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domingo, 8 de maio de 2016

DREAD NÃO É SINÔNIMO DE CABELO SUJO, OK?

maio 08, 2016 3
Antes de qualquer coisa, eu nunca usei dreads. Mas é inevitável falar do incomodo que me causa certos comentários em relação aos dreads aqui no Brasil. Desde que o pessoal da turma "branco-paz-amor-tilelê" começou a usar os dreads como forma de "transgredir" na sociedade a situação só piora, porque "branco de dread é moda e preto de dread é mendigo"!
Muito me incomoda as pessoas usando como exemplo os dreads para serem sinônimo de sujeira, desleixo, falta de cuidado, desmazelo e nós sabemos que isto não é verdade! Cabelos crespos dredam naturalmente, basta ficar sem pentear uns dias. E eu estou dizendo SEM PENTEAR / DESEMBARAÇAR e não lavar, ok? Se você deixar o cabelo crespo quietinho no seu lugar, ele dreda naturalmente, sem nenhum esforço e isso é uma das muitas características positivas do nosso cabelo (lindo, se penteia sozinho) e mesmo assim as pessoas insistem em dar essa conotação negativa aos dreads.

CONHEÇA A HISTÓRIA DOS DREADLOCKS

Para alguns ele é símbolo de resistência, enquanto outros adotaram o estilo pensando no poder estético. De um lado ou de outro uma coisa é fato, o que não falta é história por trás das madeixas entrelaçadas em forma cilíndricas. Representado na cultura popular por Bob Marley e os seguidores do movimento Rastafari, os dreads possuem ligação direta com a África e a luta do negro em busca da afirmação de sua cultura. Ao contrário do que pode se pensar os dreadlocks não surgiram na Jamaica. Registros dão conta de que os cabelos são usados tanto na África quanto na Índia desde a antiguidade Bíblica e pré-Bíblica. No continente africano, ele é encontrado em algumas comunidades tradicionais, como os Himba, na Namíbia. Os Himba afirmam terem adotado o cultivo dos dreads desde o surgimento de sua cultura. Com uma população estimada em 50 mil pessoas, eles vivem no Norte da Namíbia e em Angola, e se destacam por cultivar uma cultura única em meio ao turbilhão chamado ocidentalização. 
Os dreads representam o estado civil das mulheres da comunidade e o desenho estético também se aplica aos homens. Quando solteira, as moças andam com o cabelo virado para frente, cobrindo quase que o rosto inteiro. Assim que se casam, ganham um adorno de couro e os dreads são jogados pra trás, sempre com a coloração rubra presente. Esta cor é obtida com o uso de um creme chamado por elas de otjize, feito com manteiga, ocre esfarelado e argila de tom avermelhado. Leia mais na FONTE

Então, depois de conhecer a história, saber da origem e do peso ancestral que os dreadlocks carregam, recomendo fortemente a você que vive usando dread como sinônimo de sujeira e desleixo que você REVEJA SUAS FALAS e coloque mais consideração na hora de falar tanta bobagem. Dreads são cultura e ancestralidade!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

SOBRE RÓTULOS: SABE A LÍVIA? AQUELA PRETINHA MARRENTA...

fevereiro 15, 2016 0


Cresci acostumada a ser rotulada desde a época da escola, e NUNCA eram rótulos legais assim de primeira, sou aquele tipo de pessoa que geralmente depois da primeira conversa sempre escuta: "Nossa! Achei que você não era legal, antes de conversar com você". Eu aprendi que não posso dar muita trela para os homens, desde criança nós meninas somos ensinadas que nós é que devemos tomar cuidado com os meninos, eles nunca são ensinados que devem nos respeitar. Então como era esperado eu cresci criando barreiras entre eu e os homens que não estivessem no meu círculo de convivência (e isto permanece pois confio cada vez menos nos homens). Cresci numa sociedade machista e até bem pouco tempo não tinha consciência, de que a estrutura que fomos criadas é que faz com que consideremos imediatamente qualquer mulher como "inimiga", isto cria uma antipatia por vezes intransponível entre mulheres, afinal "ela pode ser invejosa" ou "uma recalcada" querendo tudo o que é seu, somente hoje tenho consciência de que não é bem assim.

Mas alguns rótulos me acompanham desde esta época, hoje mais empoderada, conhecendo mais de como racismo e machismo caminham lado a lado, consigo fazer uma análise de rótulos que são comumente associado às mulheres negras. Quem nunca ouviu a expressão "neguinha de favela" ou "neguinha barraqueira"? Referindo-se a mulheres nervosas ou histéricas.
Normalmente a sociedade não ouve as mulheres, se ela for uma mulher preta então? Piorou! E qual a saída para sermos ouvidas? Falarmos de forma firme e se necessário for, gritar para que nossa voz seja percebida. Não há nenhum problema nisto, o problema está na sociedade que é doente, e tenta a todo custo dar a entender que as mulheres que "não se comportam como devem" precisam ficar a margem. O caso é que a saída para nós termos voz é nos comportar de maneira firme, por isto a sociedade está o tempo todo nos colocando a margem.

Os rótulos são vários: de antipática por não dar risadinha de piada racista, machista, misógina, transfóbica, gordofóbica, ou de marrenta por não achar que eu sou pior que ninguém não deixando nunca de me colocar quando acho que devo, de folgada pois respondo a altura toda e qualquer ofensa, venha de quem venha... Estes esteriótipos sempre me acompanharam, mas hoje fazem mais sentido quando vem de homens machistas, gente racista e outras pessoas com a cabeça de senhores e sinhás de engenho.

E aí você deve se perguntar: Como lidar com isto Lívia? Não se lida, se as pessoas lhe rotulam por conta de esteriótipos racistas este é um problema da sociedade e não seu! Ninguém tem que ser racista, machista, gordofóbico ou ter qualquer outro tipo de preconceito, para ser aceito. Se a turma que você anda está lhe dando estes rótulos por estes motivos, talvez esteja passando da hora de você rever o seu círculo de amigos, não é mesmo?

Ao longo dos anos da minha vida, melhorei muito como pessoa e principalmente após a maternidade, pude experimentar ser um tipo de ser humano que nem eu sabia que conseguiria, muito do meu imediatismo foi embora e hoje minhas repostas rudes são direcionadas ao "alvo certo". Então quando vierem críticas, lembrem-se que as mulheres negras vem carregando rótulos a muito tempo pois fomos criadas numa sociedade que é obrigatório saber se defender. Quanto as criticas que recebemos, temos que absorver os pontos de melhoria e o resto deixar ir assim como chegou, estes esteriótipos que criam para a nossa  raça é um problema deles. Racistas, machistas e todos os outros preconceituosos terão que aprender a lidar com esse novo modelo de sociedade, em que os oprimidos não se calarão.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O EMPODERAMENTO GERALMENTE COMEÇA EM CASA

fevereiro 13, 2016 2


Ao contrário do que muitos imaginam, a maioria dos negros empoderados da minha geração não vem de uma família que tenha vivido o movimento negro ativamente ou ao menos apoie a luta. Este é o meu caso e de grande parte dos meus amigos na mesma faixa etária, muitas das pessoas que eu conheço na minha idade estão representando a primeira etapa da família que se interessa, se empenha e luta pelas questões raciais. Portanto, amiga que está começando agora a transição capilar ou começando a assumir a sua negritude de alguma forma, não ache que você é a única que a família acha que está ficando maluca, você não é a diferentona!
Faz pouco mais de dois anos que comecei a me interessar por estudar a história do povo negro e assumir o meu cabelo, isso me trouxe a necessidade de externar e vivenciar tudo aquilo que eu estava aprendendo. Bastou isso para começarem as perguntas que muitas já conhecem e ouviram "mas não vai mais dar um jeito nesse cabelo?" ou "mas você só fala nisto agora"... E por aí em diante centenas de perguntas que, além de serem incomodas nos trazem aquela sensação de que estamos sozinhos na luta onde na maioria das vezes o refúgio acaba sendo as redes sociais. Foi assim que acabei onde estou hoje (risos) escrevendo e falando com algumas pessoas na internet porque em casa mesmo é meio impossível conversar sobre este assunto. Não acredito que seja culpa da minha família serem negros e reproduzirem um pensamento tão colonialista, prefiro pensar que somos uma "versão melhorada" que hoje procura sim tocar na ferida e afrontar todos os padrões  racistas que a sociedade impôs. Exatamente pelo avanço das redes sociais, hoje conseguimos nos articular, combinar ações com mais facilidade e, na época da minha mãe por exemplo isso era muito mais difícil e a minha luta é para que a geração do meu filho já chegue mais adiante que nós chegamos.
Ser um negro empoderado numa família que prefere dar uma de "somos todos iguais", quando na verdade não somos e exatamente por isso merecemos respeito pode ser muito complicado. Você tende a virar "o chato da família", "aquele que vê racismo em tudo" ou "aquele que não tem outro assunto"... E acredite, eu entendo você porque eu também sou a chata-do-rolé-amiga-do-processinho. HAHAHAHA!
Principalmente para as meninas em transição a família costuma ser cheia daquelas pessoas que mais te desanimam (com exceções ok? Tem famílias lindas que apoiam e procuram compreender o empoderamento dos jovens), aquela tia que vive lhe oferecendo uma progressiva, aquele pai que ameaça caso você faça o BC muito cedo (corte os cabelos bem curtos). Não é fácil, não é mesmo, por isso precisamos estudar e conhecer cada vez mais sobre a nossa história afinal não adianta só fechar a cara e falar mal dos parentes, você só vai conseguir ser respeitada ou respeitado caso tenha argumentos sólidos que embasem a sua luta e quem sabe, dependendo do quão persuasiva ou persuasivo você for, além de respeito você ganhe também o apoio de toda a família?
Conversar com os amigos virtuais sobre os assuntos que nós gostamos e enchem os nossos olhos é relativamente fácil, difícil mesmo é desconstruir aqueles que estão tão próximos e tiveram muito menos acesso a informação como nós temos hoje. E geralmente na porrada não funciona, tem que ter muita paciência mesmo para desconstruir e empoderar os nossos mais próximos!



sábado, 30 de janeiro de 2016

VOU MANDAR FAZER UM PINGENTE ESCRITO: C O T I S T A!

janeiro 30, 2016 0
Basta falar sobre cotas, para fazer ressurgir das tumbas discursos de senhores e sinhás do engenho com argumentos sem nenhum fundo de conhecimento histórico para desmerecer essa política de reparação que, apesar de estar longe de ser a solução para todos os nossos problemas é uma politica que é totalmente necessária.
As cotas são necessárias para a equiparação de um povo que à anos vem sendo subjugado e impedido de ter acesso a cultura, educação e outros âmbitos sociais que nos deixariam em situação de igualdade eu mesma nunca me considerei capaz de entrar na Federal, por diversos motivos mas o principal deles é reconhecer a defasagem que existe entre o nível de ensino o qual eu tive acesso e o nível que tem a maioria dos estudantes de lá, algumas pessoas que por exemplo a única obrigação na vida é estudar e tirar boas notas. Eu fui fazer a prova do ENEM sem pegar em um livro para me preparar, não tive tempo trabalhando em shopping de duas às dez da noite, trabalhando em paralelo com o meu blog e cuidando do meu filho de três anos (com a ajuda da minha família, porque não fosse eles, nem isso tudo eu conseguiria), não acreditava que teria nota para uma federal e mal sabia eu que todos os estudos que tenho feito nos últimos dois anos para manter e acrescentar ao meu ativismo digital era mais que preparação, muita leitura, muita pesquisa e muita mas muita vontade de aprender a história do meu povo. Outro motivo para eu temer a federal é que o nível de exigência é alto e saí na frente quem pode se dar ao luxo de apenas estudar, coisa que eu não pude e nem posso já que vou ter que me virar para trabalhar, sustentar meu filho e ainda tirar excelentes notas na federal. Por tudo isso, a Universidade Federal de Minas Gerais para mim é um sonho que eu não acreditava conseguir e para entender que foram as cotas que ajudaram a mim e a outros negros chegarem até aqui, é preciso entender da história do nosso país, o que está em falta atualmente.
Após os resultados da Seleção do SISU vários discursos racistas apareceram foi quase como se eu estivesse abrindo um jornal dos séculos 17 e 18 (não somente em relação a minha aprovação, mas como a de diversos negros cotistas, como a Lorena por exemplo), discursos inclusive mandando os negros voltarem para a África como se nós estivemos "roubando" algo de alguém. Acredito que os brasileiros ainda tem muito a estudar sobre a história do próprio país, sobre a política de cotas e vendo tantas manifestações que claramente desconhecem fatores históricos muito importantes fica evidente porque muitas pessoas não obtiveram notas suficientes. Esta prova do ENEM 2015 citou negros importantes, discursos feministas e a criação "modelo família tradicional brasileira" não contempla o diferente, não abraça todas as culturas e principalmente não entende que cotas são um sistema que busca equidade entre nós, busca preencher as lacunas que as políticas racistas nas quais nosso país é pautada deixaram na nossa história. Negros foram libertos da escravidão e jogados a própria sorte, enquanto as pessoas não negras puderam usufruir de todas as "cotas políticas" que foram criadas no período pós-libertação e colhem estes privilégios até hoje. Num país desigual como o nosso, é privilégio estudar numa sala de aula com ar condicionado e pouco mais de 20 alunos, poder pagar um cursinho que custa mais o salário com o qual eu sustento a minha família e sabemos que esta é a realidade de muitos estudantes que são maioria nas faculdade Públicas do nosso país. A política de cotas vem como resultado de anos de luta do Movimento Negro no Brasil e às pessoas precisam primeiro compreender os efeitos de quase 400 anos de escravidão de um povo antes de criticá-la.
A revolta acredito eu não é nem ao número de pessoas privilegiadas que deixaram de entrar, mas sim o número de pessoas que saíram da faxina da faculdade e passarão a ocupar os bancos nas salas de aula. As cotas são necessárias, porque parafraseando a maravilhosa Viola Davis em seu discurso do ano passado: O que separa as pessoas negras de pessoas privilegiadas na sociedade é apenas a oportunidade e agora que temos, vamos agarrar com unhas e dentes e enegrecer a torre de marfim sim!
O Jornal Estado de Minas publicou nesta semana uma matéria que ajuda a derrubar a falácia de que as cotas levariam a queda do nível do ensino nas faculdades públicas do país, na reportagem foi constatado que a média dos alunos cotistas em 2016 é MAIOR que a média dos alunos no antigo vestibular em 2013 (você pode ler a reportagem AQUI), mais um argumento daqueles que querem a  todo custo frear a política que leva cada dia mais homens e mulheres negras á um espaço que sempre foi nosso.

LEI FEDERAL QUE REGULAMENTA AS COTAS RACIAIS: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

DIVULGUE AS PRETAS: BLOG 'POR 365 DIAS DE CONSCIÊNCIA NEGRA'

janeiro 22, 2016 0
Post de hoje saindo um pouco atrasadinho, mas perdoem essa blogueira negra que anda frequentando ensaios de bloco de carnaval, ai a vida fica assim corrida e ás vezes demora a sair o conteúdo, mas saí! O #DivulgueAsPretas de hoje está no ar!



Hoje vou apresentar para vocês o blog de uma preta que conheci à pouco mais de três meses e tenho aprendido muito com os textões dela, risos! Sheila Antão é blogueira "fresquinha" aqui de Belo Horizonte e fala sobre o racismo nosso de cada dia, na busca de conscientizar e empoderar nossos irmãos e irmãs negros. Questões cotidianas e que às vezes deixamos passar problematizações importantes a Sheila coloca um olhar todo maravilhoso sobre elas. 




Um blog para discutir de forma super acessível às informações em torno do empoderamento, políticas públicas, educação, história e avanços para o povo negro. Sheila é uma mulher jovem, mãe, consciente da sua negritude e com muita vontade de dividir todo o seu conhecimento conosco. Eu realmente aprendo muito com essa mulher maravilhosa e acredito que vocês vão gostar muito de conhecer!




Belo Horizonte está colocando seu nome no mapa quando o assunto é calendário negro e o blog Por 365 Dias de Consciência Negra está presente em diversos eventos culturais de Belo Horizonte fazendo a cobertura para mostrar que, nós também nos movimentamos com ações importantes e positivas ok?



Você pode navegar pelas tags mais interessantes e conhecer tudo no blog, a Sheila fala sobre aquilo que à envolve dentro da negritude, polêmicas pontuais e sempre falando de nós, para nós e conosco. É assunto de pretas sabe?




Como muitas de nós, a militância desta blogueira começou a ser mais percebida após um episódio triste pelo qual ele teve que passar e conseguiu tirar uma coisa boa de tudo isso: nasceu a consciência que ela deseja espalhar por todos os dias do ano na vida de todos nós, acredito que não há maneira melhor de empoderar do que ajudar a informar e a Sheila Antão tem feito um belíssimo trabalho. Além do blog, ela também mantém um canal no youtube com vídeos sobre as temáticas abordadas nele e vale muito a pena conhecer.




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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A NATURALIZAÇÃO DO RACISMO NO NOSSO PAÍS: AQUILO QUE A GLOBO MOSTRA!

janeiro 19, 2016 6
E mais uma vez, polêmica na mídia com racismo escancarado, jogado na cara e que as pessoas teimam em chamar de "piada" ou como desta vez "objeto de decoração". Outra vez a sociedade mostra o seu pior lado, assume que somos um país racista desde a nossa origem e que a hipocrisia reina. Tentativas de deslegitimar o discurso dos negros que não aceitam mais a posição de expectadores ao comportamento doentio do Brasil são as mais absurdas, geralmente com"vocês não entenderam" ou "vocês entenderam errado" ou ainda "não foi a nossa intenção". 
O Brasil naturalizou expressões, ditados, ações racistas, na tentativa de manter essa tradição do país os discursos silenciadores tem virado moda e a certeza de impunidade é tão grande que uma emissora se dá ao direito de colocar dentro de um reality show uma peça que já havia sido amplamente criticada, para que aquilo vire "modinha nacional" dos expectadores do programa. Olha, o que mais me deixa intrigada nesta atitude é o quão subestimados nós somos pelos racistas de plantão, porque passa mesmo pela cabeça de quem escolhe a decoração que insinuar que cabelos crespos são, cabelos de "palha de aço" e que em algum momento isso seria considerado engraçado? Em qual planeta a estética de alguém pode ser considerada "piada" sem que este alguém (no nosso caso "muitos alguéns") se manifeste contra este absurdo? E mais absurdo ainda, se é que podemos mesmo escalar os níveis são pessoas tentando argumentar com "vitimismo" (que não é um argumento e sim ausência de), já que "vemos racismo em tudo". Vamos contabilizar quantos brancos foram mortos por serem brancos? Zero! Quantos asiáticos perderam a vaga de emprego por serem asiáticos? Zero! E vocês querem mesmo nos convencer de que "racismo não é exclusivamente com os negros?" Tenham santa paciência e façam-me o favor de serem menos desonestos para que talvez possamos ter uma conversa de nível por aqui!
Precisamos ainda dizer que, inadmissível também é o comportamento de quem produz dizendo representar Diana Ross e um dançarino de disco dos anos 70 - a empresa britânica Paladone - e de quem comercializa no Brasil (o país com maior população negra fora do continente africano) esta peça RACISTA, DISCRIMINATÓRIA que dissemina um mito ridículo e alimenta o buillyng em torno dos cabelos crespos. Nossos cabelos NÃO SÃO DE BOMBRIL, nossa estética NÃO É PIADA e associar nossos traços a conceitos pejorativos NÃO ESTÁ LIBERADO SOCIEDADE
O que a matéria chama de "objeto moderno" eu chamo de objeto discriminatório, racista e criminoso portanto de uma vez por todas entendam que terminou o tempo de calmaria, estamos dispostos a cobrar nossos direitos e principalmente exigir respeito. Nós, pessoas negras exigimos respeito enquanto PESSOAS NEGRAS DE CABELOS CRESPOS. Acabou o tempo em que alisaríamos nossos cabelos para termos uma falsa sensação de pertencimento ou  para tentarmos (às vezes em vão) escapar das agressões de pessoas racistas que acham engraçadinho fazer piadas com cabelos crespos. Nossos cabelos não são piada, nossa estética não é fantasia, chega dessa sociedade que acha natural ser racista e que vai ficar tudo bem! Racistas não passarão. Não!


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

DIVULGUE AS PRETAS: BLOG 'A NEGRA E SEUS TONS'

janeiro 01, 2016 4







Chegou a sexta-feira e eu fico muito feliz de conseguir levar o projeto #DivulgueAsPretas adiante, podendo apresentar a vocês blogueiras negras que vem sendo representatividade em todos os espaços! Hoje vou apresentar um blog que conheci a pouco mais de um mês e já estou A-M-A-N-D-O. Fala de cabelo, maquiagem, pele, unha, consciência racial, empoderamento e diversos assuntos relacionados a nós mulheres negras especificamente. 




Pra começar esse layout fofinho não é? O blog é esteticamente agradável sabe, dinâmico, realmente bonito falando de forma técnica. Super fácil de localizar o que você quer e principalmente interessante, tem bastante conteúdo para que você tenha realmente vontade de estar lá, a Murielly realmente tem feito um bom trabalho! Negra e consciente da sua negritude ela faz questão de ressaltar o quão linda e importante é a nossa estética de todas as suas formas e principalmente em todos os seus tons.




Adivinhem como eu encontrei o blog dela? Isto mesmo, procurando resenha de makeup baratinha (HAHAHAH. Vocês já devem estar me achando compulsiva) e ela realmente é das minhas, para que gastar dois baldes de dinheiro se você pode gastar uma canequinha sem perder qualidade? Preço baixo não é sinônimo de produto ruim e no blog dela você vai encontrar várias opções boas e acessíveis de maquiagem para a nossa pele. E isso é mara o que? MARAVILHOSO BRASIL!



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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

APROPRIAÇÃO CULTURAL: A NOSSA CULTURA ESTÁ NA MODA E NÓS?

dezembro 23, 2015 2
Muito se ouviu falar em apropriação cultural em 2015, principalmente das outras etnias em relação a cultura afro em geral. Em muitas das discussões as pessoas usam como argumento o bom e velho "eu uso o que eu quiser" e, com estas pessoas, realmente fica difícil desenvolver qualquer discussão com mínimo de nível mas vamos tentar discutir de forma saudável? 
Quando ouvir falar de apropriação cultural esqueça o "não posso", ninguém está dizendo o que você pode ou não pode fazer. Vivemos em um país democrático em que, desde que você não infrinja as leis, pode fazer o que você quiser não é mesmo? Não existe nenhuma lei até agora que proíba pessoas não-negras de usarem dreads, tranças ou turbantes.
Mas se não há lei que me proíba e eu posso fazer o que eu quiser, porque não usar?
Primeiro de tudo, eu sei que não adianta apelar para senso de justiça ou bom senso de pessoas racistas porque elas simplesmente NÃO TEM essa pecinha na cabeça, mas ajudar a população negra a entender e fortalecer os seus argumentos sobre estas discussões é de extrema importância (aliás este blog existe para isto: empoderamento negro). Pessoas racistas e preconceituosas geralmente só pensam no próprio umbigo e são incapazes de tentar problematizar algo considerando a vivência do outro. Para uma pessoa racista, se a Thaís Araújo é negra e faz sucesso significa que todas as pessoas negras podem ter o mesmo sucesso dela e, se ainda não tem, é porque não estão se esforçando o suficiente. 
Segundo, avalie muito bem se vale mesmo a pena e é completamente necessário entrar na discussão sobre apropriação cultural com uma pessoa racista / preconceituosa / umbiguista porque certamente isso será desgastante e muito, muito longo. Você precisa ter certeza de que vale a pena começar aquela discussão e que aquela pessoa que você vai discutir é suficientemente importante para você, do contrário, deixe o racista falando sozinho!
Então vamos aos fatos, a nossa estética atualmente está na moda, todas as pessoas querem colocar um pano/lenço na cabeça e chamarem de turbante, só porque algum fashionista disse que esta palavrinha torna qualquer pano na cabeça mais chique, usar estampas étnicas vindas da África para parecer "in", usar dreads porque acha "moderninho" ou frequentar o candomblé/umbanda porque viu numa reportagem que é a "nova religião dos jovens descolados". Mas, antes de alguém dizer que isso ou aquilo era "moda", o que é as pessoas racistas achavam disto hein? Candomblé era "do demônio", Dread era "coisa de mendigo", turbante era "coisa de macumbeiro" e por ai vai... E agora tudo é "cool". Apropriar-se da cultura do povo negro no mínimo é desonesto porque você pode achar lindo levar um "turbante" para casa, mas levar todos os prejuízos sociais que nós carregamos dia e noite, quem quer? "Mas Lívia, turbante não é só dos negros, os árabes também usam"... Eu particularmente adoro esse argumento, porque parece que a pessoa não faz ideia de que os países árabes ficam no continente africano (às vezes nem fazem mesmo, rs), ou às vezes acham que a Africa é só um país, vai entender...
E, mesmo que em uma hipótese remota, o Marrocos (por exemplo) não fizesse parte do continente africano, você, pessoa que não nasceu nasceu no Marrocos ainda estaria se apropriando de uma cultura que não é sua não é mesmo? 
Por anos, o povo negro no Brasil foi obrigado a negar as suas raízes e esconder tudo o que remeterá a mãe África (já falamos sobre a política de embranquecimento do Brasil aqui no blog) portanto, tudo que faz parte da nossa cultura até bem pouco tempo era considerado sujo, impuro ou "motivo de vergonha" e de uma hora para outra virou "modinha entre a turma antenada". E não bastasse toda a problemática em volta disto, temos o principal que é a inviabilização do negro, quer exemplos? Negro de turbante - macumbeiro (e isso não é ruim, ruim é significado pejorativo que a sociedade racista atribui às religiões de matrizes africanas), Branco de turbante - fashion; Negro de dread - sujo, Branco de dread - fashion; Negro no candomblé / Umbanda - adorador de demônios, branco nestas religiões - fashion. Entenderam agora qual o problema da apropriação cultural? Foi nesta mesma linha que nossos heróis foram embranquecidos e invisibilizados e isso NÃO ESTÁ LIBERADO! 

O problema básico da apropriação cultural na minha visão é quando nós somos considerados não tão bons para usar algo ou alguma coisa. Em um negro, aquilo carrega significado pejorativo e em uma pessoa branca no Brasil por exemplo, aquilo passa a ter um significado muito mais bonito, atrativo e é isto que é combatemos. Se ainda assim, o racista achar bonito sair por aí "fantasiado" de negro, é um problema que nós não conseguiremos resolver mas não é por isso que deixaremos de questionar e com argumentos sólidos! O nosso povo tem cultura, tem história e é tudo muito lindo portanto, vamos nos apropriar do que é nosso!

sábado, 19 de dezembro de 2015

QUAL A MINHA MOTIVAÇÃO PARA ASSUMIR O CABELO NATURAL?

dezembro 19, 2015 1
Esta pergunta tem sido frequente na minha vida desde que assumi os meus cabelos e não tenho problema nenhuma em respondê-la pelo contrário, adoro contar a minha história capilar que na maioria das vezes serve para encorajar a outras mulheres negras e crespas, fazendo-as acreditar que é possível sim ser feliz com os nossos cabelos naturais e livres!
Eu já contei para vocês aqui no blog que alisei os meus cabelos por doze anos. O primeiro relaxamento foi por volta dos dez anos com um produto considerado "fraquinho", diluído em creme de hidratação e só para "abaixar o volume". Há quatorze anos atrás, cabelo crespo era considerado desleixo e não era possível a menina sair com "aquele cabelo" na rua ou do contrário, o que as pessoas iriam pensar não é mesmo? Pois do relaxamento fraquinho eu parti para o relaxamento de fato, depois o alisamento e por fim (quase fim mesmo do meu cabelo) o alisamento com progressiva a base de formol! O meu cabelo é CRESPO, vai do 3C ao B e era realmente impossível encontrar um produto que de fato deixasse o meu cabelo "liso" por isso ele sempre deixou evidente que ele era "alisado", não passava nem perto da aparência natural. Depois de muitos produtos fortes, alergias a formol, caspas, cortes químicos e quebras um dia decidi colocar um megahair porque eu realmente NÃO TINHA MAIS CABELO, era colocar a mão e ele simplesmente se soltava da raiz ou quebrava. Fiquei dois anos no total usando alongamento até que caiu a ficha: "eu estou pagando para alisar o meu cabelo e colocar um cabelo cacheado, qual é o meu problema?". Nunca havia me feito esta pergunta sinceramente e menos ainda havia parado para pensar que eu estava pagando rios de dinheiro para fazer o que a natureza já havia me abençoado de graça, risos. O bichinho da economia me mordeu e eu resolvi parar com as químicas mas eu não conseguiria ainda tirar o megahair porque meu cabelo destruído até então não estava "socialmente apresentável". 
Estamos acostumados a ver na tv ganhando cada dia mais espaço, os cachos não é mesmo? Mas eu não tinha certeza se tinha cachos (e de fato não tenho os cachos 3A que todo mundo quer ter) e ainda estava meio insegura em assumir os meus próprios cabelos. 

O que no começo era só vontade de economizar dinheiro com relaxamento, passou a ser vontade de parar de gastar com alongamento e por fim virou vontade de abandonar todas as imposições da sociedade. Um dia você para e se pergunta: "Porque é que eu estou alisando os meus cabelos?" ou "Porque é que eu passo tanto tempo tentando me encaixar numa coisa que eu não sou?". E essa foi a tacada final para que eu decidisse de vez que não deveria mais buscar me encaixar!
A decisão de entrar em transição é única e exclusiva da mulher, não adianta a amiga, a vizinha, a cunhada, a tia ou a prima tentarem enfiar goela abaixo que não vai. Cabe a própria mulher se conhecer, se amar e decidir se desprender de todo o padrão que temos imposto hoje em dia. O que não quer dizer que seja fácil nem obrigatório. Esta porta só abre pelo lado de dentro mas todo mundo precisa de um abraço para vir aqui pra fora. 
Agora me conta, qual foi o seu motivo para assumir o seu cabelo natural? Espero que tenham curtido este post e que ele sirva para incentivar quem ainda está com aquele pezinho na indecisão. Abraços, até a próxima!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NÃO FOI A BONDADE DE BELL MARQUES

dezembro 17, 2015 0
Esta semana foi divulgada a notícia de que o cantor Bell Marques terá que mudar a letra de sua música racimachista se quiser continuar reproduzindo ela por aí e nas redes sociais circula a nota de esclarecimento do cantor onde ele coloca que "não foi por pressão" que resolveu modificar o absurdo que ele pretendia cantar no carnaval 2016. Bell Marques conta que foi convidado pelo Ministério Público da Bahia e foi de "boa vontade" ouvir o que as promotoras tinha a dizer sobre a sua música e dá a entender que, por ser "bonzinho" ele resolveu que modificaria a canção junto aos seus compositores. 
Bom, mas não é bem assim não é mesmo? Fui atrás de estudar um pouco para entender o que de fato aconteceu com o sr. Bell Marques e compreender que ele não é tão bonzinho, compreensivo assim e mais, que o Ministério Público da Bahia agiu sim e não somente o convidou a tomar um café aproveitando para apelar ao seu bom-senso.

O que é um TAC? O que Bell Marques assinou na reunião que teve no MP-BA foi um TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA e vou colar aqui a definição disto para que vocês possam entender:

"O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), também conhecido como Compromisso de Ajustamento de Conduta, há quase 20 anos, tem sido um instrumento de resolução negociada de conflitos envolvendo direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos muito utilizado pelos órgãos públicos de defesa do consumidor, principalmente pelo Ministério Público.  A utilização do TAC é feita, por excelência, no âmbito extrajudicial, nos autos de inquérito civil ou procedimento similar, instrumento destinado a investigar lesão ou perigo de lesão a interesses ou direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos de consumidores. O objeto do TAC é prevenir, fazer cessar ou buscar indenização do dano aos interesses acima mencionados.  Quando o escopo do TAC é prevenir ou fazer cessar dano aos interesses em questão, a obrigação a ser assumida é de fazer (obrigação positiva) ou não fazer (obrigação negativa ou de abstenção). O TAC pode ter por objeto, simultaneamente ou não às obrigações antes apontadas, obrigação de indenizar (danos a interesses individuais homogêneos ou dano coletivo: material ou moral, ex: publicidade enganosa). Os direitos que podem ser objeto do TAC são, entre outros, os referentes ao meio ambiente, ao consumidor e à ordem urbanística. A área em que o TAC é mais utilizado é a do consumidor, pois esta confere maior margem para negociação para as partes (órgão público representa a parte ideal = coletividade). Em síntese: o TAC é um instrumento legal destinado a colher, do causador do dano ao consumidor coletivamente considerado, um título executivo extrajudicial de obrigação de fazer, não fazer ou de indenizar, mediante o qual o compromitente assume o dever (ou obrigação) de adequar sua conduta às exigências legais, sob pena de sanções fixadas no próprio termo de ajustamento de conduta." Fonte: Marco Antonio ZanellatoProcurador de Justiça

Em resumo, o termo de ajustamento de conduta é uma ação do MP quando as partes tem condição de entrar num acordo que seja considerado bom para ambas mas, ainda estando clara a posição do que causa o dano e o prejudicado, bem como punições e ações que devem ser tomadas afim de reparar o dano que foi causado.

Apesar de todos os comentários estarem sendo excluídos das redes sociais de Bell, as promotoras do caso afirmam terem usado prints das reclamações para fortalecer a ação que levariam ao Ministério Público e, antes que dessem entrada na ação, o advogado de Bell as procurou e disse que eles teriam o interesse de conversar com o MP. 


"Uma das promotoras do caso, Márcia Teixeira, que também é coordenadora do grupo de Atuação em Defesa das Mulheres e Defesa LGBT (Gebem/ LGBT) relatou como o cantor procurou o MP.“Rapidamente essa música foi lançada e começaram a surgir várias manifestações nas redes sociais. Nós printamos as denúncias e realizamos um procedimento preparatório de investigação. Na sexta-feira (11), o advogado de Bell nos procurou a pedido dele, informando que Bell tinha interesse de conversar com o Ministério Público, porque nem ele, nem os compositores tinham interesse em fazer qualquer conteúdo discriminatório”, relatou a promotora.Márcia ainda esclareceu os detalhes do TAC. “Nossa proposta foi que a música fosse trabalhada em uma nova versão, o que eles acolheram imediatamente. Outra proposta foi que eles produzissem, durante o carnaval 2016, um material através de ventarolas [abanador de papel] e plotagem do trio elétrico, que promovesse uma campanha de combate ao racismo e violência contra as mulheres”, explica.“Depois do carnaval, eles devem fazer materiais de combate ao racismo também. Toda essa campanha será divulgada nos meios de comunicação. Além disso, Bell ofereceu um espaço no trio dele para que um representante do MP, que integra o Observatório do Carnaval [centro onde o público pode fazer denúncias de racismo, casos de desrespeito, homofobia e violência contra mulher], trabalhe durante a festa, e assim termos um observatório móvel. Este último não está na TAC, foi uma proposta de Bell”, completou a promotora." Fonte: Nitro News Brasil  


Entendendo o que é um TAC e entendendo que nossas manifestações nas redes sociais foram sim ÚTEIS para que algo fosse pensado e principalmente feito contra esta música racista e machista nós conseguimos ter a noção da dimensão e força do ativismo digital. Caso nós não tivéssemos nos manifestado contra a música preconceituosa do cantor ela continuaria ecoando no carnaval da Bahia (e do Brasil inteiro pelo visto) em 2016. Bell Marques não foi bonzinho em repensar sua atitude, ele entendeu que nós hoje temos uma voz poderosa, consciente e que principalmente, não iriamos levar na brincadeira a atitude racista e machista do cantor junto aos seus compositores.

Após todas as manifestações de mulheres, homens e o povo negro indignado com a música do cantor, ações foram tomadas e ao descobrir a dimensão das nossas ações, ele retrocedeu! O povo negro venceu, povo negro unido é povo forte e #RacistasNãoPassarão!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A NATURALIZAÇÃO DO RACISMO NO NOSSO PAÍS

dezembro 10, 2015 1

Quem participa das redes sociais já deve ter chegado a conclusão de que o ano de 2015 não está sendo fácil! Incrível o número de pessoas que tem se mostrado corajosas e se sentindo (pasmem) engraçadas em serem racistas, preconceituosas e criminosas. Não podemos esquecer que o crime de racismo está previsto em lei e é INAFIANÇÁVEL ou seja, na teoria qualquer pessoa não importando o quanto dinheiro tenha será presa e terá que aguardar na cadeia por um julgamento. Entretanto, na certeza da impunidade as pessoas tem cada vez mais cometido crimes virtuais e se mostrado completamente incapazes de conviver em sociedade!
No dia nove de dezembro a noite já comecei a ouvir as notícias do mais novo racista que se sente engraçado, o Sr. Bell Marques, que se não me engano já deve ter passo dos cinquenta anos e ainda não aprendeu a ser gente! Na minha infância, graças ao Sr. Bell Marques e sua mania de se achar engraçado eu tive que passar anos sendo recebida ao som de "olha a nêga do cabelo duro, que não gosta de pentear..." ou "meu cabelo duro é assim, cabelo duro de pixaim..." Não bastasse ele ter sido racista e ter passado impune na geração da minha infância, o Sr. de idade reaparece tentando ser engraçado sendo racista em 2015 só que desta vez, nós não vamos nos calar! 
Na letra racista, discriminatória dos compositores "Escandurras, Fagner e Gileno", o machismo impera e "ordena" que a "preta dele" (como se ele pudesse ser dono de alguém") alise o cabelo porque "é assim que o nêgo dela gosta". Bom, é difícil saber por onde começar a problematizar esta situação, visto que temos uma enxurrada de preconceitos em poucas frases e diga-se de passagem a métrica é horrível! O maior problema é que no Brasil é tão comum tomar a nossa estética, nossos traços e nossas origens como piada que até  que "este será o hit do carnaval 2016" eu já ouvi, agora, já imaginam que situação desagradável ouvir esta porcaria de janeiro a junho de 2016? Porque, como disse a Danny Mendes ser o "hit do carnaval" significa essa música racista tocar em TODOS OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO por pelo menos seis meses ininterruptos. E eu só consigo me lembrar do quão difícil era a minha vida nos longos anos que tive que ouvir a música racista do Sr. de Idade Metido a Engraçado, Bell Marques.
E é por vivermos num país que encara com tanta naturalidade a discriminação, que "em pleno 2015" como gosta de dizer a turma da "paz&amor" que somos obrigadas a conviver com uma música racista, machista, classita e nojenta como algo "engraçado". 
A sociedade espera sinceramente que o Ministério Público acate as manifestações que estão sendo enviadas contra essa porcaria racista e PROÍBA essa palhaçada de ser veiculada publicamente, pois a mulher negra brasileira já tem coisas demais para se defender, para ter que incluir na sua lista um senhor de mais de 50 anos que até hoje não aprendeu que RACISMO é crime e RACISTAS NÃO PASSARÃO!
Sr. Bell Marques, vai ter crespa e cacheada sim, não vamos alisar não e se o Sr. gosta de cabelo liso, case-se com uma peruca!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

PRECISAMOS ENTENDER QUE NÃO É SÓ POR CABELO!

dezembro 08, 2015 0
O empoderamento dos jovens negros no ano de 2015 girou em torno de uma temática principal: a estética! E isto não é ruim, muito pelo contrário, as crianças de hoje tem a oportunidade de terem suas características físicas muito mais valorizadas e respeitadas do que eu tive a vinte anos atrás, o caso é que não podemos deixar o campo estético ter maior (ou menor) visibilidade que outras bases dos nosso empoderamento. Ter um cabelo maravilhoso não é mais importante que ter consciência política acerca do que vem sendo feito para o povo negro dentro do cenário das leis nacionais, estaduais e municipais, por exemplo, então é preciso lembrar sempre que NÃO É SÓ POR CABELO!
O seu black power armado ou aquela maquiagem que teve 600.00 mil curtidas no Instagram por si só não vai salvar ou mudar nada no cenário nacional de racismo e discriminação que está cada dia mais forte. As pessoas estão se demonstrando mais racistas de maneira diretamente proporcional ao quanto estamos lutando por espaço e reconhecimento, portanto nosso empoderamento deve permear todas as áreas!
No mês passado, o Blog Na Veia da Nêga foi convidado a fazer parte de um mini-documentário da Mandala Comunicações, falando sobre a estética negra representar mais que "cabelo", sobre ser um conjunto que contempla muito mais que nosso exterior! A Mandala é hoje a produtora oficial do Encrespa Geral aqui em Belo Horizonte e tem produzido uma série de vídeos para o canal "TV Encrespa" trazendo à cena conteúdo enegrecido aqui em Belo Horizonte!
Precisamos realmente fazer uma reflexão sobre quem somos, de onde viemos e o que nos trouxe até onde estamos e o mais importante, o que o nosso empoderamento individual pode fazer pelo coletivo. É preciso sim crescer sem perder a raiz do #Ubuntu e lembrar que ainda mais importante que o empoderamento individual é a força que o empoderamento do povo negro como um todo pode representar! Precisamos assumir a consciência de que somos um povo de diáspora e que somente juntos conseguiremos realizar mudanças efetivas! 
Nós somos a maioria da população deste país e o senso mais recente divulgado mostra que a população que se autodeclara preta ou parda já passou de 60% e um número tão grande de pessoas pode realmente fazer a revolução mas para que isso comece, precismos ter a consciência de que se você não usar a sua fala para empoderar um irmão que seja a sua volta, de nada adianta. Juntos somos fortes!
Em um vídeo de menos de 20 minutos pude falar um pouco sobre o porque a estética é importante mas não somente ela. Convido vocês a assistirem e qualquer ressalva ou crítica podem deixar nos comentários pois estamos aqui para aprender juntos! É muito importante que as pessoas negras possam falar, cada dia mais, quanto mais voz nós tivermos maior o nosso alcance!





segunda-feira, 16 de novembro de 2015

DESCONSTRUINDO A MERITOCRACIA

novembro 16, 2015 0
Marc Ferrez, 1882
Existe um mito no Brasil de que para conseguir status social ou patrimônios por aqui bastaria trabalhar bastante e teoricamente você conseguiria alcançar. Esse mito ignora fatores históricos muito importantes da construção do nosso país, como por exemplo o fato de que a população negra brasileira foi "jogada a própria sorte" quando a abolição da escravatura foi assinada e passou a ser considerada em território nacional! Anos de atraso social são fatores determinantes para que o conceito de meritocracia seja jogado por terra!
No período pós-abolição o povo negro teve seus direitos suprimidos para que pudessem importar trabalhadores europeus, estes sim com direitos trabalhistas e condições humanas de trabalho, grande parte destes ganhou ainda terras para que pudessem começar sua vida de forma digna junto de sua família neste país. Puderam trazer livremente sua cultura, seus costumes e crenças e sabemos que um ponto importante para a saúde de um povo é que mesmo sendo diáspora ele possa continuar alimentando e vivendo sua cultura onde estabeleceu morada. Prova disso, são as diversas colônias portuguesas, alemãs, italianas entre outras que preservam festas típicas, tradições da culinária e até a língua de seus países de origem. Não há como pedir para que um povo seja igualmente sucedido se ele não foi igualmente tratado! 
A Família - Tarsila do Amaral
Então hoje ó papo é com a turma do "Somos todos iguais por dentro e aos olhos do Pai. Quem quer estuda e corre atrás, não fica nesse mimimi de negro vítima. A escravidão faz tempo, basta correr atrás, não preciso de cotas para isso." Preciso contar um segredo para vocês, esse papo de "somos todos iguais" não condiz com as taxas de desemprego, genocídio, feminicídio, estupro, violência doméstica, etnia da população carcerária, população analfabeta, vítimas de violência obstétrica, vitimas fatais de negligencia médica, número de negros em cargos públicos, entre outras particularidades da população negra do Brasil.
Uma breve pesquisa pode mostrar em dados o quanto os negros possuem diferenças perante as leis e serviços básicos em relação aos demais povos que são imigrantes neste país.
Dados do Ministério da Saúde indicam que o perfil da maioria dos presos no Brasil, são de jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa escolaridade, eles são 73,83% do total da população carcerária e destes 66% não chegaram a concluir o ensino fundamental. A renda média dos empreendedores brancos é 116% maior que a dos empreendedores negros no Brasil, apesar de os negros serem maioria empreendedora o racismo institucional pode explicar a menor valorização do trabalho da parcela negra.  Uma pesquisa do IBGE mostrou que a escala de sensação de segurança é 30 vezes menor em mulheres negras. O tempo médio de estudo de pessoas negras é de 6,5 anos enquanto o de pessoas brancas é de 8,8 em média. Na população em geral negros ganham 36% menos que brancos. Se reduzirmos o grupo de pesquisa para as mulheres o número sobre para 40%.
Paulica Santos
Entre as vítimas de agressão, segundo o IBGE no ano de 2010 proporcionalmente 1,5 eram homens brancos para 2,1 homens negros assim como,  1,1 de mulheres brancas para 1,4 mulheres negras. Outro dado que reflete a disparidade entre as populações de raça diferentes no Brasil é que 70% das famílias em situação de pobreza compatível com o recebimento do programa bolsa família são chefiadas por negros (não necessariamente homens). As pesquisas que demonstram as taxas de desemprego também podem ser consideradas provas cabais do racismo institucional atuando de forma alarmante contra o avanço da população negra do Brasil, segundo o IPEA em 2014 a taxa de desemprego era de 5,3% entre homens brancos e 6,6% entre homens negros. Avaliando somente mulheres, a taxa de desemprego das brancas é de 9,2% enquanto das mulheres negras chega a 12%, encontramos assim uma diferença ainda mais assustadora. Quando não fazem parte das estatísticas do desemprego a realidade de remuneração da população encontra uma outra forma de demonstrar que a equidade salarial no nosso país está longe de ser alcançada, a renda média da população negra no geral é de R$921,18 que está abaixo da média nacional que é de R$1.222,90 enquanto a média salarial das pessoas brancas é de R$1.607,76 ou seja, acima da média nacional (dados de 2014).
Estas são algumas informações coletadas em pesquisas para outros fins ao longo deste ano mas que podem ser aprofundadas e constataremos de o quanto é fantasioso pregar o discurso de meritocracia em território brasileiro. Nenhum brasileiro que vive hoje é culpado da escravidão mas é preciso que o conhecimento abra os olhos destas pessoas que insistem em reproduzir esse discurso desonesto e os faça enxergar que os privilégios usufruídos ao longo de mais de 500 anos de história é que definem quem hoje tem ou não tem lugar ao sol na nossa sociedade. 
Ao longo do post, existem alguns links que demonstram os dados e podem escurecer ainda mais as questões para vocês! Abraços a todos e até o próximo post.

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