Cultura Brasileira nas Universidades de Bielefeld e Hamburgo ambas na Alemanha. O texto analisado nesta resenha foi publicado originalmente em 1996 e republicado pelo site Literafro.
Ao longo do artigo a autora recupera autoras negras que tem bastante marcadas em sua sua escrita características que Augel descreve como “próprias” da escrita de mulheres negras, tais como a busca pela autodefinição, contar sobre as próprias vivências, experiências, uma espécie de convocatória de outras pessoas negras para se pensar racialmente e também o convite aos não negros de refletirem sobre as dores de viver numa sociedade cuja cor da pele determina maior ou menor sofrimento social.

O falar sobre ser negra em todos os seus aspectos tais como a negritude, estética, lugar social, implicações de classe, traz junto da ação política disto a conscientização de tomar a atitude de reclamar este lugar e deixar de ser, portanto, a periferia de uma fala branca para tornar-se o centro da própria fala, neste caso através da literatura.

O silenciamento dos personagens negros significa também o aumento da repercussão da voz de sujeitos eurocêntricos que com seu discurso escondem o passado escravocrata brasileiro, bem como as violências físicas, psicológicas e epistêmicas praticadas contra o sujeito negro. O silenciamento seria portanto mais uma violência retroalimentando e mantendo outras que são praticadas contra a população afrobrasileira. Esta população que segundo Augel se revolta através da escrita, como demonstrado nas citações de três autoras com maior destaque por Augel.

A autora cita a produção Cadernos Negros como uma publicação que dá voz à escritores negros. É importante ressaltar que esta publicação pode repercutir a voz destes, que já têm voz própria (SPIVAK, 2014) e em forma de um coletivo autônomo fazem com que as suas vozes sejam reverberadas de maneira ampla entre aqueles que leem a publicação. Mas a voz já é destes indivíduos, primariamente, mesmo que inicialmente não conseguissem completar a dialética de falar e ser ouvido (SPIVAK, 2014). Para citar um exemplo contemporâneo de produções como o Cadernos Negros podemos lembrar da coleção Feminismo Plurais trazida pela filósofa Djamila Ribeiro, embora haja diferenças importantes, como por exemplo o tino totalmente comercial dado a coleção feita com recursos privados e suporte de uma editora formal. No caso dos Cadernos Negros Augel inclusive frisa o fato da produção ser totalmente financiada pelos próprios autores contidos em cada volume. 

O “eu” encontrado nas produções negras, para a autora, seria o eu poético que, segundo Stuart Hall é uma construção do século XIX em relação do mundo moderno, "um sujeito em relação com os outros" (AUGEL, 1996), o tal sujeito sociológico acrescido das emoções advindas da experiência de ser negro ou das memórias ancestrais carregadas pelos que descendem da origem africana. O eu poético é aquele que mistura identidade e individualidade com a sensação em relação ao externo, a sua coletividade.

Augel destrincha então trecho de obras de três autoras da literatura afro-brasileira, são elas: Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França. Cada uma com suas características e pontos de destaque são pensadas por Augel como representantes desta escrita feminina e negra. A escrita específica da mulher negra vem para confrontar certos estereótipos racistas que são impostos a este grupo social. Uma literatura marcada muitas vezes por denúncias, um dos temas destacados pela autora seria esta “dupla colonização”, ou seja, a opressão por gênero e raça sofrida por mulheres negras e sinalizada em suas produções. A escrita das mulheres negras seria então uma elaboração que reflete uma identidade marcada por raça e gênero, ao mesmo tempo, mas que também fala da vida cotidiana, de maternidade, sexualidade e assuntos que “normalizam” a existência negra.

O embranquecimento social é um risco que a pessoa negra corre ao tentar acessar ou ascender socialmente numa sociedade racista (FANON, 1952), para isto serve como ferramenta do racismo o auto silenciamento que acaba sendo local seguro para uma auto colonização. O sujeito negro procura reprimir suas características para caber num padrão branco que está dado automaticamente. Em especial risco estão as mulheres negras que para fugir do local hiperssexualizado no qual são colocadas, acabam assumindo este outro lugar onde são oprimidas e contidas. Como ferramenta de luta contra isto está o autorreconhecimento e a colocação as vezes forçada do “eu” negro em certos espaços como a literatura. Isto promove mudanças de estrutura nos indivíduos negros e na sociedade racista, o que Augel chama de mecanismo de descentramento (AUGEL, 1996). A literatura feita por mulheres negras acaba ocupando um espaço de construtora de uma autoestima coletivizada.

Recuperar estas autoras seria subverter a ordem da historiografia brasileira que coloca como cânone o que é masculino, branco e eurocêntrico. Quando são colocadas as figuras negras como “normais”, como é o caso da escrita de Geni Guimarães ou mesmo quando são colocadas como seres fantásticos e poderosos, como no romance de Aline França, ocorre um deslocamento do senso comum sobre o negro e isto é positivo para o coletivo. A literatura neste caso está sendo utilizada “como um instrumento de transformação de uma realidade que nega o direito à especificidade, enquanto indivíduo e enquanto coletivo” (AUGEL, 1996).

¹ Versão alargada do artigo: "Quando elas rompem o silêncio. Literatura feminina afro-brasileira”, in: Lusorama. Zeitschrift für Lusitanistik: Revista de Estudos sobre os países de Língua Portuguesa, Frankfurt, FFM, n°30, p. 5-25, jun.1996. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 19 ago. 2019.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 111 p. (Justificando).

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? 3. ed. Belo Horizonte: Ufmg, 2014. 174 p. Tradução de: Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa.

XAVIER, Giovana. Ciência, lugar de fala e mulheres negras na academia: A solução do problema brasileiro passa pela construção de novas epistemologias e pela necessidade de localizar o saber que se produz na ciência. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Ci%C3%AAncia-lugar-de-fala-e-mulheres-negras-na-academia>. Acesso em: 25 ago. 2018.

AUGEL, Moema Parente. “E Agora Falamos Nós”: Literatura Feminina Afro-Brasileira. 2018. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 04 set. 2019.

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. 193 p. Tradução e Revisão de Texto Renato da Silveira. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Frantz_Fanon_Pele_negra_mascaras_brancas.pdf>. Acesso em: 04 set. 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

PRIMEIRA MOSTRA NACIONAL DE MÍDIA NEGRA E FEMININA

julho 24, 2019 0
Belo Horizonte recebeu no último dia 19 de julho a PRIMEIRA MOSTRA NACIONAL DE MÍDIA NEGRA E FEMININA do país. 
Foto: Marcelo Teodoro | Clube de Blogueiras Negras
O Clube de Blogueiras Negras apresentou para  o público o resultado de três edições do projeto "Sou Negra e Quero Falar" da jornalista Lívia Teodoro (Blog Na Veia da Nêga).

O evento promovido pelo Clube de Blogueiras Negras divulgou a produção das participantes do projeto "Sou Negra e Quero Falar", todo o conteúdo foi idealizado ao longo de três edições deste projeto. 
A Mostra foi realizada com o apoio do Fundo Feminista Internacional "Frida Fund".
O projeto "Sou Negra e Quero Falar" #SNeQF é uma criação da jornalista Lívia Teodoro, com produção executiva de Zaíra Magalhães e contou com financiamento do Fundo Feminista e apoio da Artigo 19 em suas duas primeiras edições. 

Confira as fotos do evento:

quarta-feira, 22 de maio de 2019

VOCÊ QUER O FIM DO PRIVILÉGIO OU APENAS QUER FAZER PARTE DELE?

maio 22, 2019 0
"Ah, mas, mulher preta também erra...". Erra, claro que erra! Mas, aqui estamos na frente de um probleminha bem maior.


Imagem: Retirado do site: Negrospe.blogspot.com 
Em tempos de exposição na internet para "resolver" divergências políticas e morais esbarramos em algo que até pouco tempo tínhamos como consenso não fazer. Uma delas, expor as atitudes que consideramos erradas e partiram de pessoas pretas no intuito de envergonhá-las ou fazer com que elas repensem atitudes que repudiamos. Era comum a máxima de que "a nossa roupa suja se lava em casa" e que expor os problemas internos da comunidade negra para o "grande público" – lê-se a branquitude que, ao presenciar estas discussões internas reuniria "ferramentas" para ataques desnecessários a pessoas ou grupos internos a comunidade negra – logo, silenciar publicamente para "não rechaçar os nossos", era um comportamento esperado, afinal, temos problemas maiores para nos preocupar – como, por exemplo, o genocídio do povo negro.

Acontece que vamos agora admitir que a internet também é nossa casa, ou seja, ao admitir que a internet também é um campo de disputa de poder para o povo negro, além de ser plural. Isto é, não é mais de negros versus brancos, mas, pessoas versus pessoas, admitimos que disputas criadas no campo virtual são passíveis de se desenrolar dentro dele, não importando que os personagens sejam pessoas negras. A internet é nossa casa e nossa roupa suja também pode ser lavada aqui.

Pessoas pretas são diversas. "Não somos garras de coca-cola" e não devemos nunca ser considerados como uma massa que pensa e age igual desconsiderando nossas especificidades e está tudo certo em discordarmos. Ou deveria estar.

Quando isso não acontece, a tendência é que várias pessoas se manifestem no sentido de demonstrar que tiveram seus sonhos quebrados, destruídos. Vira as vezes um longo roteiro de lamentação sobre ídolos perdidos. E este comportamento é extremamente perigoso. Primeiro, porque não devemos idolatrar (sem nenhum sentido cristão) as pessoas que admiramos, isto os torna inatingíveis, os desumaniza e corremos o grande risco de nos decepcionar com atitudes que são normais, humanas. E em segundo lugar, é preciso admitir que já passou da hora de colocarmos pessoas negras em locais imaculados (também ignorando o sentido cristão) e completamente perfeitos. Seres humanos negros são diversos.

Mas, para além da preocupação da desumanização por detrás disso, está um outro ponto muito importante: embora esperemos que as pessoas errem, afinal, são humanas, não devemos "justificar" comportamentos que vão contra o empoderamento coletivo.

Em seu livro O que é empoderamento?, a autora Joice Berth destaca a importância de ações coletivas que levam ao empoderamento. O empoderamento individual, este que não vai levar ao avanço da comunidade negra que, mesmo diversa, deve caminhar para a frente. É por isso que lutamos e por isso que entendemos a importância da equidade racial.

As críticas que muitos insistem em pessoalizar, transformar em "ataques de inveja" podem ir muito além disto. Explico.

Pessoas negras com acesso a meios institucionais que a maior parte da população negra não tem, não deveriam usar estes acessos no empoderamento individual, com carreiras e visibilidade – na internet – que lhes permitem acessar alternativas que outras pessoas não tem. Rafael Braga, por exemplo, embora tenha tido visibilidade não poderia nunca usar de artifícios do sistema ao seu favor, por não deter o capital cultural necessário para isso. Já pessoas negras que vivem num meio branco falando sobre a negritude e lucram com isto, tem uma entrada diferente e, ao entrar no sistema para mudá-lo de dentro assumem o risco de que o sistema também aja sobre elas. Neste momento deixam de apenas estar lá dentro para mudar, mas, também passam a fazer com que, em alguma medida, o sistema funcione para elas.

É lógico que, enquanto pessoa preta, este indivíduo jamais irá subverter a ordem social, mas, esses microabusos passam a ser cometidos de maneira deliberada. Aí que é que está, não é mais "um erro ao qual está sujeito todo humano".

Enxergar e sinalizar isto não é desumanização deliberada, não é tirar da pessoa preta o direito de errar. É apontar um erro sistêmico que leva o buraco bem abaixo.

Quem_tem_medo_do_feminismo_negro_djamila_ribeiro_treta_acao_judicial_movimento_negro

sábado, 18 de maio de 2019

APLICATIVOS PARA ORGANIZAR A VIDA DAS INFLUENCIADORAS DIGITAIS

maio 18, 2019 0
Aplicativos para organizar a vida das Influenciadoras Digitais, Blogueiras e Youtubers. Foto: GettyImages
Existem aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais que podem ser simples, gratuitos e ao alcance de todas nós. Isso para nos ajudar na coordenação desta vida. Esta estruturação é ponto fundamental para que nós que executamos todas as partes do trabalho de influenciadora digital, para não nos perdermos no meio de tantas tarefas. Então, vamos saber quais aplicativos são estes.

Para quem está no YOUTUBE é fundamental acompanhar de pertinho as métricas da rede. Saber quais são os melhores dias e horários para alcançar seu público ou ver como andam suas visualizações. E o que nem tanta gente sabe é que o Youtube possui um aplicativo de gerenciamento especialmente para isto. O app é o YOUTUBE CREATOR e ele traz várias funcionalidades diretamente do youtube estúdio. O Analytics está bem organizado e fácil de visualizar, além de você poder acompanhar os dados em tempo real, você pode subir capas personalizadas para seus vídeos.

 

Ainda para ajudar as que utilizam o YOUTUBE, o aplicativo PICSTART pode ser uma mão na roda! Na hora de fazer a capa dos vídeos algumas de nós sofrem para encontrar o tamanho perfeito da famosa thumbnail. Com este aplicativo você encontra o tamanho certo para várias redes sociais, inclusive o tamanho exato para as miniaturas de vídeo.

 


NOTAS DO KEEP é um aplicativo do time de funcionalidades do GOOGLE, isso significa que você também poderá acessá-lo pelo computador e é isso que o torna tão útil. Este é um aplicativo de notas e listas fundamental para organização da vida de criadora de conteúdo. Nem sempre você pode executar na hora uma ideia, então basta anotar na sua listinha e acessar quando for produzir seu material, seja utilizando o computador ou pelo celular.

 

Para repostar fotos no INSTAGRAM, vindas de outro perfil, geralmente os aplicativos não tem a opção sem carimbo (marga d'´gua) ou cobram para liberação desta funcionalidade. O aplicativo REPOSTA te dá esta opção gratuitamente. De todos os aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais este deve ser um dos que possui o funcionamento mais simples facilitando demais a nossa vida.

 


Quer produzir vídeos curtinhos com base num conteúdo maior? Por exemplo, você gravou um vídeo para o Youtube e quer reduzi-lo para o Instagram? O QUICK VÍDEO vai te ajudar. Com este aplicativo você pode, de uma só vez, reduzir o tamanho, suprimir o áudio original, acrescentar nova trilha e ter em segundos um resumão do seu vídeo original para outras redes sociais, não é o máximo?



O LEGEND é um aplicativo gratuito que transforma em vídeos animados qualquer texto. Isso quer dizer que você pode produzir vídeos curtinhos que podem ser usados para muitas coisas, como vinhetas do YOUTUBE, por exemplo. São várias carinhas possíveis para o mesmo texto, várias cores e fontes, todos gratuitos.



Todos estes aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais estão disponíveis para ANDROID, se você encontrar algum deles - ou algum semelhante que substitua - para o IOS é só deixar aqui nos comentários.

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