sábado, 27 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO MEU CABELO - LÍVIA TEODORO


Passei três anos com o cabelo no mesmo comprimento. Ele crescia na raiz e quebrava nas pontas, era fraco por conta das químicas e da falta de cuidados, já que dentro da minha cabecinha oca, escova progressiva já poderia ser considerado um "tratamento", ou pelo menos era o que a minha cabeleireira me dizia. Não era permitido pintar e muito menos descolorir os cabelos, as químicas não eram compatíveis. Nesta época, a cada vez que eu penteava os cabelos era um bolo de "toquinhos" grudados nas costas e caídos no chão, sempre na hora de pentear os cabelos precisava me proteger para não sair de casa completamente coberta de cabelinhos quebrados. Nunca fui a pessoa mais cuidadosa do mundo com meus cabelos, mas, o fato de eu fazer relaxamento todo mês e progressiva a cada três meses, prejudicava demais o desenvolvimento do meu cabelo.

Megahair - 2011
Com o cabelo muito fraco e quebrado em 2011 eu coloquei aplique. Era a solução, já que supostamente o meu cabelo não crescia nunca e naturalmente ele jamais chegaria ao tamanho que eu desejava. Aí então investi num megahair que me consumia física e financeiramente. Usei o aplique por, mais ou menos, dois anos e só tirei após o nascimento do meu filho, porque eu não tinha três coisas fundamentais para manter um aplique: tempo, dinheiro e paciência para cuidar! Quando tirei estava novamente quase ficando careca, resultado de muito tempo sem realizar a manutenção necessária, meus cabelos estavam virando um ninho, literalmente! Foi preciso muita paciência e muito tato para tirar aquilo do meu cabelo.

Tirei o megahair em outubro de 2012 e, adivinha? Alisei novamente! 

Eu simplesmente não conseguia ficar com o meu cabelo "duro" nascendo e eu sem saber o que fazer. Tinha na minha cabeça essa ideia falsa de que é mais fácil cuidar e que dá menos trabalho, então, lá fui novamente fazer relaxamento/escova todo santo final de semana, com a justificativa de me sentir mais bonita (e embora não estivesse, eu realmente me sentia bonita daquele jeito). Fazia parte da turma que escovava cabelo numa quinta-feira e só voltava a lavar na próxima quarta-feira (eca!) para "conservar" a escova, porque "haja dinheiro", não é mesmo? Durante algum tempo trabalhei em um salão de beleza, aí não tinha desculpas para não cuidar do cabelo, nesta época ele estava realmente muito bem cuidado, mas ainda assim não era "meu", era uma falsa ideia de liberdade, misturada a uma necessidade física de me encaixar num determinado padrão.

Sim, eu era uma pessoa instável e indecisa, em outubro de 2013, voltei a usar megahair porque eu não conseguia me "sentir bonita" só com aquele cabelo curtinho. Já não bastasse a imposição de ter um cabelo "bom para ser aceita" inventaram também o "cabelo grande" para passar boa impressão. E lá fui eu novamente me transformar para agradar a sociedade. Desta vez, decidi usar um aplique cacheado e algumas vezes, fazia texturização nele e no meu cabelo, para ficar ainda mais enroladinho. Depois de algum tempo nesta rotina, me perguntei: "Se Deus me deu um cabelo "cacheado", lindo, porque eu estou pagando rios de dinheiro para pendurar um aplique cacheado? Qual o meu problema?" Decidi então parar com o alisamento e naquele momento resolvi que dali em diante faria apenas um "relaxamentozinho-levinho-para-dar-uma-abaixadinha-na-raiz" (o que muitas meninas acreditam ser a solução).

Big Chop - 2014

Quando entrei em transição estava decidida a ficar um ano neste processo para só então cortar o cabelo alisado e assumir o natural ou "assumir um cabelo cacheado com relaxamento" que era o que, naquela época, importava muito para mim. Mas os planos mudaram quando eu comecei a ler e pesquisar sobre o assunto, entender o que realmente significava entrar em transição e assumir o cabelo CRESPO, porque o meu cabelo não é cacheado, é crespo.

Contei um pouco da minha "TRANSIÇÃO POLÍTICA" aqui no blog e em vídeo no canal, foi fundamental me entregar as leituras e pesquisas, para entender que se assumir é muito um processo de dentro para. Em fevereiro de 2014 eu fiz o big chop (grande corte = retirar toda a parte com química nos cabelos, em um único corte), soltei os meus cabelos crespos para afrontar o mundo. 

Por um tempo estive crespa, natural, loira, bem feliz com o meu visual e meu interior. Aprendi que os padrões da sociedade atual não foram feitos para mim e que definitivamente eu não preciso me encaixar neles para ser feliz. Assumir um cabelo natural traz bônus, mas também traz ônus, quando você passa a ter consciência racial e consciência da sua negritude, com certeza o que antes você não percebia passa a ser mais evidente e mais doloroso! Mas vamos levando e vamos afrontando, porque o importante mesmo é não desanimar, não murmurar e ter muita, mas muita coragem de se assumir!


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