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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

#ITAURACISTA: NO BRASIL A RAÇA SOBREPÕE A CLASSE E A CONTA BANCÁRIA

janeiro 31, 2020 0

O discurso Marxista empregado à sociedade brasileira, quando desconsidera o racismo estrutural no qual estamos inseridos, não se sustenta por mais de dez segundos. E posso afirmar isto com tranquilidade enquanto mulher preta e historiadora. Raça, no Brasil, sobrepõe classe SIM!

Nesse momento um dos assuntos mais comentados no Twitter e no #BlackTwitter é o #ITAURACISTA.

Na tarde da última quinta-feira Lorena Vieira que é empresária e mora no Rio de Janeiro sofreu racismo numa agência do Banco Itau, na qual era correntista (Lorena já anunciou que retirará sua conta do banco). A empresária, que faz movimentações altas em sua conta foi acusada de FRAUDE. Lorena alega ter sido "enrolada" pelo banco, ficando lá até não haver mais nenhum cliente na agência e então foi levada pela Polícia Civil para "prestar esclarecimentos" sobre seu próprio dinheiro.

Além de todo o constrangimento provocado pelo Banco Itau contra a cliente a polícia também expôs Lorena à constrangimentos desnecessários ao envolver o nome de seu companheiro nas perguntas sobre a sua conta no banco.
Perguntas relacionadas às suas visitas ao companheiro na prisão foram feitas à Lorena quando na verdade a "averiguação" inicialmente seria sobre uma suposta fraude, denunciada pelo banco Itau em sua própria conta.
O banco se manifestou dizendo se tratar de uma "conduta padrão". Agora, cá entre nós, é padrão chamar a polícia para pessoas brancas que movimentam altas quantias em suas contas bancárias? Este é com certeza mais um daqueles "casos isolados" que só acontecem com gente negra no Brasil.




Outras pessoas tem se manifestado através da rede social sobre o caso de racismo recente no banco Itaú.

E não podemos esquecer que recentemente o mesmo banco esteve envolvido em outra polêmica racista: Uma turma INTEIRA de estagiários, 125 novos trainees do banco e NENHUMA pessoa negra entre os selecionados. Desta vez o banco alegou "coincidência", para justificar seu racismo.


Em sua consta no Instagram (@badgallore) Lorena relatou os fatos e falou de como se sentiu ofendida com a conduta do Banco Itau e dos policiais que a interrogaram sobre o seu companheiro, o Dj Renan da Penha, preso injustamente no ano de 2019.

A esperança que fica neste caso é que, como em 1955 quando Rosa Parks foi presa por se negar a ceder para o segregacionismo num ônibus nos EUA, nós negros brasileiros possamos REALMENTE deixar de dar o nosso dinheiro para um banco que foi explicitamente racista com uma mulher negra. E não que as demais instituições financeiras do país não sejam, são. Mas se não começarmos de algum lugar, nos revoltaremos quando?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O PODER TRANSFORMADOR E A FORÇA DO ÓDIO

dezembro 18, 2019 2
Conversar com uma pessoa que nasceu, cresceu, viveu e para sempre vai viver numa pele que não representa uma ameaça à ela chega a ser quase uma experiência antropológica para uma pessoa negra. Eu, mulher negra e com um alvo nas costas há 28 anos não sei o que é viver sem medo. Nunca soube, mesmo quando eu não sabia de onde vinha o medo que sentia. O ódio é a linguagem com a qual pessoas negras são educadas e, perceba, não estou aqui falando dos nossos lares, do nosso local de segurança, estou falando de uma estrutura social que conversa com pessoas negras através do ódio e somente ele. Frantz Fanon, psiquiatra martinicano que escreveu “Os Condenados da Terra”, título publicado em 1961, tratou em sua obra da linguagem da violência aplicada pelo sistema colonial aos corpos e mentes negras, durante a guerra de libertação da Argélia. Fanon analisa ali um contexto sendo contemporâneo da repressão colonial, mas peço licença para analisar o contexto brasileiro aos olhos do psiquiatra.


Imagem: Getty Images
Ter a tranquilidade de poder não sentir ódio é, com toda a certeza, um privilégio.
Todos os dias lemos notícias de injustiças, desmandos e ataques diretos às pessoas negras e periféricas. Ao pensar na Indústria da Cultura, segundo o filósofo Adorno, é possível ver qual o papel da mídia na hora de formar e tranquilizar uma sociedade em relação às suas mazelas, mas, e quando a indústria da cultura é pensada para amenizar apenas “um lado” da história? O sistema colonial faz o trabalho de manter dóceis alguns membros da sociedade que, mesmo sendo negros, não conseguem se revoltar contra o sistema. Mas, aí é que está, nem todos nós conseguimos nos anestesiar.

Quando você cresce sem a necessidade de se revoltar com um sistema que foi feito para atrasar, oprimir e matar (no extremo do genocídio negro) a única coisa que lhe garantiria o mínimo de incômodo com a situação de quem sente essa necessidade é uma formação ideológica bastante refinada (referência ao antropólogo Kabengele Munanga, em seu livro “Negritude: Usos e Sentidos") mas numa sociedade criada sob a falsa ideia de uma democracia racial e a cordialidade entre as diferentes raças (do ponto de vista social e não biológico), fica muito difícil criar em pessoas não negras essa revolta inata que nasce com as pessoas negras. Já está mais do que provado que biologicamente o conceito de raça não se sustenta, em especial para explicar as diferenças entre pessoas, mas, socialmente o conceito existe e é forte, por isso é impossível não falar de racismo na hora de identificar as diferenças sociais entre pessoas negras e brancas num país como o Brasil. 

Raça aqui é fator determinante. E, quanto mais escuro, mais decisivo é este fator na vida das pessoas. A pigmentocracia no Brasil é real. 

Pessoas negras são o alvo direto da necropolítica atualmente instalada no Brasil. Criar um inimigo para poder exterminá-lo com aprovação de várias camadas da sociedade não é novo, mas vem se fortalecendo cada dia mais e mais. E nós, pessoas negras minimamente conscientes, nos revoltamos com isso, odiamos isso. Daí, voltamos a Fanon, se é com ódio que dialogam conosco, qual será a linguagem usaremos para responder aos ataques, se não o mesmo ódio?

Odiar é normal e esperado quando nossos corpos são alvo diariamente deste ódio social.

E é a colonialidade que tem a missão de manter domesticado este ódio.
Evocar a paz e a “civilidade” diante da raiva e indignação de pessoas negras com a violência sistematizada é, no mínimo, desrespeitoso. Confundir a reação do oprimido com a violência do opressor é também desrespeitoso para com quem não conhece outra linguagem de tratamento a não ser a violência. 
A sociedade espera o que além disso de quem é criado para saber que deverá se submeter ao ódio?

sexta-feira, 5 de abril de 2019

TÁ NA HORA DE PARAR DE DAR MORAL PRA R4C1ST4

abril 05, 2019 0


Vamos parar de falar de racista? 
Não, não é parando de falar de RACISMO que ele acaba, mas, pra isso a gente não precisa deixar racista famoso, não é, bebê?
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Todos os dias uma "jovem inocente" vai parar na rede sendo racista e, da noite pro dia, as redes explodem e a bicha tá famosa. Enquanto isso, vocês perdem o conteúdo de vaaaaárias minas negras muito boas de serviço. Várias empresas têm investido no hate whatching, uma espécie de "audiência do ódio": cometem racismo, lotam as redes, pedem desculpas e PRONTO!

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Tá na hora de parar de deixar racista famoso. A recompensa em ser racista não pode ser a fama, galera, acorda! Porque vocês não viralizam os nossos? Agora, basta uma racista fazer uma coisa esquisita no cabelo e pronto, vocês colocam gente sem senso do ridículo no topo das listas. .
Que tal a gente aprender, de uma vez por todas, a brincar de internet? Racismo é crime, ALÉM das redes sociais isso é caso de POLÍCIA!
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Vamos combater e falar do RACISMO, racista não tem que ficar famoso as custas da nossa dor.


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A PRETA DA VEZ

agosto 24, 2018 1
A busca pela representatividade, principalmente nas mídias comerciais, têm trazido à tona uma questão específica e bem nova para a comunidade negra. É possível falar de pessoas negras "padrão"? Existe um padrão em que o corpo negro caiba?
Existe corpo negro padrão? Projetado pelo Freepik
Quando falamos em corpo padrão, é óbvio que o socialmente construído é conhecido por todos nós: branco, magro, alto, de preferência loiro, a princesinha no imaginário das histórias infantis. Logo, é difícil imaginar o corpo negro ocupando qualquer coisa próximo de um lugar padrão. Mas, como explicar então as pessoas negras padrão, aquelas que têm sido procuradas para serem representatividade de marcas e da mídia que precisa incluir pessoas negras – mas não qualquer negra?

As pretas da vez estão em muitos canais. Não é difícil identificar a preferência de certas marcas e mídias por negras  de pele mais clara, "traços finos" (com todas as aspas do mundo, para entendermos o racismo que há nesta expressão), magras, com cabelos longos e cacheados. E aí, é possível negar que há uma negra padrão?

É importante termos em mente que o padrão é branco e estamos na luta para que ele seja erradicado (Salve, Rincon Sapiência!), portanto, pessoas negras não cabem no padrão social nos moldes macro, mesmo as magras, mesmo as de pele clara, mesmo as heterossexuais, mesmo as perfeitas. Mas, também é importante reconhecermos que, quanto mais próximo da branquitude, mais fácil ser um tipo aceito por ela. Afinal, o que é mais cômodo do que colocar na sua lista uma pessoa negra que não agrida o seu padrão? Assim, as pessoas negras que são gordas, com ""traços grossos"" (fazendo aqui a mesma observação do racismo), de pele mais e mais escura, homossexuais, bissexuais, ou seja, todo que destoe do que seria algo equivalente ao padrão branco, só que negro, sequer entra na fila da representatividade nos canais hegemônicos da mídia ou das marcas legais, que resolvem contratar apenas os e as pretas da vez.

E o que fazemos com isso?

Adianta nos voltarmos contra as pessoas negras padrão? Acredito que o problema está no sistema e acredite, esse não é um problema novo. Dividir para conquistar é historicamente usado contra o nosso povo. Escravos da casa e escravos da lavoura, por exemplo, uns contra os outros, usando os privilégios dos escravos da casa para incitar a ira dos escravos da lavoura. Mas, não há como ter privilégio nenhum em ser escravo e o ideal seria que ambos não fossem.


Acredito, também, que o primeiro passo para desconstruirmos o que vem sendo chamado de padrão e na verdade é mais uma divisão para conquistar, é que os que são considerados padrão entendam do que está sendo falado. Isso é, se você é magra, precisa entender que você é mais tolerada que negras gordas. Isso te faz menos negra? Não! Isso não é um campeonato de opressão. Mas, te faz uma negra magra que agride menos os olhos da branquitude. E, bom, se eles tem que tolerar uma preta, que seja uma que agride menos aos olhos. Agora, pense, você quer mesmo ser essa peça? 

No começo pode ser interessante ter esse acesso – porque não é privilégio nenhum ser tolerada –, mas, a que preço? Ser magra, ser de classe média, ser heterossexual, ter pele clara ou tudo isso junto, confere a mulher negra acessos em algumas situações e não ser assim retira esses acessos. 

Porque acessos? Porque eles podem ser revogados pela branquitude a qualquer momento e sem aviso prévio. Ser rica ou de classe média, ser magra, ser hétero, não garante que os males do racismo não vão te atingir, se você ainda for negra ou negro. 

Precisamos entender o lugar de acesso que ocupamos e desconstruir a ilusão de que é privilégio poder frequentar a casa grande. Privilégio mesmo é liberdade.

Existe corpo negro padrão? Projetado pelo Freepik

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A AMBIÇÃO É UM PRIVILÉGIO E NÓS PRECISAMOS FALAR SOBRE ISTO

agosto 10, 2018 0
Escrever é um privilégio.
Ler e gostar de ler é um privilégio.
“A ambição é um privilégio.” (Clarice Guimarães)
E hoje nós precisamos e vamos falar sobre isto.



O racismo é uma ferramenta de poder que não foi criada pelos próprios oprimidos, embora os filósofos eventuais das redes sociais insistam em repetir esse discurso, batam na tecla de que “racismo está nos olhos de quem vê”. Mesmo que esse argumento não se sustente, ainda precisamos falar sobre as pessoas que acreditam que os subalternos se colocam neste lugar e não que são colocados. Quando somos falados pelo outro, geralmente o falado reflete o desejado por este outro. E é assim que estudiosos sobre a pobreza, que não são ou nem ao menos foram pobres um dia, teorizam sobre o que leva ou o que mantém os pobres onde estão.

Assim como o racismo a educação também é uma ferramenta de poder. Também usada para manutenção das relações, a educação enquanto ferramenta é usada para escolher quem vai e quem não vai acessar este ou aquele espaço. É básico: saber falar difícil te leva a certos lugares e te dá certas condições que não são dadas a quem não sabe. Assim como conhecer os mecanismos de certos grupos sociais pode te fazer entrar neste ou naquele local. Ao mesmo tempo, entender que isto é uma ferramenta também compõe um “privilégio”, que no caso das pessoas negras, por exemplo, pode ser apenas uma salvaguarda, mas, saber como e onde entrar a educação é uma forma de exercer poder sobre as camadas sociais.

Assim nós criamos a falsa ideia de que, pessoas que não acessam a educação não o fazem ou porque não querem ou porque são socialmente incapazes de se importar com isso de maneira autodeterminada. Certo? Não. Se a educação é uma ferramenta de poder, é impossível que o próprio oprimido esteja fazendo uso dela enquanto aparelho. Isto não faz nenhum sentido.

E é aí que o argumento dos filósofos virtuais, cai.

É possível acreditar que toda uma população que estivesse consciente do quanto a educação pode transformar sua realidade, pode tirá-los da condição de expectadores e levá-los ao lugar de roteiristas de suas próprias vidas, que poderia levá-los para frente, seria capaz de abrir mão deliberadamente disto? Repita em voz alta, se você soubesse que a educação é poder e fosse instruído de como ela pode te fazer avançar, você diria “não, obrigado, quero me manter aqui, pobre, resignado, submisso e fraco”? Você acredita mesmo nisto?

E é assim que os privilegiados fazem, dizem que “negros são maioria da população carcerária porque gostam de roubar”, ou que “são minoria na educação porque não gostam de estudar”, assim como já ouvi dizerem que mulheres negras “são minoria no mercado de casamentos porque não gostam de se casar”. Repito, é exatamente quando o teorizador privilegiado fala pelo oprimido que ele projeta nessa conclusão o esperado por ele, ou seja, a explicação mais óbvia para quem sempre teve acesso a informação e escolheu absorvê-la, é que todos os outros tiveram e escolheram não fazer, por isso não têm.

A educação para muitas pessoas não é uma escolha fácil, para outras ela não é sequer uma alternativa. Fazemos parte de uma sociedade capitalista e, como tal, é preciso ter pessoas específicas para cada setor desta sociedade, fazemos partes de uma engrenagem de uma coisa maior e a sociedade precisa continuar fabricando peças para todos os setores. É impossível manipular e “adestrar” pessoas basicamente educadas, é impossível pagar salários medíocres por trabalhos pesados se as pessoas que desempenham este trabalho forem educadas o suficiente para contestar esta lógica. Então, pense um pouco: Para quem interessa uma população não educada? Àqueles que trabalham dia e noite em trabalhos considerados subordinados e pesados, ou à quem precisa lucrar com aquela mão de obra barata? Não precisa ser um gênio para entender isto, mas, é preciso um repertório básico que nem todos tem. E é assim que a sociedade decide várias questões importantes, como por exemplo a criminalização do aborto, que atinge majoritariamente a população negra e pobre do Brasil. Não se educa sobre métodos contraceptivos, não se permite o aborto seguro e legal, depois criminaliza-se a saída desesperada das mulheres, pronto! Você tem uma fábrica de mais e mais pessoas que farão parte deste grupo que trabalha para sustentar a outra parte da história que não é criminalizada e muito menos presa por realizar um aborto, afinal, paga por ele.


Educação é um privilégio e nem o acesso a isto garante que vamos mudar as estruturas completamente, fato. Mas, pensar que quem não acessa escolhe simplesmente não o fazer é irresponsável. As perspectivas de vida dadas para certas camadas da sociedade são diferentes, elas servem ao interesse daqueles que detém o poder, como já disse anteriormente. E, não é porque nós tivemos algumas escolhas que todas as outras pessoas também tiveram.



Pessoas negras não tem privilégios sociais, mesmo quando têm acesso à educação. Para usufruir de privilégios numa sociedade racista, você precisa necessariamente não ser negro (ou indígena, no caso do Brasil). O que a pessoa negra adquire ao ter acesso à educação é um acesso, uma salvaguarda que não vai livrá-la de sofrer racismo, o espaço acadêmico está aí para nos provar isto, mas, vai dar acesso às ferramentas, conhecê-las ao menos para saber como são utilizadas enquanto instrumento de poder. E isto já pode ser alguma coisa.

LEITURA RECOMENDADA SOBRE O TEMA:

Pode o subalterno falar? Gayatri Chakravorty Spivak
O que é lugar de fala? Djamila Ribeiro

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O CASO RACHEL DOLEZAL [DOCUMENTÁRIO NETFLIX]

maio 02, 2018 3
O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
Ao assistir ao documentário a primeira pergunta que parece inevitável de se fazer é: "E se eu, mulher negra, saísse por aí me declarando branca, onde eu estaria agora?" A resposta mais provável à minha realidade é: "Mais fácil estar sendo tratada como louca e desequilibrada, do que estrelando um longa na Netflix!"

Acaba de ser disponibilizado no catálogo da Netflix o filme sobre o - polêmico - caso de Rachel Dolezal, a mulher branca americana que se auto identifica como "transracial".

O longa resume a história de vida da mulher de 37 anos, confrontada pela mídia em 2015 com a pergunta: "Você é negra?", "Você é afro-americana?". Visivelmente desconcertada, Rachel fugiu da pergunta e a partir daí a polêmica tomou proporções inimagináveis.

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
Rachel Dolezal é mãe de três filhos (em 2015 tinha apenas dois filhos), e o documentário mostra a gestação e nascimento do terceiro bebê que, ao chegar, é identificado pela mãe como "negro e branco ao mesmo tempo". O documento de identificação étnico racial do recém-nascido é de preenchimento obrigatório nos EUA, o qual pode acarretar mais processos judiciais para Rachel, se considerado fraudado. O que pode acontecer se ela identificasse o bebê como "negro", mesmo sendo filho de uma mulher caucasiana. O pai do bebê é desconhecido e o pertencimento racial do homem não é definido no longa. Embora tenha sido questionada sobre isto, Rachel não falou sobre o assunto.

Ao longo do filme, é possível ver como a exposição deste caso, no mínimo bizarro, prejudica a vida dos filhos de Rachel. O mais velho, Izaiah, é um dos quatro filhos adotados pelos pais de Rachel quando ela ainda era adolescente, que depois teve a guarda transferida para ela. O filho do meio, Frankilin, é fruto do casamento entre Rachel e Kevin Moore, um homem negro. E portanto, Frankilin também é negro. Durante todo o documentário são expostos os ataques que os filhos de Rachel acabam sofrendo, de pessoas agressivas, principalmente através das redes sociais.

A infância de Rachel foi marcada por abusos sexuais cometidos pelo irmão mais velho (biológico). Depois, teve sua adolescência marcada por presenciar agressões de seus pais aos seus irmãos adotivos. Quatro crianças africanas por quem os pais adotivos acreditavam ser uma "missão divina" que eles cuidassem, de acordo com relatos da própria Rachel. Uma das irmãs de Rachel relata que os castigos físicos eram brutais e constantes, da infância até a adolescência. Inclusive, foi para Rachel que ela pediu ajuda para sair de casa quando teve a chance, para se livrar dos maus tratos cometidos pelo casal Dolezal.

Ao falar sobre o casamento com Kevin, Rachel diz que sente como se ele a "considerasse como um troféu", já que ele mesmo a via como branca e a teria deixado quando ela começou a "se vestir como negra".

Rachel foi uma importante liderança no movimento negro americano dentro da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, em livre tradução), até começarem a duvidar das suas declarações (e de sua sanidade mental). Várias ações importantes para a comunidade negra foram encabeçadas por ela, até a reviravolta e a grande polêmica sobre o caso.

Embora Rachel só enxergue "boas intenções" em tudo que fez, o longa traz a voz de mulheres negras que trabalharam com Rachel e alguns questionamentos feitos por elas ficam martelando em nossas cabeças:

Se Rachel nunca disse nada de novo, sobre racismo e supremacia branca, porque então foi dada à ela a atenção que nunca antes fora dada a mulheres negras? Será então que se aproximaram das causas propostas, por ela ser uma "negra" que se aproximava dos brancos, mais que qualquer outro?

Vidas negras se perdem todos os dias e Rachel apoia seu argumento de que "é negra", porque "se sente como negra". E para materializar isso Rachel faz black face, usando uma maquiagem vários tons acima do seu tom de pele, bronzeamentos artificiais, além das várias perucas, apliques, tranças boxbraids e usa "roupas de negros", como ela mesma define. Enfim, Rachel afirma se sentir negra, porque faz "coisas de negros".

Cá entre nós, poderia haver justificativa mais estereotipada e racista do que essa?

Outro questionamento interessante ao longo do filme, que é simplesmente ignorado por Rachel para continuar afirmando sua "transracialidade", é:

O quão importante seriam as nossas vivências, dores, experiências, lutas, ancestralidade e origem. Quão importante é passar por tudo isso para só então ser considerado negro na sociedade estadunidense?

Rachel parece ter se apropriado da vivência de seus irmãos e filhos para tomar uma identidade que não é dela. E continua jurando de pés juntos que, para ser negra basta se sentir negra. Sabemos bem que na realidade isso não acontece.

Rachel, enquanto mulher branca, poderia ser muito mais útil a comunidade negra, principalmente entre seus pares, mostrando que o comportamento dos iguais a ela é extremamente nocivo para a comunidade negra. Mas, ela insiste todo o tempo que sua "identificação" é muito mais importante do que qualquer coisa que todos os negros tenham a dizer sobre isso. 

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
"À ideia de raça sendo fluída, eu vou dizer não! E o motivo é porque que as pessoas ainda não entendem o privilégio branco. Se você cresceu com esse privilégio, ele não some naturalmente. Eu acredito que o que ela faz é uma fraude." Latoya Brackett, membro da NAACP.

O CASO RACHEL DOLEZAL - DOC NETFLIX - ABRIL 2018
"Transracial é o epítome [resumo da teoria] do privilégio branco. Se cada grupo étnico não pode fazer isto da mesma maneira e pode ser aceito dessa forma, então é um privilégio." Kitara Johnson, membro do NAACP.

Nada pode definir melhor "O Caso de Rachel Dolezal", do que privilégio branco. Acho inclusive que o caso dessa mulher possa ser usado como ilustração didática perfeita para a expressão. Uma vez que, como muito bem colocada por Kitara, nenhuma outra etnia tem o privilégio de estar autorizado a transitar entre as raças e transitar quando quiser.

Outro ponto colocado no documentário, que não abordarei por não ser meu local de fala - mas, aguardo ansiosamente pelo posicionamento das mulheres transsexuais - é a associação entre a transexualidade e a "transracialidade" de Rachel Dolezal. É um completo despropósito.

Em resumo, acredito que a situação seria facilmente resolvida se Rachel Dolezal abrisse mão da sua mentira e assumisse que não é preciso roubar um local de fala para apoiar uma minoria social. Rachel poderia se colocar como irmã de pessoas negras, como mãe de pessoas negras, mas, nunca como uma pessoa negra. Porque isso é algo que ela simplesmente não é. 

Para assistir ao filme, basta (além de ter uma conta na Netflix, claro!) clicar neste link: https://goo.gl/WLwMTB.

domingo, 26 de novembro de 2017

CHEIRO DE CORPO: ONDE É QUE VOCÊ GUARDA SEU RACISMO?

novembro 26, 2017 0
Reportagem publicada no site "Varela Notícias" em 24 de fevereiro de 2014 | Link da Notícia
Vários estereótipos acompanham homens e mulheres negras brasileiras, um deles e tão cruel quanto qualquer outro é o que trata do “cheiro” das pessoas negras. Não é difícil encontrar por aí pessoas que associam mal odores do corpo as pessoas negras, um exemplo de alguns anos atrás foi de uma participante do BBB14 que ainda tentou justificar como sendo uma expressão “comum” em sua cidade. Sim, o racismo é comum no Brasil, não temos dúvidas disto, mas o que também não pensamos é o quanto estes estereótipos mexem com as pessoas negras no geral.

Para além de todos os estragos físicos que o racismo tem feito conosco, o genocídio dos jovens e homens negros está aí estampado na nossa cara para não me deixar mentir, sequelas psicológicas vêm deixando marcas fortíssimas nas pessoas negras e precisamos urgentemente pensar no quanto isto é injusto e precisa ser freado. Além das mortes que a população negra precisa inevitavelmente superar, pois, “a vida continua” e geralmente as famílias negras precisam continuar existindo pelos que ficam, o racismo consegue mexer com aspectos pessoais que passam longe das sequelas que consideramos óbvias e inevitáveis diante das situações mais “visíveis” do racismo (mortes e violência policial, por exemplo), mas também aspectos íntimos, como nossa aparência pessoal, nosso cheiro, principalmente.

Imagine crescer e passar uma vida inteira ouvindo expressões como “fedendo a neguinha”, entre outras agressivas e que não precisam ser citadas aqui, e mesmo depois de crescidos, continuar ouvindo comentários de pessoas brancas associando pessoas negras ao mal cheiro, então, como confiar em si mesmo e não absorver esta “neura” para sua vida? Aí então começa a correria para perfumes em excesso, desodorantes em excesso e, no caso de nós mulheres, uma necessidade imensa de mudar o cheiro da própria vagina porque fomos ensinadas que o nosso cheiro “fede”. É preciso aqui fazer uma diferenciação, para aqueles que além de racistas beiram o analfabetismo funcional, não se tratar de gostar de estar cheiroso, quem não gosta? Estamos falando aqui de um sentimento que se cria nas pessoas negras que tem pavor de em algum momento da vida corresponderem a este estereótipo ligado normalmente as pessoas negras.

Todos os seres humanos estão sujeitos a exalar mau cheiro quando não cumpridas aquelas regrinhas básicas de higiene que nós, pessoas privilegiadas com água a vontade e chuveiros aquecidos em casa, fomos ensinados a cumprir. Isto quer dizer que a falta desta higiene pode levar a pessoas de QUALQUER COR OU RAÇA não terem um cheiro agradável, então, porque é que esta expressão está associada as pessoas negras? Segundo o site “ABC DA SAÚDE” o mau cheiro do corpo tem como principal responsável as glândulas apócrinas¹, encontradas nas axilas, por exemplo, que normalmente não excretam substâncias com mau cheiro, mas, a ação das bactérias em contato com o ar e o suor excretado provocariam o mau cheiro. Alguns fatores biológicos podem sim influenciar nessa produção, mas, também segundo o site, as etnias com mais glândulas deste tipo no corpo são a europeia e a africana, enquanto os povos amarelos e indígenas, menos. Então, se considerarmos os povos europeus como sua maioria branca, este estereótipo não deveria atingir também as pessoas brancas? Logo, só posso entender o racismo como fonte de embasamento para estes preconceitos.

A pergunta que sempre deve ser feita é: onde você guarda seu racismo? Se biologicamente pessoas de origem africana e européia estão em pé de igualdade na quantidade destas glândulas que PODEM (poder não significa necessariamente que vão) prejudicar o cheiro do corpo, porque é que estas expressões não afetam as pessoas brancas (de origem européia, por exemplo), somente as pessoas negras? E, não venham me dizer sobre as piadas dos perfumes franceses, não sejamos rasos nas discussões. 


¹ GUENTHER VON EYE (Brasil). Cheiro de Corpo. 2017. Disponível em: <https://www.abcdasaude.com.br/medicina-interna/cheiro-de-corpo>. Acesso em: 26 nov. 2017. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SE VOCÊ É NEGRO, PRECISA LER ESTE TEXTO: SER OU FAZER PARTE DE UMA MINORIA NÃO TE IMPEDE DE SER OPRESSOR

julho 17, 2017 0

É muito difícil reconhecer privilégios, para uma população que tem pouco ou nenhum lugar de prestígio dentro da sociedade isto é uma tarefa muito difícil, mas, precisamos parar para pensar neste assunto.

Pessoas negras não tem lugar de privilégio na sociedade falando de maneira macro, institucional e de classe, mas, entre nós, é possível encontrar pessoas com mais ou menos prestígio social e que, vez ou outra, podem ser opressoras com minorias que estão dentro de minorias. Se não entendeu, eu explico! Pessoas negras não serão (tão cedo) padrão dentro da sociedade brasileira, pelo simples fato de sermos negras, mas, estar próximo ao que é considerado padrão, ou seja, branca, magra, heterossexual, cabelo “cacheado” comportado e que tenha os famosos “traços finos”, lhe confere algum destaque em relação a pessoas negras que não estão próximas deste ideal. Ser magra, de pele clara e heterossexual, por exemplo, te deixa bem à frente de pessoas gordas, negras de pele escura e homossexuais, deu para entender? E, quando alguém aponta isto, não está querendo dizer que você é privilegiado diante de toda uma sociedade que não te enxerga como portador de vantagem, mas sim, diante daquela outra pessoa que, mesmo também sendo negra como você, vai enfrentar outras opressões além do racismo. Entendeu?

No entanto, mesmo tendo isto claro nas nossas cabeças, não é tarefa fácil reconhecer isto e, mais ainda, se lembrar disto sempre na hora de falar sobre estes assuntos, já que a nossa reação enquanto integrantes de minorias sociais (e não estamos aqui falando de número de pessoas, sei bem que a população negra é a maior parte da sociedade brasileira) é, normalmente, se defender, tentar justificar ou mostrar logo quais e quantas são as opressões que nós sofremos diariamente. É importante ter em mente que este não é um concurso de “quem sofre mais”, “quem apanha mais” ou “quem é mais desprezado pela sociedade", nada disto, mas nós que não somos gordas, por exemplo, precisamos reconhecer que caso nós não tenhamos consciência do nosso lugar, nós também seremos uma fonte de sofrimento para as pessoas que já precisam aguentar todos os dias o massacre da sociedade. Se r gordo não é, necessariamente, uma doença e não vamos nem entrar no mérito de “saúde”, porque isto pode ser só uma desculpa para você esconder a sua gordofobia, você se preocupa tanto com a saúde dos outros, mas, quantos copos d’água bebe por dia? Fuma? Faz exercícios regulamente? Consome álcool com frequência? Isso tudo são comportamentos que, caso você seja magro, ninguém fiscaliza sob esta justificativa. Se a pessoa gorda se sente bem com o que ela é, que tal nós que não somos gordas, não normalizamos aqueles comentários como “eu acho você linda, mas eu não fico bem gorda” (você pode até achar isto, do fundo do seu coração, sem nenhuma maldade, mas, cá entre nós, qual a necessidade de falar isto para uma pessoa gorda?), “ai, como eu tô gorda” (isto depois de comer bastante numa festa e continuar enfiada no seu jeans 38), “nossa, viu como fulana está gorda... ” (como se isto fosse um defeito super relevante), entre outros comentários que nós, que não somos gordas, fazemos rotineiramente e sem pensar que isto incomoda as pessoas que são.

A mesma reflexão serve para as pessoas negras e de pele clara, sabemos muito bem que ser negro no Brasil é complicado, para TODAS AS PESSOAS NEGRAS independente do tom da pele, mas, é preciso reconhecer que a questão do racismo no Brasil é pigmentocrática e quanto mais escuro você é, mais racismo você sofre, já para as pessoas de pele clara, quanto maior for a sua passibilidade branca, maior a possibilidade de ser tolerada em alguns meios. Isto também vale para características físicas que não são negroides, lábios pequenos, nariz pequeno, testa menos protuberante e por aí vai... apontar este tipo de privilégio, como já dito neste texto, entre pessoas negras precisa ser visualizado e enxergado como um ponto a equilibrar e não uma disputa infundada de “quem sofre mais”, porque isto não contribui em nada no nosso crescimento enquanto povo.

Entender que nós, pessoas negras e heterossexuais, temos privilégios em relação as pessoas negras não-hétero, não é dizer que nossa vida é tranquila e sossegada nos nossos relacionamentos “normativos”, entendo bem que relacionamento entre pessoas negras não é “normativo” para uma sociedade racista, raramente nós somos a família representada no casal da propaganda de margarina. Mas, é preciso que reconheçamos que se estivermos dentro do esperado pela tradicional família brasileira (isto quando estamos num relacionamento, porque a solidão da mulher negra é um fato que não tem discussão), vai ser muito mais aceito um casal de homem e mulher cis de mãos dadas na rua, do que duas mulheres ou dois homens negros. Discursos como “já basta ser preto, ainda tem que ser viado”, é algo que nós que não assumimos relacionamentos homossexuais nunca vamos escutar. Sem falar é claro, dos homens negros gays que são sempre enquadrados em lugares que a hiperssexualização dos nossos corpos os coloca, os ativos, besuntados em óleo e prontos para serem o fetiche sexual de todos que quiserem, que é outro problema enfrentado pelos gays negros, segundo os relatos que escuto.

São muitas as particularidades que nós, pessoas negras, temos e não precisamos levar a discussão “para fora de nós”, fico pensando o quanto da desumanização restante da escravidão não permanece em nosso pensamento. Nós temos tantas facetas que nos diferenciam e, mesmo assim, continuamos comprando a ideia de que “preto é tudo igual”, não, não é, não somos todos iguais e o que nos diferencia é que nos faz especiais. E, principalmente, reconhecer que temos as nossas diferenças sabendo que isto não pode nos separar, mas sim nos tornar mais conscientes de como e porque devemos, ou não, dar aquele abraço ou aquele espaço ao outro. Negro não é tudo igual, pessoas não são todas iguais e nós precisamos saber como, quando e até onde vai nosso tratamento com o outro. Respeito é a base para qualquer relação, com qualquer outra raça, mas, foi tirado de nós esta humanidade e o cuidado com a outra pessoa negra acaba ficando em outro plano, ou pior, acaba não existindo, porque fomos ensinados pelo racismo que “negro é tudo a mesma coisa”.

Discutir não é sinônimo de brigar, discutir é debater determinado assunto para chegar, ou pelo menos tentar chegar há um consenso que seja bom para todos os lados e, neste caso, esta é uma discussão entre pretos, para pretos e que deve ter o propósito de crescimento, não ser mais um ponto de discordância que nos separe e fortaleça o macro opressor que temos em comum: o racismo.

domingo, 30 de abril de 2017

"QUERIDA GENTE BRANCA", COMO VOCÊS LIDAM COM O RACISMO?

abril 30, 2017 0
"QUERIDA GENTE BRANCA", COMO VOCÊS LIDAM COM O  RACISMO?
Querida gente branca foi ao ar na NETFLIX, no último final de semana, mas mesmo antes disto a série já vinha dando o que falar, principalmente, por várias pessoas brancas reclamarem de algo semelhante ao "racismo reverso", na concepção destas pessoas, apontar o racismo nelas é uma forma de ser racista com elas. Curioso, não acham?
Bom, mas para aquelas pessoas brancas que conseguem transcender o egocentrismo étnico e passam a ver a série como uma referência na melhora de comportamento, pode significar um crescimento pessoal incrível. No entanto, este post não é para dar **spoillers** da série, mas, para falar de uma outra discussão que aconteceu este mês no meu canal do youtube: COMO A BRANQUITUDE DEVERIA SE RELACIONAR COM O RACISMO?
Pois é, conviver com pessoas diferentes de nós, nem sempre é bom, mas em algumas vezes é possível encontrar no nosso meio, pessoas que mesmo pertencendo a branquitude, fazem questão de refletir seus privilégios e falar, de dentro da sua vivência, para desconstruir os seus iguais. Não são todos, óbvio, mas pessoas lidas no Brasil como brancas podem sim usar do seu privilégio social para contribuir na luta contra ao racismo.
Foram três vídeos com a Carina Bento, para discutir a questão de como ela, enquanto mulher lida como  branca, se posiciona diante do assunto e as maneiras que hoje ela tem buscado para contribuir na luta, sem invadir espaços de fala. 
Espero que vocês gostem da discussão, do caminho escolhido para abordagem e estejam à vontade, para deixar suas sugestões, críticas educadas e o feedback.

"A branquitude frente o racismo" (Parte I)

"Lidando com o privilégio branco" (Parte II)

"Como não ser uma pessoa racista" (Parte III)


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

SE FOREM RACISTAS COM VOCÊ, APENAS SE CALE - COMO TRATAR O RACISMO, POR MORGAN FREEMAN

novembro 10, 2016 0
Começa o mês de novembro e junto com ele, vem a chuva de compartilhamentos da "célebre" frase de um senhor chamado "Morgan Freeman". Morgan Porterfield Freeman Jr., é um ator, produtor, narrador e diretor de cinema estadunidense, nascido em 1937. Em 2009 o ator concedeu uma entrevista falando sobre racismo e desde então, atribuíram à ele uma frase que carrega, supostamente, uma ideia revolucionária que acabaria com o racismo no mundo.

Todos os vídeos aos quais tive acesso estão grosseiramente editados e, por este motivo, fica impossível eu afirmar ou negar a veracidade da fala, mas no post de hoje, vou tentar explicar de maneira simples e didática, honrando minha futura licenciatura, porque é que o racismo não deixará de existir, se nós apenas deixarmos de falar dele.

A primeira coisa à se fazer, com certeza seria desconstruir esta ideia de que o racismo é apenas uma questão de opinião. Talvez você considere uma "opinião preconceituosa", torta, errada, engraçada, vazia, tanto faz, mas considerar o racismo apenas uma "questão de opinião", seria diminuir a importância e o tamanho do estrago que ele pode fazer na vida da população negra em geral. Racismo é um crime, previsto na lei Nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989, pode ser lida neste link a lei que regulamenta e prevê as punições para o crime de racismo, para casos em que uma pessoa for IMPEDIDA de realizar diversas ações em virtude da sua raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional e por impedir, a lei quer dizer diretamente ou indiretamente, barreira física ou moral para que isto aconteça. Crimes de ofensa à honra são chamados de injuria racial, com punição prevista no código penal e valem para a vida virtual também. Em resumo, se você chamar alguém de "macaco" é injuria racial, se você impedir o macaco de entrar numa loja, comprar um sapato, ir ao cinema, é RACISMO! 
Escurecida a diferença, ainda fica evidente que ambas as ações são CRIMES, certo? Não é brincadeira, questão de opinião, questão de gosto ou  qualquer outro termo que você queira usar para reduzir a gravidade do ato cometido.
Outro ponto à ser considerado que é de extrema importância, é: o racismo se apresenta em diversas esferas da sociedade. Não ocorre "apenas" na internet, em casos isolados ou com um ou outro negro na rua. O racismo estrutural é um ótimo exemplo disto, atingindo 99% das nossas instituições sociais os negros são afetados todo o tempo e prejudicados dia após dia. Na saúde pública, educação e principalmente segurança, que no caso das pessoas negras, na maioria das vezes, não representa estar seguro de fato, a sociedade estruturada sob bases racistas, considera o negro uma ameaça para a segurança e não indivíduo que deva usufruir de, sendo protegido e resguardado por ela. Todos os dias é possível encontrar uma nova pesquisa escancarando o sistema genocida da população negra, um ato protagonizado pelo que deveria ser, a "segurança pública". Negros são a maioria nas prisões e a minoria em cargos de chefia, mulheres negras são a maioria em clínicas psiquiátricas e minoria na mídia, crianças negras são a maioria em situação de rua e a minoria em escolas infantis, é por conta do racismo estrutural que esta conta não se equipara. O racismo no sistema público de saúde, por exemplo, mata todos os dias com doenças que se tratadas com atenção, poderiam ser curadas ou mesmo receberem tratamentos paliativos dignos, mas por conta de uma sociedade racista, negros e negras perdem a vida esperando serem tratados em equidade. É bom dizer, que o próprio Ministério da Saúde iniciou uma campanha visando reduzir os casos de racismo dentro do sistema, mas a campanha acabou "caindo no esquecimento" neste ano.
Muitas vezes por interpretação da lei, crimes de racismo que são inafiançáveis e imprescritíveis, acabam sendo lavrados como apenas injuria racial, onde a pena é mais branda, muitas vezes convertida em prestação de serviços à comunidade. E talvez por isto, as pessoas ainda não tenham ligado o crime à sua devida seriedade, sendo levadas à acreditar que o racismo é só uma questão de "assunto" ou "opinião" e como tal, será resolvido na conversa ou mesmo se "esquecendo o assunto".
Entendendo, ainda que superficialmente, a questão do racismo no Brasil e como ele extrapola a questão de "opinião pessoal", é muito mais fácil desconstruir esta ideia de que o racismo é apenas uma ação  com prejuízos no campo subjetivo. O racismo mata, adoece e dizima a população negra brasileira, desde que fomos sequestrados para este país e nem em tempos de grande opressão, como no período da escravidão em que não poderia se reclamar de ser escravo, afinal era a única condição possível para os negros, nem nesta época em que se falava pouco ou nada sobre racismo, ele deixou de existir, então porque agora isso funcionaria? Se hoje, alcançamos pontos significativos de expressão dentro da sociedade, não foi deixando de falar ou nos calando diante das situações de racismo vividas cotidianamente, mas sim, discutindo e elaborando o tema com conversa, luta e muita disposição.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DESCULPE O TRANSTORNO, MAS, É PRECISO FALAR SOBRE PROFESSORES RACISTAS

setembro 22, 2016 1
A escola de modo geral, é um ambiente inóspito para pessoas negras, eu posso falar disto com toda a certeza em generalizar, porque exceções existem, mas elas só vem para confirmar a regra: escolas são ambientes racistas!
DESCULPE O TRANSTORNO, É PRECISO FALAR SOBRE PROFESSORES RACISTAS
A vida toda fui aluna de escola pública, com exceção apenas da pré-escola, pois na minha região este ensino não era oferecido pela administração pública às crianças e, para eu não chegar ao ensino fundamental sem saber nada, minha mãe fez um esforço além das suas possibilidades para me colocar numa escola particular, que nos dias de hoje, custaria algo em torno de R$100,00. Muito humilde, muito simples e, tinha lá seus defeitos, foi onde aprendi a ler, escrever e que a vida não seria nada fácil na escola.
Dizem que ninguém nasce racista e eu acredito nisto, mas se aprende muito cedo a ter esse comportamento lamentável. Com sete anos, as crianças que estudavam na mesma escola que eu, já sabiam fazer piadas maldosas com o meu cabelo, minha cor da pele, meu nariz largo e com os meus lábios grossos. As crianças, em sua maioria negras nesta escola, sabiam inclusive, separar os de pele clara para "pegar mais leve" nas piadas. 
No ensino fundamental I, não foi diferente. Era uma escola muito grande, mais de 200 alunos só na mesma série em que eu estava, todos os dias uma ofensa ou piada diferentes, quase todas envolvendo meu cabelo ou o fato das minhas pernas ficarem "russas" com facilidade. E obviamente não era só comigo, mas todas as crianças negras que ali estavam, como sendo maioria, os negros por vezes oprimiam seus iguais, fruto de um aprendizado com os maiores e principalmente, da omissão dos professores e coordenação da escola. Era uma época em que era "comum", chamar o colega negro de macaco e os professores não reprimirem aquele comportamento.
Os anos passaram e ao invés de reduzir, o racismo na escola só aumentava. A pré-adolescência é um período difícil para todas nós, mas ser mulher e negra nesta fase da vida, é muito próximo do inferno. Os colegas são cruéis, as colegas consideradas "padrão" são cruéis, os professores além de omissos passam a tratar, principalmente os meninos, com um racismo ainda maior e, as meninas, com uma objetificação sem fim.
Um estudante de 14 anos, negro, foi chamado de macaco por uma professora durante uma discussão no Instituto de Educação Clélia Nanci, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O caso aconteceu na segunda-feira, mas a docente, identificada como Nádia Restum, só foi afastada da escola estadual nesta quarta. A mãe do aluno registrou uma queixa por injúria racial na polícia.
Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/professora-chama-aluno-negro-de-macaco-durante-discussao-em-sala-de-aula-20152093.html#ixzz4L17YjWa0

Toda a minha trajetória escolar, foi marcada pelo racismo sem dúvidas e, ledo engano de quem acha que, ao chegar no ensino superior, a história vai melhorar. Não, não vai e se bobear, piora!
Atualmente, curso história numa universidade federal que é considerada uma das melhores do Brasil, mas, que não é diferente em nada, da primeira escola pública em que estudei. Ou melhor, é diferente no fato de que os professores não são apenas omissos, mas tão ou mais racistas, que meus colegas de universidade. Como já disse, existem as exceções que estão aí para confirmarem a regra, mas no geral, entendo o porque do comprometimento da saúde mental de tantos dos nossos estudantes negros país afora, a Universidade é um ambiente racista também.
No curso de história, um dos termos preferidos dos meus professores é o tal anacronismo, que quer dizer basicamente, o erro cometido ao contextualizar um tempo histórico com base no seu tempo atual, é mais ou menos como eu querer analisar, levando em consideração os valores da nossa sociedade hoje, algo ocorrido no século 19. Pois bem, este termo é usado por muitas vezes para justificar eles ainda serem racistas, como alguns gostam de dizer, "em pleno 2016". Exemplo disto, é um determinado professor, que em todas as suas teses, artigos publicados e aulas dadas, afirma a teoria de que EXISTEM e QUE SOMOS todos frutos de uma mestiçagem positiva e romantizada, por isso, não somos negros e sim, MESTIÇOS, PARDOS OU MULATAS. Isto mesmo, mulatas, em 2016, um termo reconhecidamente racista e já debatido por diversos estudiosos que hoje, reconhecem o racismo nesta expressão. Mas, para não ser anacrônica, é preciso separar quando se usa este termo para referir-se à um tempo em que, a expressão era comummente usada, do nosso tempo agora, em que muitos estudiosos reconhecem o caráter depreciativo desta expressão. Menos, é claro, este professor citado.
O ambiente acadêmico é branco, sendo assim, ao estudante negro restam poucas alternativas: debater, adoecer ou embranquecer!
Podemos então continuar considerando normal e esperado, que a ancestralidade negra seja massacrada no ambiente acadêmico? A ponto de aceitar o estudante negro, somente se ele for levado ao seu ponto máximo de exaustão?
Diariamente são vinculadas na mídia reportagens retratando racismo por parte de professores, o que não é de espantar. Nossos professores estão sendo formados em um ambiente racista, por outros racistas, que num ciclo, já se formaram com outros mestres igualmente preconceituosos. E é sabido que o meio docente, não é dado a aceitar críticas e muito menos, descer de seus pedestais. Precisamos sim quebrar este ciclo, mas, como faríamos isto se a universidade continua funcionando como um ambiente inóspito para as pessoas negras, assim como todo o ciclo básico escolar?
Sabemos que é preciso resistência, seguiremos então abrindo espaços, há dez anos atrás era muito mais difícil que hoje. Sigamos todos denunciando sempre estes casos, promovendo debates, levando para dentro das paredes blindadas da acadêmia, nossas pautas e contra-argumentos, sempre que possível, nos baseando em pesquisa. Apenas quando ocuparmos os espaços de formação, com a produção de novos educadores, é que conseguiremos modificar este ciclo racista.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

BARRADAS NA SALA DE IMPRENSA - A IMPRENSA PODE SER PRETA?

julho 13, 2016 5
Qual a cor da mídia para você? Quando você ouve falar em blogueira qual a descrição da primeira figura que vem a sua cabeça? Pois blogueiras negras foram barradas no baile, vamos falar sobre isto?
BARRADAS NA SALA DE IMPRENSA - A IMPRENSA PODE SER PRETA?
A recepção na primeira Feira Profissional da Beleza do Blog Na Veia da Nêga, não foi aquilo que eu posso classificar como boa e inclusive para ser considerada ruim deveria melhorar muito. No dia 12 de Julho último dia da feira eu estive lá afim de conhecer as possíveis novidades para nossos cabelos e pele que seriam apresentados na Internacional Professional Fair, feira esta que é considerada o segundo maior evento para profissionais da beleza no país e o Clube de Blogueiras Negras de Beagá foi credenciado como imprensa para registrar estas novidades e poder trazer até nosso público, a questão é que parece que a recepcionista (Helen) não estava preparada para dar de cara com uma IMPRENSA PRETA. A  reação da Helen foi aquele famoso "mal-entendido" que eu conheço como racismo institucional, acontece sempre que uma pessoa negra está ocupando um papel que geralmente é ocupado por pessoas brancas, neste caso o de blogueira. Helen não conteve seu deboche ao me identificar como IMPRENSA: "Imprensa? *cara de deboche* Imprensa do que? Da onde?". Este é o momento em que a pessoa negra que já "se acostumou com mal-entendidos" respira fundo e vai educadamente explicar à pessoa racista confusa que apesar de ela não estar acostumada a ver gente preta naquela função, sim, é o meu lugar. Bom, então parei para explicar a Helen que segundo as instruções da agência que nos credenciou bastaria apresentar nome completo na entrada. E "misteriosamente" não é que meu nome completo estava lá? Que coisa confusa deve ter sido para a Helen compreender aquele "mal-entendido" e como meu nome estava de fato lá como IMPRENSA. Onde já se viu, imprensa preta?
BARRADAS NA SALA DE IMPRENSA - A IMPRENSA PODE SER PRETA?
Os "mal-entendidos" começaram mais cedo pois no primeiro dia da Feira em Belo Horizonte o grupo de blogueiras do Clube de Blogueiras Negras de Beagá foi barrado na sala de imprensa! Pois é outro daqueles "mal-entendidos" que apesar de todo o constrangimento se resume à um "pedido de desculpas e salgadinhos", desta vez por parte da Renata que estava como recepcionista nesta sala. Na segunda-feira algumas blogueiras não quiseram retornar ao evento afinal, gente racista confusa nos deixa um pouco incomodadas e desconfortáveis em ter que desfazer diariamente tantos equívocos. No entanto como nossa obrigação era a de fazer a ponte entre os lançamentos e o nosso público, lá fomos nós esperando que no terceiro dia a organização da Feira Profissional da Beleza de Belo Horizonte estivesse familiarizada com a imprensa preta e desta vez o engano foi nosso, estamos a mais de quinhentos anos vivendo num país racista confuso e não deveríamos esperar que em três dias os "mal-entendidos" parassem de acontecer em mais um evento.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

APROPRIAÇÃO CULTURAL: A NOSSA CULTURA ESTÁ NA MODA E NÓS?

dezembro 23, 2015 2
Muito se ouviu falar em apropriação cultural em 2015, principalmente das outras etnias em relação a cultura afro em geral. Em muitas das discussões as pessoas usam como argumento o bom e velho "eu uso o que eu quiser" e, com estas pessoas, realmente fica difícil desenvolver qualquer discussão com mínimo de nível mas vamos tentar discutir de forma saudável? 
Quando ouvir falar de apropriação cultural esqueça o "não posso", ninguém está dizendo o que você pode ou não pode fazer. Vivemos em um país democrático em que, desde que você não infrinja as leis, pode fazer o que você quiser não é mesmo? Não existe nenhuma lei até agora que proíba pessoas não-negras de usarem dreads, tranças ou turbantes.
Mas se não há lei que me proíba e eu posso fazer o que eu quiser, porque não usar?
Primeiro de tudo, eu sei que não adianta apelar para senso de justiça ou bom senso de pessoas racistas porque elas simplesmente NÃO TEM essa pecinha na cabeça, mas ajudar a população negra a entender e fortalecer os seus argumentos sobre estas discussões é de extrema importância (aliás este blog existe para isto: empoderamento negro). Pessoas racistas e preconceituosas geralmente só pensam no próprio umbigo e são incapazes de tentar problematizar algo considerando a vivência do outro. Para uma pessoa racista, se a Thaís Araújo é negra e faz sucesso significa que todas as pessoas negras podem ter o mesmo sucesso dela e, se ainda não tem, é porque não estão se esforçando o suficiente. 
Segundo, avalie muito bem se vale mesmo a pena e é completamente necessário entrar na discussão sobre apropriação cultural com uma pessoa racista / preconceituosa / umbiguista porque certamente isso será desgastante e muito, muito longo. Você precisa ter certeza de que vale a pena começar aquela discussão e que aquela pessoa que você vai discutir é suficientemente importante para você, do contrário, deixe o racista falando sozinho!
Então vamos aos fatos, a nossa estética atualmente está na moda, todas as pessoas querem colocar um pano/lenço na cabeça e chamarem de turbante, só porque algum fashionista disse que esta palavrinha torna qualquer pano na cabeça mais chique, usar estampas étnicas vindas da África para parecer "in", usar dreads porque acha "moderninho" ou frequentar o candomblé/umbanda porque viu numa reportagem que é a "nova religião dos jovens descolados". Mas, antes de alguém dizer que isso ou aquilo era "moda", o que é as pessoas racistas achavam disto hein? Candomblé era "do demônio", Dread era "coisa de mendigo", turbante era "coisa de macumbeiro" e por ai vai... E agora tudo é "cool". Apropriar-se da cultura do povo negro no mínimo é desonesto porque você pode achar lindo levar um "turbante" para casa, mas levar todos os prejuízos sociais que nós carregamos dia e noite, quem quer? "Mas Lívia, turbante não é só dos negros, os árabes também usam"... Eu particularmente adoro esse argumento, porque parece que a pessoa não faz ideia de que os países árabes ficam no continente africano (às vezes nem fazem mesmo, rs), ou às vezes acham que a Africa é só um país, vai entender...
E, mesmo que em uma hipótese remota, o Marrocos (por exemplo) não fizesse parte do continente africano, você, pessoa que não nasceu nasceu no Marrocos ainda estaria se apropriando de uma cultura que não é sua não é mesmo? 
Por anos, o povo negro no Brasil foi obrigado a negar as suas raízes e esconder tudo o que remeterá a mãe África (já falamos sobre a política de embranquecimento do Brasil aqui no blog) portanto, tudo que faz parte da nossa cultura até bem pouco tempo era considerado sujo, impuro ou "motivo de vergonha" e de uma hora para outra virou "modinha entre a turma antenada". E não bastasse toda a problemática em volta disto, temos o principal que é a inviabilização do negro, quer exemplos? Negro de turbante - macumbeiro (e isso não é ruim, ruim é significado pejorativo que a sociedade racista atribui às religiões de matrizes africanas), Branco de turbante - fashion; Negro de dread - sujo, Branco de dread - fashion; Negro no candomblé / Umbanda - adorador de demônios, branco nestas religiões - fashion. Entenderam agora qual o problema da apropriação cultural? Foi nesta mesma linha que nossos heróis foram embranquecidos e invisibilizados e isso NÃO ESTÁ LIBERADO! 

O problema básico da apropriação cultural na minha visão é quando nós somos considerados não tão bons para usar algo ou alguma coisa. Em um negro, aquilo carrega significado pejorativo e em uma pessoa branca no Brasil por exemplo, aquilo passa a ter um significado muito mais bonito, atrativo e é isto que é combatemos. Se ainda assim, o racista achar bonito sair por aí "fantasiado" de negro, é um problema que nós não conseguiremos resolver mas não é por isso que deixaremos de questionar e com argumentos sólidos! O nosso povo tem cultura, tem história e é tudo muito lindo portanto, vamos nos apropriar do que é nosso!

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