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domingo, 18 de março de 2018

CINCO DICAS PARA PASSAR PELA TRANSIÇÃO CAPILAR

março 18, 2018 0
CINCO DICAS PARA PASSAR PELA TRANSIÇÃO CAPILAR
A transição capilar não é só estética, mas, também uma mudança política e de pensamento, a mudança por fora costuma apenas refletir mudanças que já estão amadurecidas dentro de cada uma de nós. Assumir os cabelos naturais, principalmente para mulheres negras e crespas, tem o peso de carregarmos em nossas cabeças um tipo de cabelo que ainda não é tão aceito pela sociedade. Tudo isto pode tornar a transição capilar um pouco mais difícil do que já é, mas, as dicas de hoje tão te ajudar a minimizar isto.

1 - GEL PARA TEXTURIZAÇÃO CAPILAR é um santo aliado para a transição capilar. Os cabelos ainda estão "meio a meio" quando o assunto é forma, meio alisado e meio (ou menos que a metade) de textura natural, o gel ajuda a dar uma forma mais ou menos parecida para as duas partes. É importante garantir mais dias de cabelo "arrumado", para facilitar a vida e também tirar de uma vez por toda essa impressão de que assumir o cabelo natural "dá trabalho". 

2 - ÓLEO DE RÍCINO (OU QUALQUER ÓLEO 100% VEGETAL) para ajudar a fortalecer os cabelos. Uma reclamação constante das crespas e cacheadas em transição é a queda "absurda" dos cabelos. Geralmente a queda ocorre devido à quebra (mas, na dúvida não deixe de consultar seu dermatologista) exatamente na parte que une o cabelo natural ao alisado e é preciso fortalecer esta ligação, que vai deixando as pontas mais ralinhas

3 - GRAMPOS são um coringa durante a transição, servem para penteados, texturizações, esconder aquelas partes quebradinhas na frente ou os novos cabelinhos em partes que antes não existiam por conta da química. Texturização dos fios é sempre uma alternativa mais interessante do que a escova e chapinha, por exemplo.

4 - CORTES DE CABELO REGULARMENTE são a única coisa que tiram química dos cabelos, não existe milagre. Programe tirar as pontinhas sempre que possível para manter a aparência de saudável e no mínimo o cabelo com o comprimento regular. Não precisa cortar todo o cabelo alisado de uma única vez, isto pode ser feito aos poucos e no seu tempo.

5 - BANDANA É UM ÓTIMO ACESSÓRIO, porque com ela você pode fazer MIL PENTEADOS DIFERENTES, além de ser útil para proteger os cabelos texturizados na hora de dormir, por ser de um material fino, evita que os cabelos embolem ou desmanchem, garantindo mais dias com a texturização intacta e, consequentemente, menos "trabalho" com o cabelo em transição capilar. 

BÔNUS!
Tranças sintéticas podem ser uma ótima alternativa para passar pela transição, de maneira simples e prática é possível mudar o visual, sozinha ou com o trabalho de uma trancista profissional. Tem vídeo no canal ensinando a trançar o próprio cabelo. Confira:


sábado, 27 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO MEU CABELO - LÍVIA TEODORO

janeiro 27, 2018 1

Passei três anos com o cabelo no mesmo comprimento. Ele crescia na raiz e quebrava nas pontas, era fraco por conta das químicas e da falta de cuidados, já que dentro da minha cabecinha oca, escova progressiva já poderia ser considerado um "tratamento", ou pelo menos era o que a minha cabeleireira me dizia. Não era permitido pintar e muito menos descolorir os cabelos, as químicas não eram compatíveis. Nesta época, a cada vez que eu penteava os cabelos era um bolo de "toquinhos" grudados nas costas e caídos no chão, sempre na hora de pentear os cabelos precisava me proteger para não sair de casa completamente coberta de cabelinhos quebrados. Nunca fui a pessoa mais cuidadosa do mundo com meus cabelos, mas, o fato de eu fazer relaxamento todo mês e progressiva a cada três meses, prejudicava demais o desenvolvimento do meu cabelo.

Megahair - 2011
Com o cabelo muito fraco e quebrado em 2011 eu coloquei aplique. Era a solução, já que supostamente o meu cabelo não crescia nunca e naturalmente ele jamais chegaria ao tamanho que eu desejava. Aí então investi num megahair que me consumia física e financeiramente. Usei o aplique por, mais ou menos, dois anos e só tirei após o nascimento do meu filho, porque eu não tinha três coisas fundamentais para manter um aplique: tempo, dinheiro e paciência para cuidar! Quando tirei estava novamente quase ficando careca, resultado de muito tempo sem realizar a manutenção necessária, meus cabelos estavam virando um ninho, literalmente! Foi preciso muita paciência e muito tato para tirar aquilo do meu cabelo.

Tirei o megahair em outubro de 2012 e, adivinha? Alisei novamente! 

Eu simplesmente não conseguia ficar com o meu cabelo "duro" nascendo e eu sem saber o que fazer. Tinha na minha cabeça essa ideia falsa de que é mais fácil cuidar e que dá menos trabalho, então, lá fui novamente fazer relaxamento/escova todo santo final de semana, com a justificativa de me sentir mais bonita (e embora não estivesse, eu realmente me sentia bonita daquele jeito). Fazia parte da turma que escovava cabelo numa quinta-feira e só voltava a lavar na próxima quarta-feira (eca!) para "conservar" a escova, porque "haja dinheiro", não é mesmo? Durante algum tempo trabalhei em um salão de beleza, aí não tinha desculpas para não cuidar do cabelo, nesta época ele estava realmente muito bem cuidado, mas ainda assim não era "meu", era uma falsa ideia de liberdade, misturada a uma necessidade física de me encaixar num determinado padrão.

Sim, eu era uma pessoa instável e indecisa, em outubro de 2013, voltei a usar megahair porque eu não conseguia me "sentir bonita" só com aquele cabelo curtinho. Já não bastasse a imposição de ter um cabelo "bom para ser aceita" inventaram também o "cabelo grande" para passar boa impressão. E lá fui eu novamente me transformar para agradar a sociedade. Desta vez, decidi usar um aplique cacheado e algumas vezes, fazia texturização nele e no meu cabelo, para ficar ainda mais enroladinho. Depois de algum tempo nesta rotina, me perguntei: "Se Deus me deu um cabelo "cacheado", lindo, porque eu estou pagando rios de dinheiro para pendurar um aplique cacheado? Qual o meu problema?" Decidi então parar com o alisamento e naquele momento resolvi que dali em diante faria apenas um "relaxamentozinho-levinho-para-dar-uma-abaixadinha-na-raiz" (o que muitas meninas acreditam ser a solução).

Big Chop - 2014

Quando entrei em transição estava decidida a ficar um ano neste processo para só então cortar o cabelo alisado e assumir o natural ou "assumir um cabelo cacheado com relaxamento" que era o que, naquela época, importava muito para mim. Mas os planos mudaram quando eu comecei a ler e pesquisar sobre o assunto, entender o que realmente significava entrar em transição e assumir o cabelo CRESPO, porque o meu cabelo não é cacheado, é crespo.

Contei um pouco da minha "TRANSIÇÃO POLÍTICA" aqui no blog e em vídeo no canal, foi fundamental me entregar as leituras e pesquisas, para entender que se assumir é muito um processo de dentro para. Em fevereiro de 2014 eu fiz o big chop (grande corte = retirar toda a parte com química nos cabelos, em um único corte), soltei os meus cabelos crespos para afrontar o mundo. 

Por um tempo estive crespa, natural, loira, bem feliz com o meu visual e meu interior. Aprendi que os padrões da sociedade atual não foram feitos para mim e que definitivamente eu não preciso me encaixar neles para ser feliz. Assumir um cabelo natural traz bônus, mas também traz ônus, quando você passa a ter consciência racial e consciência da sua negritude, com certeza o que antes você não percebia passa a ser mais evidente e mais doloroso! Mas vamos levando e vamos afrontando, porque o importante mesmo é não desanimar, não murmurar e ter muita, mas muita coragem de se assumir!


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

LINHA TRANSIÇÃO CAPILAR - MIMOS RECEBIDOS DA FINA FLOR

novembro 21, 2016 0
A Fina Flor resolveu atender à uma parte do mercado que nunca foi pensada exclusivamente: as meninas em transição capilar!

LINHA TRANSIÇÃO CAPILAR - MIMOS RECEBIDOS DA FINA FLOR
Muitas de nós viveu anos alisando o cabelo para nos encaixarmos num padrão "europeu de beleza". Chega uma hora que bate aquela vontade com muita coragem, de se livrar das amarras e libertar nossos cabelos naturais, uma fase temida por muitas e sofrida por quase todas: a transição capilar. 
A transição começa de dentro para fora, não é para se encaixar em uma "moda" ou apenas "mudar o visual", a transição capilar para nós, mulheres negras, é um período de resistência e autoconhecimento, é hora de testar os seus limites, acreditar em si, aprender a lidar com as críticas, ignorar os comentários maldosos, rebater as falas racistas... Em resumo: é difícil demais!
E foi pensando em  toda estas dificuldades que nós passamos, que a Fina Flor Cosméticos resolveu lançar a linha TRANSIÇÃO CAPILAR. São oito produtos pensados especialmente para atender à necessidade do cabelo que está crescendo mas também, manter bem cuidado o cabelo alisado e que você ainda não está pensando em fazer o grande corte (big chop). A linha é TODA LIBERADA pra no e low poo, isto mesmo, inclusive o condicionador é indicado para co-wash.
Estes são os produtos da linha transição:
SHAMPOO SEM SULFATOS com agentes limpantes suaves e ativos que prometem nutrir o couro cabeludo, fortalecer os fios naturais, os alisados/relaxados e estimular o crescimento saudável dos cabelos. O shampoo contém Aloe Vera (que a conhecemos como "babosa"), Chá verde, é rico em Vitamina E, antioxidantes, cafeína e Trehalose, este último é um ativo que evita a degradação de ácidos graxos, ou falando em bom português, evita aquele cheirinho de suor do couro cabeludo, ótimo também para as meninas dos dreads e tranças (em transição ou não) que não ficam lavando cabelo toda semana.
CONDICIONADOR SEM PETROLATOS, PARAFINA, PARABENOS, todinho liberado! E para garantir a nutrição sem nenhum tipo de silicone, a empresa investiu na manteiga de murumuru (já tem post aqui no blog falando dos benefícios desta maravilha), que garante cabelos nutridos sem engordurar.
MÁSCARA BASE, para evitar aquele monte de máscaras na sua prateleira! Sozinha ele tem alto poder de hidratação, pois conta também com a manteiga de murumuru na sua composição, mas também pode ser acrescida dos três
ADITIVOS PARA O CRONOGRAMA CAPILAR, para hidratação, nutrição e reconstrução. O aditivo de hidratação é rico em Vitamina B5, a mesma do Bepantol que anda com o precinho bem salgado. O aditivo de nutrição é a minha atual paixão, contém cinco óleos que meu cabelo ama: Óleo de Macadâmia, Óleo de Argan, Óleo de Coco, Óleo de Abacate, Óleo de Linhaça e Óleo de Girassol. E por último o aditivo de reconstrução, que promete reparar os danos na estrutura capilar, minimizando os pontos de quebra e promovendo a força. Neste aditivo, assim como no condicionador, existe um ativo chamado "Nano Sericin", que também falando em bom português para nós leigas, é uma espécie de "cimento" que vai atuar se ligando à queratina do cabelo para uniformizar a textura, uma espécie de "preenchimento" às arestas que o cabelo em transição costuma apresentar. 
CREME DE PENTEAR que garante fixação sem silicone? É o que a marca promete! Ação antifrizz e um creme mais "encorpado" sem ser pesado que funciona até para fitagem ou texturização, também é todo liberado pra no e low poo.
SPRAY DIA SEGUINTE é uma das propostas bacanas da marca, não "estrangeirizar" os termos em suas linhas. O spray para o dia seguinte veio para acabar de vez com uma das rotinas que mais me causava preguiça na transição capilar: molhar os cabelos todos os dias. É um líquido bem fluído que já vem em um borrifador e é ideal para ajeitar o cabelo no dia seguinte, sem fazer lambança ou desmanchar os cachos.
No vídeo de hoje lá no canal, estou mostrando todas as embalagens (lindas), falando de quantidade e mais detalhes sobre a linha. Não deixe de assistir!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PARA QUE SERVE A HIERARQUIZAÇÃO DAS TEXTURAS CAPILARES

fevereiro 01, 2016 5

Precisamos falar sobre isso, falar muito, falar sempre e até a exaustão para que as pessoas naturalizem e aceitem a diversidade dos cabelos crespos, afinal, nem só de cachos comportados vive o conceito de beleza (ou pelo menos não deveria). Cabelos crespos e cabelos cacheados tem suas diferenças, não podemos ignorar isto mas também não podemos permitir que isto continue sendo "escala de beleza".
Quando comecei a minha transição eu tinha uma vaga lembrança de como eram os meus cabelos naturais, bem vaga mesmo afinal foram mais de 10 anos sob químicas de transformação e não fazia ideia da real cara do meu cabelo natural, mas lá fui eu me aventurar nos grupos de "cacheadas em transição" para descobrir a tal "tabela de tipos de cabelo", como eu sou bem lerda para estas coisas (e continuo, ainda não identifico meu cabelo naquela lista) resolvi pesquisar e ver se conseguia finalmente entender onde eu me encaixava. A primeira coisa que descobri foi que a origem desta classificação é americana ou seja, é bem difícil uma mulher brasileira se encaixar 100% em uma  tabela dessas afinal temos uma genética diferente não é? Então pode ser que você nunca encontre o seu tipo de cabelo naquelas tabelinhas  a não ser que criem uma para as mulheres cacheadas e crespas brasileiras (se já criaram, me avisem) com toda a nossa diversidade, acredito que vão surgir mais uns dez tipos diferentes dentre estas classificações famosas que já existem.
O segundo ponto que reduz a importância destas tabelas é que poucas pessoas tem o cabelo completamente uniforme, minha amiga Vivi Olly do Blog Blackacheadas é uma das poucas pessoas que conheço com o cabelo todo de um tipo só (lindo por sinal), pelo menos visivelmente falando a textura do cabelo dela é completamente uniforme (tipo lindo) mas isso é raro de acontecer, todas nós temos vários tipos de cabelos na mesma cabeça o que pode gerar uma confusão danada, na hora de ficar procurando em qual tipo você se encaixa.
E por fim o que considero mais perigoso nesta perseguição por classificar cabelos, enquadrar essas mulheres em algum rótulo é a glamourização de algumas e a marginalização de outras, os rótulos tem servido atualmente para dizer quem é "padrão fifa" e quem não é no mundo das cacheadas. Isso não é legal, sair do padrão alisado para entrar em outro padrão de "beleza" não é bacana e mais, produtos para cabelos crespos e cacheados são mais "tentativa e erro" do que qualquer outra coisa portanto dizer que essas tabelas servem para ajudar nos cuidados é furada já que cabelos crespos exigem a mesma dedicação aos cuidados sendo tipo 3 ou quatro, com produtos diferentes como qualquer outro cabelo. Ter um cabelo considerado tipo 4 não diz nada sobre o que você deve usar ou quantas vezes por semana você deve tratar por exemplo!
Cabelo crespo é identidade portanto não se preocupe em caber em quaisquer letras destas tabelas porque nenhuma delas vai contemplar as especificidades do seu cabelo. Não se preocupe com qual tipo o seu cabelo é só tenha consciência de que O SEU CABELO é o tipo mais lindo de todos!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A AUTOESTIMA NA TRANSIÇÃO: COMO LIDAR?

novembro 25, 2015 0


Talvez este seja um dos períodos mais difíceis na vida de uma mulher crespa. É aquela fase "nem-lá-nem-cá" em que você atrai olhares dos mais (in)discretos e perguntas dos mais abusados, desde "não vai pentear esse cabelo?" até "você vai deixar duro mesmo?". Pois é, aí vem a principal questão: será que é possível se sentir bonita por fora em meio a tantos bombardeios da sociedade? Vou tentar responder isto neste post!

Este post não tem uma fórmula mágica que lhe deixará linda ao final da leitura ok? Mas tem a história de tirar o fôlego de mulher negra e com certeza a fórmula surgirá em você. Vamos lá!

Gosto é construção social assim como o senso estético logo, eu posso achar uma mulher em transição linda mesmo com o cabelo "meio liso meio crespo" porque a minha vivência me permite entender aquele período e enxergar a beleza dela encaixada em um novo "padrão". Isso quer dizer que quando alguém disser que você não está bonita "desse jeito" só significa que você não está dentro do padrão que aquela pessoa foi ensinada a achar bonito. Mas o padrão dela não é a regra e você não é obrigada a se adequar.
Nós vivemos em uma sociedade com valores racistas e culturalmente opressora de mulheres, o que faz deixar óbvio que nós mulheres negras tendemos a ser ainda mais massacradas quando somos o centro da questão. Os corpos femininos são historicamente controlados para atender o padrão eurocêntrico de beleza, além do ladrão de magreza, o comportamental e etc... Pensem no quanto é considerado transgressor uma (primeiro) mulher, (segundo) negra romper com as barreiras e se recusar a continuar cumprindo as exigências para ser aceita? Com uma sociedade que valoriza tanto a "beleza" como cartão de visitas não é espanto nenhum tentarem reduzir a sua beleza para lhe controlar novamente.



Você é linda por menos que se sinta e cabelo é só cabelo, a transição é um período que nos faz perder qualquer apego a essa parte do corpo, mesmo que de forma forçada. Logo logo quando você sair do olho do furacão vai conseguir entender que o cabelo não é e nunca será "carteirinha de ser mulher". Mais uma vez, é tudo construção social, quantas vezes você ouviu que "mulher de cabelo curto não é feminina" ou "os cabelos são a moldura do rosto"? Pois bem, isso é mais uma forma da sociedade poder dizer quem ela aceita, quem ela não aceita. Seus cabelos vão dizer sobre você exatamente o que você quiser que eles digam simplesmente porque você é dona do seu corpo e a mensagem que ele transmite é sua responsabilidade (o que as pessoas interpretam é que faz parte da vivência delas) portanto, cabelo curto não te faz mais isso ou menos aquilo.


A querida Betina Câmara nos deu a honra de conhecer sua história da transição (e como este post demorou um tempinho para sair, a lindeza da Betina já fez o BC):



Sobre ter molinhas...
Esse texto é mais do que sobre moda, estilo, cabelo...
É sobre o auto amor que o preconceito ensina aos fortes...
Nasci fruto de um casamento sem amor verdadeiro num dia frio de setembro de 1983 numa cidadezinha do interior do RS.
Cresci percebendo que minha mãe não era feliz e inconscientemente, fazendo de tudo para deixar a vida dela mais fácil. Meus pais se separaram em fevereiro de 92 e o que era extraoficial virou oficial: virei a filha única de uma mulher só. Minha mãe foi morar comigo numa peça úmida e sem banheiro, meu pai sumiu no mundo e nos deixou com uma geladeira com a porta caindo e uma televisão velha.


Bom, minha mãe ficou com a única escolha a qual parece que querem nos convencer: que nós mulheres negras temos, ser fortes. E foi. Trabalhou muito, pegava dois ônibus pra ir e dois pra voltar do trabalho, eu apresentei sintomas do que seria minha primeira crise depressiva nessa época, ela se virava para lidar também com isso e digamos que superamos...
Fui a adolescente gordinha e única negra da classe por todo o colegial, sofri todo tipo de preconceito até por parte das ‘’amigas’’. Engordei muito, chorava escondido, era ridicularizada por membros da minha família (sou até hoje o patinho feio, a prima pobre da minha família) e enfrentava tudo isso com humor. Isso mesmo, eu era a piadista da turma! Não namorava, ninguém queria ficar comigo e ironicamente, era a mim que as amigas procuravam quando precisavam de conselhos amorosos...
Cresci teimando em ser forte (como minha mãe fazia e dizia que eu TINHA de fazer também) e essa fortaleza me levou a me formar na faculdade, procurar um bom cargo e assim pensava eu, finalmente ser feliz. Não foi o que aconteceu.
Eu trabalhava 14 horas por dia, vivia exausta, ainda chorava muito escondido e me metia em situações em que eu me auto desempoderava. Eu sempre acreditei que se alguém insistia em errar o passo sempre no mesmo lugar, era porque essa caminhada estava errada e em meados de 2013 resolvi me auto curar, conheci o reiki e retomei meus estudos com os oráculos que eu tinha iniciado na adolescência. Eu já havia excursionado por diversas religiões, em todas eu questionava muita coisa e minha tendência a ser forte fazia com que eu não aceitasse "cabresto". Foi nesse momento que resolvi agarrar as rédeas de minha vida e me auto conhecer. Minha coragem assustou muita gente que quis me derrubar, tropecei um bocado, mas aprendi a me amar e me aceitar.
Foi aí quando me amei que percebi todas as vezes que sofri preconceito, todas as vezes que fui preterida por causa da minha cor, todas as vezes que me desempoderei fazendo "graça pro diabo rir", foi ai que conheci e comecei a estudar o tema da solidão da mulher negra, que eu já sentia na pele desde sempre mas não reconhecia como sendo uma mazela social e sim como algo que fosse errado comigo ou o fato de eu não ser boa o suficiente...
Eu já estava há quase um ano sem conseguir alisar o cabelo logo que comecei meu processo de autoconhecimento, simplesmente não conseguia e hoje entendo que era meu “Eu superior” querendo me mostrar a beleza de minha verdade, que eu estava prestes a descobrir. No meu processo, deixar meu cabelo natural tem a ver com auto amor, individuação, autorrespeito.
As pessoas me perguntam se foi/é difícil minha transição e eu respondo sinceramente


que não: difícil é se olhar no espelho e não se identificar, não aceitar como o "certo", tentar achar alguém que te represente na mídia e não encontrar, difícil é não respeitar seu processo, sua verdade, sua identidade e sua raiz! Complicado mesmo é tentar achar fora o que só existe em você, entender que o preconceito do outro é dele e não pode, não deve te tirar a vontade de viver. Impossível é sobreviver como se nossa única opção fosse ser forte...
Hoje vibro com cada cachinho, minhas hidratações são momentos lindos de reflexão comigo mesma, sinto uma liberdade que nunca havia experimentado e encontrei em mim, na minha espiritualidade, na verdade do meu cabelo a paz, a alegria e a completude que procurei em tantas partes... Mudei de carreira profissional, atualmente sou terapeuta holística (trabalho com tarô e florais), estudo psicologia transpessoal e assumi como minha missão nessa jornada que as pessoas honrem e respeitem toda a luz e amor que há na sua individualidade perfeitamente imperfeita.
Creio que o segredo seja entender, compreender e perceber que somos uma partícula de um Ser maior que ama nossas "molinhas" no cabelo, nossa pele chocolate e a força que há no coração de quem já sofreu um dia... De coração desejo que ser forte não seja nossa única opção e que nossa verdade prevaleça e seja respeitada... Amor,alegria e muito Axé para todos! Betina Câmara.


Quando bate aquela bad, que sempre vai bater em algum momento da transição o mais indicado é você tentar se lembrar o motivo que te trouxe até aqui. Já falei aqui no blog que transição é um ato politico se lembram? É um afrontamento a sociedade e principalmente não é só uma questão estética, tente se lembrar então de todo o caminho que lhe trouxe a decidir pela liberdade e eu tenho certeza que a felicidade interior vai se refletir no seu exterior!

Isso tudo para dizer que dá sim para se sentir bonita na transição ou fora dela, todas nós temos aqueles momentos em que a autoestima balança um pouco mas vamos focar no objetivo e as coisas tendem a melhorar!
Ah, caso queiram conhecer melhor o trabalho da Betina, esta AQUI é a página profissional dela, só curtir e acompanhar!

Espero que esse post ajude a empoderar ainda mais as mulheres. Abraços e até a próxima.

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