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quinta-feira, 2 de maio de 2019

TRÊS SÉRIES + UM FILME PARA MARATONAR NO FERIADO

maio 02, 2019 0
TRÊS SÉRIES + UM FILME PARA MARATONAR NO FERIADO
Quem nunca maratonou uma série na NETFLIX que atire a primeira pedra!
Este é um comportamento viciante, mas, também vale para quem quer relaxar e curtir o feriado sem atividades muito badaladas. 
Pensando nisto, preparei uma lista com minhas séries e filmes favoritos para indicar ótimas maratonas neste feriado.

1 - LA CASA DE PAPEL

É a história de um assalto à Casa da Moeda Espanhola. Você vai deixar de torcer para os mocinhos, aliás, a polícia deixa de ser o "lado bom" da história e você se pega torcendo para os bandidos vencerem essa saga.
TRÊS SÉRIES + UM FILME PARA MARATONAR NO FERIADO

2 - SENSE 8

Para mim, a melhor série que a Netflix já produziu! Diversa e muito emocionante, os personagens saem da caixinha e do circuito Holliwodiano. Tem gente de quase todos os continentes e com todas as caras. A gente não enjoa de ver sempre os mesmos rostinhos padrões na nossa tela.

As outras duas dicas estão em vídeo, lá no canal. Confere, assiste e me conta nos comentários o que você achou!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O CASO RACHEL DOLEZAL [DOCUMENTÁRIO NETFLIX]

maio 02, 2018 3
O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
Ao assistir ao documentário a primeira pergunta que parece inevitável de se fazer é: "E se eu, mulher negra, saísse por aí me declarando branca, onde eu estaria agora?" A resposta mais provável à minha realidade é: "Mais fácil estar sendo tratada como louca e desequilibrada, do que estrelando um longa na Netflix!"

Acaba de ser disponibilizado no catálogo da Netflix o filme sobre o - polêmico - caso de Rachel Dolezal, a mulher branca americana que se auto identifica como "transracial".

O longa resume a história de vida da mulher de 37 anos, confrontada pela mídia em 2015 com a pergunta: "Você é negra?", "Você é afro-americana?". Visivelmente desconcertada, Rachel fugiu da pergunta e a partir daí a polêmica tomou proporções inimagináveis.

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
Rachel Dolezal é mãe de três filhos (em 2015 tinha apenas dois filhos), e o documentário mostra a gestação e nascimento do terceiro bebê que, ao chegar, é identificado pela mãe como "negro e branco ao mesmo tempo". O documento de identificação étnico racial do recém-nascido é de preenchimento obrigatório nos EUA, o qual pode acarretar mais processos judiciais para Rachel, se considerado fraudado. O que pode acontecer se ela identificasse o bebê como "negro", mesmo sendo filho de uma mulher caucasiana. O pai do bebê é desconhecido e o pertencimento racial do homem não é definido no longa. Embora tenha sido questionada sobre isto, Rachel não falou sobre o assunto.

Ao longo do filme, é possível ver como a exposição deste caso, no mínimo bizarro, prejudica a vida dos filhos de Rachel. O mais velho, Izaiah, é um dos quatro filhos adotados pelos pais de Rachel quando ela ainda era adolescente, que depois teve a guarda transferida para ela. O filho do meio, Frankilin, é fruto do casamento entre Rachel e Kevin Moore, um homem negro. E portanto, Frankilin também é negro. Durante todo o documentário são expostos os ataques que os filhos de Rachel acabam sofrendo, de pessoas agressivas, principalmente através das redes sociais.

A infância de Rachel foi marcada por abusos sexuais cometidos pelo irmão mais velho (biológico). Depois, teve sua adolescência marcada por presenciar agressões de seus pais aos seus irmãos adotivos. Quatro crianças africanas por quem os pais adotivos acreditavam ser uma "missão divina" que eles cuidassem, de acordo com relatos da própria Rachel. Uma das irmãs de Rachel relata que os castigos físicos eram brutais e constantes, da infância até a adolescência. Inclusive, foi para Rachel que ela pediu ajuda para sair de casa quando teve a chance, para se livrar dos maus tratos cometidos pelo casal Dolezal.

Ao falar sobre o casamento com Kevin, Rachel diz que sente como se ele a "considerasse como um troféu", já que ele mesmo a via como branca e a teria deixado quando ela começou a "se vestir como negra".

Rachel foi uma importante liderança no movimento negro americano dentro da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, em livre tradução), até começarem a duvidar das suas declarações (e de sua sanidade mental). Várias ações importantes para a comunidade negra foram encabeçadas por ela, até a reviravolta e a grande polêmica sobre o caso.

Embora Rachel só enxergue "boas intenções" em tudo que fez, o longa traz a voz de mulheres negras que trabalharam com Rachel e alguns questionamentos feitos por elas ficam martelando em nossas cabeças:

Se Rachel nunca disse nada de novo, sobre racismo e supremacia branca, porque então foi dada à ela a atenção que nunca antes fora dada a mulheres negras? Será então que se aproximaram das causas propostas, por ela ser uma "negra" que se aproximava dos brancos, mais que qualquer outro?

Vidas negras se perdem todos os dias e Rachel apoia seu argumento de que "é negra", porque "se sente como negra". E para materializar isso Rachel faz black face, usando uma maquiagem vários tons acima do seu tom de pele, bronzeamentos artificiais, além das várias perucas, apliques, tranças boxbraids e usa "roupas de negros", como ela mesma define. Enfim, Rachel afirma se sentir negra, porque faz "coisas de negros".

Cá entre nós, poderia haver justificativa mais estereotipada e racista do que essa?

Outro questionamento interessante ao longo do filme, que é simplesmente ignorado por Rachel para continuar afirmando sua "transracialidade", é:

O quão importante seriam as nossas vivências, dores, experiências, lutas, ancestralidade e origem. Quão importante é passar por tudo isso para só então ser considerado negro na sociedade estadunidense?

Rachel parece ter se apropriado da vivência de seus irmãos e filhos para tomar uma identidade que não é dela. E continua jurando de pés juntos que, para ser negra basta se sentir negra. Sabemos bem que na realidade isso não acontece.

Rachel, enquanto mulher branca, poderia ser muito mais útil a comunidade negra, principalmente entre seus pares, mostrando que o comportamento dos iguais a ela é extremamente nocivo para a comunidade negra. Mas, ela insiste todo o tempo que sua "identificação" é muito mais importante do que qualquer coisa que todos os negros tenham a dizer sobre isso. 

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
"À ideia de raça sendo fluída, eu vou dizer não! E o motivo é porque que as pessoas ainda não entendem o privilégio branco. Se você cresceu com esse privilégio, ele não some naturalmente. Eu acredito que o que ela faz é uma fraude." Latoya Brackett, membro da NAACP.

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
"Transracial é o epítome [resumo da teoria] do privilégio branco. Se cada grupo étnico não pode fazer isto da mesma maneira e pode ser aceito dessa forma, então é um privilégio." Kitara Johnson, membro do NAACP.

Nada pode definir melhor "O Caso de Rachel Dolezal", do que privilégio branco. Acho inclusive que o caso dessa mulher possa ser usado como ilustração didática perfeita para a expressão. Uma vez que, como muito bem colocada por Kitara, nenhuma outra etnia tem o privilégio de estar autorizado a transitar entre as raças e transitar quando quiser.

Outro ponto colocado no documentário, que não abordarei por não ser meu local de fala - mas, aguardo ansiosamente pelo posicionamento das mulheres transsexuais - é a associação entre a transexualidade e a "transracialidade" de Rachel Dolezal. É um completo despropósito.

Em resumo, acredito que a situação seria facilmente resolvida se Rachel Dolezal abrisse mão da sua mentira e assumisse que não é preciso roubar um local de fala para apoiar uma minoria social. Rachel poderia se colocar como irmã de pessoas negras, como mãe de pessoas negras, mas, nunca como uma pessoa negra. Porque isso é algo que ela simplesmente não é. 

Para assistir ao filme, basta (além de ter uma conta na Netflix, claro!) clicar neste link: https://goo.gl/WLwMTB.

sábado, 6 de maio de 2017

DEAR WHITE PEOPLE: UMA SÉRIE ONDE A BRANQUITUDE NÃO É O CENTRO DO MUNDO

maio 06, 2017 4

Esta não é uma série sobre "gente branca", ou sobre a branquitude, mas sobre todas as merdas que a gente pensa e sente, quando vocês saem por aí, fazendo branquisse!

Este post contém ~spoillers~ e se você faz parte da nova geração que não está pronta para isto, é melhor não ler.

"Dear White People", numa tradução livre "Cara gente branca", é uma série original da Netflix, lançada no Brasil em abril de 2017 e inspirada num filme, também da Netflix, com o mesmo nome. Confesso que, em vista do filme, a série é "NOSSA, MEU DEUS DO CÉU, QUE COISA MARAVILHOSA", porque achei o filme bem meia boca, na verdade. 
Sou viciada em séries com personagens negros, há um tempo comecei assistir uma série sobre vampiros exatamente porque vi um personagem negro na capa, sim, eu sou este tipo de pessoa. Comecei à assistir à "Dear White People" como quem esperava pelo racismo reverso, afinal, milhares de pessoas brancas fizeram um redevu na internet quando a Netflix divulgou a primeira chamada da série, reclamando sobre a empresa estar "promovendo a segregação entre negros e brancos", ou pior ainda "estarem apoiando o genocídio branco", WTF? E lá fui eu pensando, "é aqui o meu lugar, me encontrei numa série verdadeiramente opressora" contém ironia. Mas, a série reserva uma surpresa à quem acha que o titulo indica uma produção cheia de indiretas sobre pessoas brancas: A SÉRIE, DIFERENTE DO RESTO DO MUNDO, não é sobre vocês, brancos. Em "Dear White People", o centro do mundo somos nós, queridos!
Sam e Joelle (Atrizes:  Logan Browning e Ashley Blaine Featherson)
O cenário é uma conceituadíssima universidade norte-americana, como a maioria das produções dos Estados Unidos e, logo no primeiro episódio a branquitude americana se comporta como esperado: uma festa com blackface! Apesar da série mostrar um cenário em outro país, é possível reconhecer o ambiente das universidades brasileiras, principalmente as públicas, em especial onde eu estudo, diria. Alunos brancos que insistem na rasa e velha resposta: "Se a Sam pode falar de gente branca, nós também podemos de vocês, negros". "Dear White People" ou "Cara gente branca" é o nome do program de rádio apresentado por Samantha White, a "Sam". No programa, a jovem que recém se descobriu "militante negra" faz críticas ao comportamento dos seus colegas brancos de universidade e isso deixa eles um tanto quanto "bravinhos", a saída encontrada por eles? Fazer uma festa de Halloween cujo o tema incentiva os convidados a "soltarem o seu lado negro", as fantasias vão desde "jogadores de basquete" até "Nick Minaj" (muito mal diagramada, por sinal).
Mas, engana-se quem pensa que a série passa todo o tempo criticando às pessoas brancas, aliás, as criticas feitas de forma subjetivas são muito mais contundentes e engraçadas, várias vezes os comportamentos da branquitude que nos incomodam e machucam são mostrados de maneira engraçada, ou até mesmo sádica, eu diria. 
Aliás, quem não entende ironia não está habilitado à assistir "Dear White People", a série usa muitas vezes esta figura de linguagem, principalmente para responder àqueles comentários que sempre vem de pessoas que fazem parte da branquitude e não tem um pingo de noção. No episódio da festa racista, por exemplo, uma das personagens que eu mais gosto, Coco, Colandrea Conners, aparece na festa e um outro personagem branco toca nela, perguntando: "Nossa, como você conseguiu esta tinta?", em referência à sua pele escura, dentro daquela festa em que o esperado eram várias pessoas brancas pintadas de preto. Aliás, este papel um tanto imbecilizado que muitas vezes pessoas brancas se colocam, diante de nós, negros, é claramente retratado na série (pegou a referência? claramente, risos). 
Colandrea Conners (Atriz: Antoinette Robertson)
Por falar em Colandrea, a Coco, ela com certeza é uma personagem que ou você ama, ou odeia, não dá para gostar "mais ou menos" desta garota em "Dear White People". Coco é também uma jovem, negra, mas a pele é escura. Aliás, sou apaixonada por duas, tanto Coco quanto Joelle, mas Joelle é assunto para outro post. Coco começa a série sendo amiga de Sam e o motivo da briga que afasta as duas é? TAN-TAN-TAN-TAN! Privilégio conferido as negras de pele clara.
É muito difícil abordar esse assunto nas redes sociais, porque na maioria das vezes as negras de pele clara entendem que nós estamos chamando-as de brancas e, não é bem assim, não é mesmo? Sam critica durante toda série o comportamento "dormindo" da Coco, inclusive ela e Reggie (outro personagem da série que gosto) criam um app que deveria circular no campus marcando os negros que estão "acordados" (conscientes de sua negritude e atuando como integrantes do movimento negro "anti-branquitude" da universidade) e os que "não estão acordados" (negros que, não fosse a cor da pele, não são considerados "negros de verdade", atuantes na luta contra o racismo e a segregação, nem tanto a ver com o tom da pele, neste caso), este grupo inclui a Coco, na visão da Sam e Reggie. Mas, não vamos nos perder, pois o assunto aqui é, o privilégio das "Negras Negonas Clarinhas quase Brancas", expressão parecida com esta é usada pela Coco numa discussão com Sam. 
Reggie (Ator: Marque Richardson)
Sam, é a típica "novata" no movimento que acabou de se perceber, ou se aceitar, negra e só quer mesmo "botar fogo no engenho", as vezes com alguns negros lá dentro, já Coco é uma mulher negra, de pele escura que nunca teve a opção de "não ser negra" e me incluo neste grupo que, por mais que não nos aceitemos, a sociedade sabe muito bem que somos negras sim. Coco passa por aquela cena que todas nós, negras de pele escura, já passamos alguma vez na vida: todas as suas amigas terminam a noite com um cara e você? Não. Não desta vez!
Acredito que por isso meu amor pela Coco, que só vai experimentar seu cabelo natural lá pelo nono episódio, depois de estar na cama com Troy (seu namorado famoso e importante dentro do campus que, até o último episódio, não decide qual lado defender e permanece em cima do muro para manter seu papel político), e num rompante de tesão, ele lhe arrancar a lace-front (maravilhosa!) que ela usava. Coco, apesar de todas as críticas que tenho a ela, é totalmente compreensível. Teve que aprender, pela cor da sua pele principalmente, que deve sim agarrar as oportunidades que a vida lhe dá, que para nós não são muitas. Pelo final da primeira temporada, eu acredito que Coco será "menos branca" na próxima etapa (aliás, aguardamos ansiosamente a segunda temporada de Dear White People, ouviu, Netflix?) da série.
Como já disse, a série está longe de ser o que tanta gente reclamou sem assistir, uma coletânea de ataques as pessoas brancas, mas está mais para uma coletânea sobre a diversidade de nós, jovens negros, militantes ou não, que podem ser encontrados dentro de ambientes comuns, como a universidade, por exemplo. Várias cenas, piadas, trocadilhos e situações que nós, inclusive os brasileiros, passamos todos os dias. Dá para dar risada, para chorar, para aprender, para refletir e não é para atacar ou incitar o ódio contra a branquitude. Longe disto!
Pessoas que não são negras podem inclusive assistir com um olhar atento para aprender. A série mostra diversos comportamentos da branquitude, do ponto de vista de nós negros, que podem e devem ser evitados por vocês, de uma maneira muito didática, ou seja, fica IMPOSSÍVEL não aprenderem desta forma. 
Gostaria muito que a série "Dear White People" tivesse levantado tanto frisson quando os "13 Porquês" no Brasil, mas, aparentemente, racismo não é tão grave quanto o suicídio, não é mesmo?

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