sexta-feira, 8 de novembro de 2019

SANKOFA: É SEMPRE POSSÍVEL VOLTAR AO PASSADO PARA RESSIGNIFICAR O PRESENTE

novembro 08, 2019 0
Resenha crítica apresentada ao curso de Literatura Afro Brasileira - Literafro, da formação transversal em Relações Étnico-raciais e História da África e Cultura Afro-brasileira¹.

Imagem de Pexels por Pixabay

Eduardo Assis Duarte graduou-se em Letras pela UFMG em 1973, é mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro e doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela USP desde 1991. Aposentado desde 2005, mantém vínculo voluntário com a UFMG, atuando como professor colaborador do Programa de Pós-graduação em Letras. Participa do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade - NEIA e coordena o Literafro Portal da Literatura Afro-brasileira.
O artigo Margens da história: a revisitação do passado na ficção afro-brasileira, que foi publicado em 2015 e hoje encontra-se disponível no portal Literafro, trata sobre a característica de discurso sociológico do romance afro-brasileiro, pensando na perspectiva política na qual estes autores estão inseridos.
A escrita literária afro-brasileira, ou mais recentemente “negro-brasileira”, é marcada pelo resgate de um passado que, para uma certa camada da nossa sociedade, já passou de fato. Mas que para aqueles que identificam o local da sua escrita como literatura negro-brasileira, esse passado ainda precisa ser discutido, revisitado e rememorado para ter uma espécie de solução ou o mais próximo disto. Este local da escrita da literatura afro-brasileira é também outro marcador importante na tarefa de descartar o mito da imparcialidade de quem escreve. Mito este que é geralmente invocado sob a justificativa - parcial - de que estas são questões identitárias, no entanto, Duarte fala da importância de debater estas questões, e é quando o romance ganha um viés de “documento sociológico” (Jean-Yves Mérian - 2000). 
A memória é usada na literatura tanto como chave de leitura do público que encara esta obra, como na composição dos personagens e as narrativas de suas histórias. Memórias coletivas do povo são levadas em consideração 
"O texto de Nei Lopes mescla falas e tempos distintos, num dialogismo entre passado e presente que dá ao conto ares de crônica histórica inusitada e plural."
A memória traumática de uma escravidão ainda que não vivenciada diretamente mas sentida graças aos elos atemporais que são construídos com seus semelhantes, o tal eu mais amplo (DUARTE, 2019) é uma construção que muitas vezes se dá através da escola e colegas de turma, desde a infância até adultos.
"À memória traumática da escravização acrescenta-se a da leitura enviesada produzida pelo discurso pedagógico, que faz da escola aparelho ideológico disseminador do racismo."
Este reconhecimento do seu semelhante na memória também é debatido pela autora Vilma Piedade em sua obra, Dororidade. Falando especificamente do Feminismo Negro a autora, fazendo uma referência a Sororidade, traz a discussão sobre como mulheres negras se reconhecem e se solidarizam a partir da dor. 
Memórias de crueldade que estariam relegadas ao esquecimento ganham registros e forma, a partir da voz do lado “vencido” da história
"O texto se faz ainda com o depoimento dos pretos velhos, tornado causo e lembrado pelos mais jovens. Nestes momentos o tom sobe e a crueldade do passado aflora sem meias palavras."
Desta forma a história oral, que acaba não resistindo muito ao tempo, devido as suas limitações intrínsecas, acaba ganhando um registro bastante duradouro dentro destes romances históricos.
O autor também procura demonstrar as consequências de séculos de exploração, escravidão, racismo e violências várias, 
"Suas atitudes resultam de um passado que não se restringe à individualidade. Remontam ao processo que atinge corpo e identidade negros submetidos ao rebaixamento histórico que os exclui dos padrões de beleza oriundos da branquitude."
Para Duarte a literatura afro-brasileira contribui para a humanização e a fuga dos estereótipos do negro, 
"O tom anti-laudatório propicia, por outro lado, a recusa ao discurso da vitimização pura e simples do negro."
E demonstra que o que houve na verdade foi a desumanização de um sistema e não dos sujeitos que, embora violentados, continuavam sendo seres humanos, com seus defeitos e qualidades, seu lado bom e lado ruim, como todo ser social. Não ficando condicionados ao lugar de monstros, vítimas ou infans. 
Estes são romances que ambientam e humanizam favelas, ocupações, morros, senzalas e espaços marginais da sociedade que são majoritariamente ocupados por pessoas negras, além de ser também um espaço para que aqueles que professam religião de matriz africana possam falar de sua fé sem estarem rodeados pelos estereótipos e sensacionalismos da escrita não-negra.
A literatura afro-brasileira é então um espaço político de afirmação, reafirmação, retorno e avanço ao mesmo tempo para os escritores que fazem parte desta comunidade, com um propósito real de resgate e registro de todos os aspectos que rodeiam a nossa população. 
Humanizar é tirar o véu da colonização, ao escrever suas próprias histórias e memórias históricas, o literato afro-brasileiro insere sua obra num local de resistência política há um apagamento sistêmico ou o “memoricídio” da história desta parte da população.


¹ In: SISCAR, Marcos; NATALI, Marcos (Org.). Margens da democracia: a literatura e a questão da
diferença. Campinas, SP / São Paulo, SP: Editora da Unicamp / Editora da USP, 2015, p. 167-189.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DUARTE, Eduardo Assis. Margens da história: A revisitação do passado na ficção afro-brasileira. 2019. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/151-eduardo-de-assis-duarte-margens-da-historia>. Acesso em: 05 out. 2019.

FANON, Frantz. Guerra colonial e distúrbios mentais. In: FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora Ufjf, 2015. Cap. 5. p. 285-358. Tradução de: Les damnés de la terre.

GONZALES, Lélia. RACISMO E SEXISMO NA CULTURA BRASILEIRA. Ciências Sociais Hoje: ANPOCS, São Paulo, v. 5, n. 8, p.223-244, nov. 1984. Anual. VII Encontro Anual da ANPOCS. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2019.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

"a solidão da mulher negra..." É UMA PAUTA QUE PRECISA SER SUPERADA LOGO

outubro 29, 2019 1

"A pauta da solidão da mulher negra precisa ser superada. Acho que já chegou a hora de unificar os movimentos..."

Imagem de TréVoy Kelly por Pixabay
Esta foi fala de um homem sobre o assunto dado momento numa aula de literatura afro brasileira. Aula esta em que se discutia a importância de marcar o lugar do negro dentro da literatura através da identidade "afro" de seus escritos e de como é fundamental lutar pela demonstração de um lugar bastante específico onde está localizada a literatura negra.

O curioso caso das pautas menos importantes, que devem ser sublimadas e superadas. E que coincidentemente afetam diretamente as mulheres pretas.

Esta não é a única pauta negra e feminina que é silenciada, mas cabe aqui pensar o quanto são tratadas como conversas de boteco – e estas também têm lá sua importância – as pautas da militância negra feminina. A nossa estética enquanto ato político, as nossas relações afetivas, os nossos corpos e vontades... Tudo ficando abaixo de uma lógica patriarcal e machista que considera menos importante pautas que para nós também são importantes.

Como já discutimos aqui, num dos posts mais lidos deste blog, A SOLIDÃO DA MULHER NEGRA NÃO É SÓ AFETIVA, no entanto existe também uma discussão fundamentada sobre esta solidão da mulher negra e sempre cito a dissertação da Claudete Alves da Silva, abrindo os caminhos (até onde sei) em 2008 na PUC SP. Esta discussão que tem sido cada dia mais aprofundada por mulheres negras é nossa episteme, é nossa produção intelectual sobre as mazelas que nos afetam. Acaso alguém pede para que deixemos de discutir as teorias de Michel Foucault sobre o corpo e a relação da sociedade com a punição, violência? Alguém tem dúvidas de que é preciso discutir e entender a necropolítica como uma política de estado existente? Não, absolutamente. Mas, aquilo que nos é caro pode ficar para depois?

"A mulher Negra precisa entender que ela pode ser feliz sem homem..."

Essa frase tem tantos problemas que é difícil saber de onde começar, mas, vamos lá, discutir ponto por ponto até que fique perceptível que a solidão da mulher negra não é falta de pau ou de homem!

A começar pelo problema da heteronormatividade desta ideia de que a mulher que reclama de solidão está necessariamente reclamando da falta de um parceiro do sexo masculino. Em primeiro lugar porque mulheres são diversas, inclusive nas suas condições sexuais e – graças a Deusa – muitas destas mulheres também amam outras mulheres. Tratar sobre a solidão da mulher negra não é sobre um discurso cristão culpabilizador de uma figura, neste caso o homem negro, da nossa solidão. Não mesmo, está bem longe disso.

Outro ponto levantado é que "não existe uma solidão específica da mulher negra, solidão é solidão". Esta é uma frase rasa e muito fácil de ser explicada, afinal, as mulheres não são todas iguais, nem mesmo as mulheres negras são todas iguais e juntar tudo no mesmo saco é invisibilizar pontos importantes para várias destas mulheres. Mulheres negras não são garrafas de coca cola e a gente precisa parar pensar que são. As várias vertentes do feminismo, para aquelas que são feministas, ou os vários outros grupos que unem mulheres em torno de causas são diversos e são várias pautas discutidas sempre, nossa solidão tem nome e sobrenome porque aprendemos depois de muita luta dar nome e voz aos nossos sentimentos.

Mulheres negras estão abandonadas pelo Estado, dizer isso é dizer que nós somos as que mais morremos por violência obstétrica, por exemplo. Maria do Carmo Leal, que coordenou a pesquisa Nascer Nas Prisões, em entrevista ao site do Instituto Fio Cruz fala do racismo explicito no sistema de saúde que leva a ter entre as mulheres negras o maior número de vítimas de violência obstétrica. 

Falta de insumos, medicamentos, profissionais desestimulados com a falta de condições mínimas para trabalhar, aliado ao aumento da pobreza das classes populares, todos juntos podem contribuir para o atraso (por falta de dinheiro) na chegada à maternidade e, uma vez dentro dos serviços de saúde pode se defrontar com dificuldades ou insuficiências para dar a resposta adequada. A Mortalidade Materna é maior em mulheres negras, as mais vulneráveis socialmente e essa é outra coisa inadmissível, que tenhamos discriminação expressa nos nossos indicadores de saúde. É triste estarmos assistindo o aumento da mortalidade materna, infantil, de queda nas coberturas de imunização e epidemias. Não podemos aceitar que depois de tantas conquistas, estejamos caminhando para trás” (leia a entrevista completa AQUI)

Isto é mais da solidão que falo aqui, a solidão que extrapola o campo afetivo, a solidão que mata. Mulheres negras tem sua saúde mental violentada constantemente, o racismo está aí – para homens e mulheres, é bem verdade – acompanhado do machismo para nos tirar do eixo diariamente. Lélia Gonzalez fala rapidamente em seu capítulo do livro "Lugar de Negro" sobre esta dificuldade daquela parcela masculina da militância de aceitar as mulheres, tão resolutivas quanto eles, discutindo sobre a sua solidão dentro do MNU. 

O que estamos debatendo enquanto coletivo é tudo pertinente. Se para Lélia Gonzalez toda pessoa negra deveria ser um centro de luta, porque respeitamos as pautas de uns centros e outros não? Quais os fatores fazem com que as pautas de mulheres negras sejam tão relativizadas pelos seus pares? Se estendermos isto para as mulheres negras que fazem parte da comunidade LBT o cenário piora, são vária opressões que se cruzam no gênero, raça e na orientação sexual destas mulheres.

Continuaremos discutindo e esmiuçando o assunto, primeiro porque teorias importantes estão sendo formuladas nestes campos e não se apaga a produção intelectual de mulheres pretas só porque alguém se cansou da pauta. E segundo, não menos importante, tudo que existe só existe porque tem um nome. Logo, marcar o local da mulher negra nesta discussão é importante para que, depois de visibilizada, a pauta continue gerando os incômodos necessários que levam a discussão do tema.

sábado, 14 de setembro de 2019

AS PALAVRAS DE MULHERES NEGRAS SÃO ATRAVESSADAS DE SILÊNCIO

setembro 14, 2019 0
Resenha crítica apresentada ao curso de Literatura Afro Brasileira - Literafro, da formação transversal em Relações Étnico-raciais e História da África e Cultura Afrobrasileira¹.
1 - Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França (Autoras Afrobrasileiras).

Moema Parente Augel possui graduação em Letras Neolatinas pela UFBA (1961), mestrado em Ciências Humanas também pela UFBA em 1974 e doutorado em Letras Vernáculas pela UFRJ em 2005, desde a sua formação esteve atuando principalmente com literatura e cultura guineenses, literatura afro-brasileira e literatura de viagem (séc. XIX). É professora aposentada, tendo lecionado Português e Cultura Brasileira nas Universidades de Bielefeld e Hamburgo ambas na Alemanha. O texto analisado nesta resenha foi publicado originalmente em 1996 e republicado pelo site Literafro.
Ao longo do artigo a autora recupera autoras negras que tem bastante marcadas em sua sua escrita características que Augel descreve como “próprias” da escrita de mulheres negras, tais como a busca pela autodefinição, contar sobre as próprias vivências, experiências, uma espécie de convocatória de outras pessoas negras para se pensar racialmente e também o convite aos não negros de refletirem sobre as dores de viver numa sociedade cuja cor da pele determina maior ou menor sofrimento social.

O falar sobre ser negra em todos os seus aspectos tais como a negritude, estética, lugar social, implicações de classe, traz junto da ação política disto a conscientização de tomar a atitude de reclamar este lugar e deixar de ser, portanto, a periferia de uma fala branca para tornar-se o centro da própria fala, neste caso através da literatura.

O silenciamento dos personagens negros significa também o aumento da repercussão da voz de sujeitos eurocêntricos que com seu discurso escondem o passado escravocrata brasileiro, bem como as violências físicas, psicológicas e epistêmicas praticadas contra o sujeito negro. O silenciamento seria portanto mais uma violência retroalimentando e mantendo outras que são praticadas contra a população afrobrasileira. Esta população que segundo Augel se revolta através da escrita, como demonstrado nas citações de três autoras com maior destaque por Augel.

A autora cita a produção Cadernos Negros como uma publicação que dá voz à escritores negros. É importante ressaltar que esta publicação pode repercutir a voz destes, que já têm voz própria (SPIVAK, 2014) e em forma de um coletivo autônomo fazem com que as suas vozes sejam reverberadas de maneira ampla entre aqueles que leem a publicação. Mas a voz já é destes indivíduos, primariamente, mesmo que inicialmente não conseguissem completar a dialética de falar e ser ouvido (SPIVAK, 2014). Para citar um exemplo contemporâneo de produções como o Cadernos Negros podemos lembrar da coleção Feminismo Plurais trazida pela filósofa Djamila Ribeiro, embora haja diferenças importantes, como por exemplo o tino totalmente comercial dado a coleção feita com recursos privados e suporte de uma editora formal. No caso dos Cadernos Negros Augel inclusive frisa o fato da produção ser totalmente financiada pelos próprios autores contidos em cada volume. 

O “eu” encontrado nas produções negras, para a autora, seria o eu poético que, segundo Stuart Hall é uma construção do século XIX em relação do mundo moderno, "um sujeito em relação com os outros" (AUGEL, 1996), o tal sujeito sociológico acrescido das emoções advindas da experiência de ser negro ou das memórias ancestrais carregadas pelos que descendem da origem africana. O eu poético é aquele que mistura identidade e individualidade com a sensação em relação ao externo, a sua coletividade.

Augel destrincha então trecho de obras de três autoras da literatura afro-brasileira, são elas: Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França. Cada uma com suas características e pontos de destaque são pensadas por Augel como representantes desta escrita feminina e negra. A escrita específica da mulher negra vem para confrontar certos estereótipos racistas que são impostos a este grupo social. Uma literatura marcada muitas vezes por denúncias, um dos temas destacados pela autora seria esta “dupla colonização”, ou seja, a opressão por gênero e raça sofrida por mulheres negras e sinalizada em suas produções. A escrita das mulheres negras seria então uma elaboração que reflete uma identidade marcada por raça e gênero, ao mesmo tempo, mas que também fala da vida cotidiana, de maternidade, sexualidade e assuntos que “normalizam” a existência negra.

O embranquecimento social é um risco que a pessoa negra corre ao tentar acessar ou ascender socialmente numa sociedade racista (FANON, 1952), para isto serve como ferramenta do racismo o auto silenciamento que acaba sendo local seguro para uma auto colonização. O sujeito negro procura reprimir suas características para caber num padrão branco que está dado automaticamente. Em especial risco estão as mulheres negras que para fugir do local hiperssexualizado no qual são colocadas, acabam assumindo este outro lugar onde são oprimidas e contidas. Como ferramenta de luta contra isto está o autorreconhecimento e a colocação as vezes forçada do “eu” negro em certos espaços como a literatura. Isto promove mudanças de estrutura nos indivíduos negros e na sociedade racista, o que Augel chama de mecanismo de descentramento (AUGEL, 1996). A literatura feita por mulheres negras acaba ocupando um espaço de construtora de uma autoestima coletivizada.

Recuperar estas autoras seria subverter a ordem da historiografia brasileira que coloca como cânone o que é masculino, branco e eurocêntrico. Quando são colocadas as figuras negras como “normais”, como é o caso da escrita de Geni Guimarães ou mesmo quando são colocadas como seres fantásticos e poderosos, como no romance de Aline França, ocorre um deslocamento do senso comum sobre o negro e isto é positivo para o coletivo. A literatura neste caso está sendo utilizada “como um instrumento de transformação de uma realidade que nega o direito à especificidade, enquanto indivíduo e enquanto coletivo” (AUGEL, 1996).

¹ Versão alargada do artigo: "Quando elas rompem o silêncio. Literatura feminina afro-brasileira”, in: Lusorama. Zeitschrift für Lusitanistik: Revista de Estudos sobre os países de Língua Portuguesa, Frankfurt, FFM, n°30, p. 5-25, jun.1996. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 19 ago. 2019.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 111 p. (Justificando).

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? 3. ed. Belo Horizonte: Ufmg, 2014. 174 p. Tradução de: Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa.

XAVIER, Giovana. Ciência, lugar de fala e mulheres negras na academia: A solução do problema brasileiro passa pela construção de novas epistemologias e pela necessidade de localizar o saber que se produz na ciência. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Ci%C3%AAncia-lugar-de-fala-e-mulheres-negras-na-academia>. Acesso em: 25 ago. 2018.

AUGEL, Moema Parente. “E Agora Falamos Nós”: Literatura Feminina Afro-Brasileira. 2018. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 04 set. 2019.

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. 193 p. Tradução e Revisão de Texto Renato da Silveira. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Frantz_Fanon_Pele_negra_mascaras_brancas.pdf>. Acesso em: 04 set. 2019

AS PALAVRAS DE MULHERES NEGRAS SÃO ATRAVESSADAS DE SILÊNCIO

setembro 14, 2019 0
Resenha crítica apresentada ao curso de Literatura Afro Brasileira - Literafro, da formação transversal em Relações Étnico-raciais e História da África e Cultura Afrobrasileira¹.
1 - Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França (Autoras Afrobrasileiras).

Moema Parente Augel possui graduação em Letras Neolatinas pela UFBA (1961), mestrado em Ciências Humanas também pela UFBA em 1974 e doutorado em Letras Vernáculas pela UFRJ em 2005, desde a sua formação esteve atuando principalmente com literatura e cultura guineenses, literatura afro-brasileira e literatura de viagem (séc. XIX). É professora aposentada, tendo lecionado Português e Cultura Brasileira nas Universidades de Bielefeld e Hamburgo ambas na Alemanha. O texto analisado nesta resenha foi publicado originalmente em 1996 e republicado pelo site Literafro.
Ao longo do artigo a autora recupera autoras negras que tem bastante marcadas em sua sua escrita características que Augel descreve como “próprias” da escrita de mulheres negras, tais como a busca pela autodefinição, contar sobre as próprias vivências, experiências, uma espécie de convocatória de outras pessoas negras para se pensar racialmente e também o convite aos não negros de refletirem sobre as dores de viver numa sociedade cuja cor da pele determina maior ou menor sofrimento social.

O falar sobre ser negra em todos os seus aspectos tais como a negritude, estética, lugar social, implicações de classe, traz junto da ação política disto a conscientização de tomar a atitude de reclamar este lugar e deixar de ser, portanto, a periferia de uma fala branca para tornar-se o centro da própria fala, neste caso através da literatura.

O silenciamento dos personagens negros significa também o aumento da repercussão da voz de sujeitos eurocêntricos que com seu discurso escondem o passado escravocrata brasileiro, bem como as violências físicas, psicológicas e epistêmicas praticadas contra o sujeito negro. O silenciamento seria portanto mais uma violência retroalimentando e mantendo outras que são praticadas contra a população afrobrasileira. Esta população que segundo Augel se revolta através da escrita, como demonstrado nas citações de três autoras com maior destaque por Augel.

A autora cita a produção Cadernos Negros como uma publicação que dá voz à escritores negros. É importante ressaltar que esta publicação pode repercutir a voz destes, que já têm voz própria (SPIVAK, 2014) e em forma de um coletivo autônomo fazem com que as suas vozes sejam reverberadas de maneira ampla entre aqueles que leem a publicação. Mas a voz já é destes indivíduos, primariamente, mesmo que inicialmente não conseguissem completar a dialética de falar e ser ouvido (SPIVAK, 2014). Para citar um exemplo contemporâneo de produções como o Cadernos Negros podemos lembrar da coleção Feminismo Plurais trazida pela filósofa Djamila Ribeiro, embora haja diferenças importantes, como por exemplo o tino totalmente comercial dado a coleção feita com recursos privados e suporte de uma editora formal. No caso dos Cadernos Negros Augel inclusive frisa o fato da produção ser totalmente financiada pelos próprios autores contidos em cada volume. 

O “eu” encontrado nas produções negras, para a autora, seria o eu poético que, segundo Stuart Hall é uma construção do século XIX em relação do mundo moderno, "um sujeito em relação com os outros" (AUGEL, 1996), o tal sujeito sociológico acrescido das emoções advindas da experiência de ser negro ou das memórias ancestrais carregadas pelos que descendem da origem africana. O eu poético é aquele que mistura identidade e individualidade com a sensação em relação ao externo, a sua coletividade.

Augel destrincha então trecho de obras de três autoras da literatura afro-brasileira, são elas: Míriam Alves, Geni Guimarães e Aline França. Cada uma com suas características e pontos de destaque são pensadas por Augel como representantes desta escrita feminina e negra. A escrita específica da mulher negra vem para confrontar certos estereótipos racistas que são impostos a este grupo social. Uma literatura marcada muitas vezes por denúncias, um dos temas destacados pela autora seria esta “dupla colonização”, ou seja, a opressão por gênero e raça sofrida por mulheres negras e sinalizada em suas produções. A escrita das mulheres negras seria então uma elaboração que reflete uma identidade marcada por raça e gênero, ao mesmo tempo, mas que também fala da vida cotidiana, de maternidade, sexualidade e assuntos que “normalizam” a existência negra.

O embranquecimento social é um risco que a pessoa negra corre ao tentar acessar ou ascender socialmente numa sociedade racista (FANON, 1952), para isto serve como ferramenta do racismo o auto silenciamento que acaba sendo local seguro para uma auto colonização. O sujeito negro procura reprimir suas características para caber num padrão branco que está dado automaticamente. Em especial risco estão as mulheres negras que para fugir do local hiperssexualizado no qual são colocadas, acabam assumindo este outro lugar onde são oprimidas e contidas. Como ferramenta de luta contra isto está o autorreconhecimento e a colocação as vezes forçada do “eu” negro em certos espaços como a literatura. Isto promove mudanças de estrutura nos indivíduos negros e na sociedade racista, o que Augel chama de mecanismo de descentramento (AUGEL, 1996). A literatura feita por mulheres negras acaba ocupando um espaço de construtora de uma autoestima coletivizada.

Recuperar estas autoras seria subverter a ordem da historiografia brasileira que coloca como cânone o que é masculino, branco e eurocêntrico. Quando são colocadas as figuras negras como “normais”, como é o caso da escrita de Geni Guimarães ou mesmo quando são colocadas como seres fantásticos e poderosos, como no romance de Aline França, ocorre um deslocamento do senso comum sobre o negro e isto é positivo para o coletivo. A literatura neste caso está sendo utilizada “como um instrumento de transformação de uma realidade que nega o direito à especificidade, enquanto indivíduo e enquanto coletivo” (AUGEL, 1996).

¹ Versão alargada do artigo: "Quando elas rompem o silêncio. Literatura feminina afro-brasileira”, in: Lusorama. Zeitschrift für Lusitanistik: Revista de Estudos sobre os países de Língua Portuguesa, Frankfurt, FFM, n°30, p. 5-25, jun.1996. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 19 ago. 2019.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 111 p. (Justificando).

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? 3. ed. Belo Horizonte: Ufmg, 2014. 174 p. Tradução de: Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa.

XAVIER, Giovana. Ciência, lugar de fala e mulheres negras na academia: A solução do problema brasileiro passa pela construção de novas epistemologias e pela necessidade de localizar o saber que se produz na ciência. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Ci%C3%AAncia-lugar-de-fala-e-mulheres-negras-na-academia>. Acesso em: 25 ago. 2018.

AUGEL, Moema Parente. “E Agora Falamos Nós”: Literatura Feminina Afro-Brasileira. 2018. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-conceituais/157-moema-parente-augel-e-agora-falamos-nos>. Acesso em: 04 set. 2019.

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008. 193 p. Tradução e Revisão de Texto Renato da Silveira. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Frantz_Fanon_Pele_negra_mascaras_brancas.pdf>. Acesso em: 04 set. 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

PRIMEIRA MOSTRA NACIONAL DE MÍDIA NEGRA E FEMININA

julho 24, 2019 0
Belo Horizonte recebeu no último dia 19 de julho a PRIMEIRA MOSTRA NACIONAL DE MÍDIA NEGRA E FEMININA do país. 
Foto: Marcelo Teodoro | Clube de Blogueiras Negras
O Clube de Blogueiras Negras apresentou para  o público o resultado de três edições do projeto "Sou Negra e Quero Falar" da jornalista Lívia Teodoro (Blog Na Veia da Nêga).

O evento promovido pelo Clube de Blogueiras Negras divulgou a produção das participantes do projeto "Sou Negra e Quero Falar", todo o conteúdo foi idealizado ao longo de três edições deste projeto. 
A Mostra foi realizada com o apoio do Fundo Feminista Internacional "Frida Fund".
O projeto "Sou Negra e Quero Falar" #SNeQF é uma criação da jornalista Lívia Teodoro, com produção executiva de Zaíra Magalhães e contou com financiamento do Fundo Feminista e apoio da Artigo 19 em suas duas primeiras edições. 

Confira as fotos do evento:

quarta-feira, 22 de maio de 2019

VOCÊ QUER O FIM DO PRIVILÉGIO OU APENAS QUER FAZER PARTE DELE?

maio 22, 2019 0
"Ah, mas, mulher preta também erra...". Erra, claro que erra! Mas, aqui estamos na frente de um probleminha bem maior.


Imagem: Retirado do site: Negrospe.blogspot.com 
Em tempos de exposição na internet para "resolver" divergências políticas e morais esbarramos em algo que até pouco tempo tínhamos como consenso não fazer. Uma delas, expor as atitudes que consideramos erradas e partiram de pessoas pretas no intuito de envergonhá-las ou fazer com que elas repensem atitudes que repudiamos. Era comum a máxima de que "a nossa roupa suja se lava em casa" e que expor os problemas internos da comunidade negra para o "grande público" – lê-se a branquitude que, ao presenciar estas discussões internas reuniria "ferramentas" para ataques desnecessários a pessoas ou grupos internos a comunidade negra – logo, silenciar publicamente para "não rechaçar os nossos", era um comportamento esperado, afinal, temos problemas maiores para nos preocupar – como, por exemplo, o genocídio do povo negro.

Acontece que vamos agora admitir que a internet também é nossa casa, ou seja, ao admitir que a internet também é um campo de disputa de poder para o povo negro, além de ser plural. Isto é, não é mais de negros versus brancos, mas, pessoas versus pessoas, admitimos que disputas criadas no campo virtual são passíveis de se desenrolar dentro dele, não importando que os personagens sejam pessoas negras. A internet é nossa casa e nossa roupa suja também pode ser lavada aqui.

Pessoas pretas são diversas. "Não somos garras de coca-cola" e não devemos nunca ser considerados como uma massa que pensa e age igual desconsiderando nossas especificidades e está tudo certo em discordarmos. Ou deveria estar.

Quando isso não acontece, a tendência é que várias pessoas se manifestem no sentido de demonstrar que tiveram seus sonhos quebrados, destruídos. Vira as vezes um longo roteiro de lamentação sobre ídolos perdidos. E este comportamento é extremamente perigoso. Primeiro, porque não devemos idolatrar (sem nenhum sentido cristão) as pessoas que admiramos, isto os torna inatingíveis, os desumaniza e corremos o grande risco de nos decepcionar com atitudes que são normais, humanas. E em segundo lugar, é preciso admitir que já passou da hora de colocarmos pessoas negras em locais imaculados (também ignorando o sentido cristão) e completamente perfeitos. Seres humanos negros são diversos.

Mas, para além da preocupação da desumanização por detrás disso, está um outro ponto muito importante: embora esperemos que as pessoas errem, afinal, são humanas, não devemos "justificar" comportamentos que vão contra o empoderamento coletivo.

Em seu livro O que é empoderamento?, a autora Joice Berth destaca a importância de ações coletivas que levam ao empoderamento. O empoderamento individual, este que não vai levar ao avanço da comunidade negra que, mesmo diversa, deve caminhar para a frente. É por isso que lutamos e por isso que entendemos a importância da equidade racial.

As críticas que muitos insistem em pessoalizar, transformar em "ataques de inveja" podem ir muito além disto. Explico.

Pessoas negras com acesso a meios institucionais que a maior parte da população negra não tem, não deveriam usar estes acessos no empoderamento individual, com carreiras e visibilidade – na internet – que lhes permitem acessar alternativas que outras pessoas não tem. Rafael Braga, por exemplo, embora tenha tido visibilidade não poderia nunca usar de artifícios do sistema ao seu favor, por não deter o capital cultural necessário para isso. Já pessoas negras que vivem num meio branco falando sobre a negritude e lucram com isto, tem uma entrada diferente e, ao entrar no sistema para mudá-lo de dentro assumem o risco de que o sistema também aja sobre elas. Neste momento deixam de apenas estar lá dentro para mudar, mas, também passam a fazer com que, em alguma medida, o sistema funcione para elas.

É lógico que, enquanto pessoa preta, este indivíduo jamais irá subverter a ordem social, mas, esses microabusos passam a ser cometidos de maneira deliberada. Aí que é que está, não é mais "um erro ao qual está sujeito todo humano".

Enxergar e sinalizar isto não é desumanização deliberada, não é tirar da pessoa preta o direito de errar. É apontar um erro sistêmico que leva o buraco bem abaixo.

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sábado, 18 de maio de 2019

APLICATIVOS PARA ORGANIZAR A VIDA DAS INFLUENCIADORAS DIGITAIS

maio 18, 2019 0
Aplicativos para organizar a vida das Influenciadoras Digitais, Blogueiras e Youtubers. Foto: GettyImages
Existem aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais que podem ser simples, gratuitos e ao alcance de todas nós. Isso para nos ajudar na coordenação desta vida. Esta estruturação é ponto fundamental para que nós que executamos todas as partes do trabalho de influenciadora digital, para não nos perdermos no meio de tantas tarefas. Então, vamos saber quais aplicativos são estes.

Para quem está no YOUTUBE é fundamental acompanhar de pertinho as métricas da rede. Saber quais são os melhores dias e horários para alcançar seu público ou ver como andam suas visualizações. E o que nem tanta gente sabe é que o Youtube possui um aplicativo de gerenciamento especialmente para isto. O app é o YOUTUBE CREATOR e ele traz várias funcionalidades diretamente do youtube estúdio. O Analytics está bem organizado e fácil de visualizar, além de você poder acompanhar os dados em tempo real, você pode subir capas personalizadas para seus vídeos.

 

Ainda para ajudar as que utilizam o YOUTUBE, o aplicativo PICSTART pode ser uma mão na roda! Na hora de fazer a capa dos vídeos algumas de nós sofrem para encontrar o tamanho perfeito da famosa thumbnail. Com este aplicativo você encontra o tamanho certo para várias redes sociais, inclusive o tamanho exato para as miniaturas de vídeo.

 


NOTAS DO KEEP é um aplicativo do time de funcionalidades do GOOGLE, isso significa que você também poderá acessá-lo pelo computador e é isso que o torna tão útil. Este é um aplicativo de notas e listas fundamental para organização da vida de criadora de conteúdo. Nem sempre você pode executar na hora uma ideia, então basta anotar na sua listinha e acessar quando for produzir seu material, seja utilizando o computador ou pelo celular.

 

Para repostar fotos no INSTAGRAM, vindas de outro perfil, geralmente os aplicativos não tem a opção sem carimbo (marga d'´gua) ou cobram para liberação desta funcionalidade. O aplicativo REPOSTA te dá esta opção gratuitamente. De todos os aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais este deve ser um dos que possui o funcionamento mais simples facilitando demais a nossa vida.

 


Quer produzir vídeos curtinhos com base num conteúdo maior? Por exemplo, você gravou um vídeo para o Youtube e quer reduzi-lo para o Instagram? O QUICK VÍDEO vai te ajudar. Com este aplicativo você pode, de uma só vez, reduzir o tamanho, suprimir o áudio original, acrescentar nova trilha e ter em segundos um resumão do seu vídeo original para outras redes sociais, não é o máximo?



O LEGEND é um aplicativo gratuito que transforma em vídeos animados qualquer texto. Isso quer dizer que você pode produzir vídeos curtinhos que podem ser usados para muitas coisas, como vinhetas do YOUTUBE, por exemplo. São várias carinhas possíveis para o mesmo texto, várias cores e fontes, todos gratuitos.



Todos estes aplicativos para organizar a vida das influenciadoras digitais estão disponíveis para ANDROID, se você encontrar algum deles - ou algum semelhante que substitua - para o IOS é só deixar aqui nos comentários.

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