terça-feira, 25 de setembro de 2018

"JOSEPHINE BAKER - A VÊNUS NEGRA" ESTREIA EM BELO HORIZONTE

setembro 25, 2018 0
MUSICAL APRESENTA A APAIXONANTE HISTÓRIA DE UMA DAS MULHERES MAIS EXTRAORDINÁRIAS DO SÉCULO XX


Pela primeira vez em BH, “Josephine Baker - A Vênus Negra” retrata com muita qualidade, de forma bem humorada e envolvente a vida da primeira grande estrela negra das artes cênicas


Espetáculo acontece nos dias 29 e 30 de setembro e terá tradução para Libras nos dois dias e audiodescrição no domingo



Walter Daguerre narra, em ordem cronológica, a apaixonante trajetória de uma das mulheres mais extraordinárias do século XX que sofreu racismo e preconceito nos EUA, seu país de origem, e virou estrela na França, unindo humor, talento e militância. Estamos falando de Josephine Baker: dançarina, cantora, ativista, espiã condecorada por Charles de Gaulle e mãe adotiva de 12 crianças de diferentes etnias.


Pela primeira vez em BH, o musical dirigido por Otávio Muller é sucesso de público e crítica. Josephine Baker - A Vênus Negra teve, em 2017, 8 indicações ao Prêmio Shell, Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR 2017. Quem interpreta de forma impecável essa mulher tão irreverente é a atriz Aline Deluna. É ela quem recebe o público no teatro e inicia a peça contando sobre a história da personagem. Aos poucos, ela vai se vestindo dos elementos que compõem a Josephine. Acompanhada do trio de músicos Dany Roland, Christiano Sauer e Jonathan Ferr, que também se distribui em diversos papéis durante o espetáculo, ela encanta o público dançando e cantando, em vários idiomas, maravilhosamente bem. A seleção musical executada ao vivo durante todo o espetáculo e o figurino deslumbrante produzido para a personagem de Aline Deluna são de um refinamento surpreendente.


“Chegamos ao conceito da peça depois de ‘esbarrarmos’ em Oswald de Andrade. Ele e Tarsila do Amaral hospedaram Miss Baker quando ela esteve pela primeira vez no Brasil. Oswald acabou nos influenciando muito e nosso espetáculo ganhou contornos Tropicalista-Antropofágicos. O que tem tudo a ver com Josephine Baker, que defendia a miscigenação, portanto a mistura, como caminho para a harmonia entre os povos”, conta o autor, Walter Daguerre.


Josephine Baker
Nascida no ano de 1906, em Saint Louis, no Missouri, (sul dos Estados Unidos), onde o racismo e preconceito imperavam, Josephine Baker não teve uma vida fácil. Aos 8 anos já trabalhava como artista de rua e, também, como faxineira e babá para ajudar no sustento da família. Aos 13 anos, ela fugiu de casa e começou a trabalhar como garçonete em uma casa noturna. Enquanto adolescente, aos 15 anos, se casou, divorciou, chegou a participar de espetáculos de vaudeville de St. Louis Chorus e, em seguida, se mudou para Nova Iorque, onde fez parte de um grupo de dançarinas e atuou em alguns espetáculos da Broadway, nos anos de 1921 e 1924. Em busca de aceitação e liberdade, Josephine Baker, aos 19 anos, se mudou para Paris (onde se naturalizou depois). A esquerda, Aline Deluna.


Apelidada de Vênus Negra, pela sua beleza e amor pela humanidade, aos 20 anos, Josephine estava mundialmente famosa por toda sua dança irreverente, sensualidade, bom humor, deboche com seu saiote de bananas desafiando todos os padrões dos anos 1930.


Considerada a primeira grande estrela negra das artes cênicas, na vida real a artista lutava pela igualdade racial e paz entre os povos. Nos anos 50 ela trabalhou como espiã da Resistência Francesa e apoiou o movimento dos Direitos Civis de Martin Luther King (marchando ao lado dele contra a segregação racial), nos EUA. Seu ativismo social e político rendeu a ela duas das mais altas condecorações da França: Cruz da Guerra das Forças Armadas Francesas e a Medalha da Resistência. Também recebeu do presidente francês, Charles de Gaulle, o grau de Cavaleiro da Legião de Honra.


Outras curiosidades sobre Josephine Baker: ela esteve quatro vezes no Brasil. Em uma delas se apresentou com Grande Otelo, no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, teve um relacionamento com Frida Kahlo, tinha um guepardo de estimação e era mãe adotiva de 12 crianças de etnias diferentes, a qual ela chamava de Tribo Arco-Íris.


Mostra Cine Brasil Teatro e Música


Iniciativa do Cine Theatro Brasil Vallourec, a Mostra tem patrocínio do Instituto Unimed-BH, por meio do incentivo fiscal de médicos cooperados e colaboradores, e da Vallourec, ambos via Lei Federal de Incentivo à Cultura.


Além de primar pela qualidade artística dos espetáculos, a Mostra se destaca pela excelência técnica do teatro e pela experiência sempre marcante de visitar o prédio histórico em estilo Art Déco, com seus belos corredores, escadas e luminárias. Situado na Praça Sete, O Cine Theatro Brasil é um dos símbolos de Belo Horizonte e polo irradiador de cultura e lazer no centro da cidade.


Na edição de 2017, a Mostra teve mais de 12 mil pessoas presentes em suas atividades. Foram oito montagens teatrais e três shows musicais, alguns deles com duas apresentações, totalizando 19 datas de espetáculos. Dentre as atrações do ano passado, alguns destaques foram as peças Antígona, Morte Acidental de um Anarquista, 12 Homens e Uma Sentença, Depois do Amor, e os shows de Bebel Gilberto e Arnaldo Antunes.



Vendas:
Bilheteria Cine Theatro Brasil Vallourec ( Av. Amazonas, 315 – Centro)
Loja Eventim (Shopping 5ª Avenida: Rua Alagoas 1314 - Loja 20C– Savassi). Sujeito a taxa de conveniência.
Classificação: 12 anos
Duração: 80 minutos
Informações: (31) 3201-5211 – www.cinetheatrobrasil.com.br

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

QUEM PARIU MATEU QUE O EMBALE?

setembro 19, 2018 0
Mulheres de negócios têm espaço para ser mães?
Muitas mulheres têm escolhido não ter filhos e isso não é nenhum problema. A autonomia feminina também passa pelo campo de escolher não gerar filhos ou mesmo adotar, optar pelo trabalho, carreira acadêmica etc. Mas, e quanto às mães, o que fazemos com elas dentro dos espaços de negócios?
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A maior parte da dificuldade da maternidade é social. Sejam as mães que têm uma rede de apoio ou as que não têm, a maior parte dos problemas enfrentados não é gerada por uma criança. Com isso quero dizer que nossos problemas enquanto mães, na sua maioria, são causados por uma sociedade que não sabe lidar conosco. E, bom, não estou pedindo para lidar com nossos filhos, mas, conosco na nossa completude e os filhos fazem parte da completude de mulheres mães. Não é difícil raciocinar isso.
Além das questões afetivas, do modelo de criação escolhido por cada mãe, há questões de ordem prática. Nem toda mulher tem à sua disposição uma equipe que cuida das refeições, deveres de casa, roupa limpa, visitas ao médico, ou seja, ainda que ela seja uma mulher de negócios, precisa desempenhar a segunda ou terceira jornada de ser mãe. Em espaços femininos de negócios, dificilmente se pensa na mulher mãe. Espaços nos quais as crianças possam estar, cuidadores que assessorem essas mães, porque a sociedade simplesmente ignora essa outra faceta.
“Quem pariu Mateu que o embale?”
(e quem meteu Mateus?)
A sociedade ignora as demandas de mães muitas vezes por ser cômodo, outras como uma maneira de penalizar a mulher que não desempenha a função de mãe como acreditam ser o certo. Afinal, lugar de mulher não é liderando projetos, empresas ou pessoas: é em casa cuidando dos filhos!
No Brasil, mais da metade das famílias é chefiada por mulheres e sem a figura paterna presente no lar, então, não é uma opção para essas mulheres estar em casa “apenas” cuidando dos filhos – entendendo aqui quão complexa e difícil é essa tarefa – quando o sustento precisa vir de algum lugar. O Brasil – algumas regiões mais que as outras – sequer tem creches suficientes para receber todas as crianças da região. Você já parou para pensar o quanto a vida profissional dessas mulheres é prejudicada? E, é bom lembrar que devemos encarar enquanto vida profissional TODAS as profissões, todas as mulheres têm o direito de poder construir suas carreiras mesmo sendo mães.
“Então não tivesse filhos...”
(Bom, não temos muitas opções nesse país!)
Além da maternidade ser totalmente compulsória, o Brasil falha miseravelmente na aplicação das políticas de planejamento familiar, na informação de mulheres em idade reprodutiva, além de muitas vezes dificultar o acesso a métodos considerados mais seguros, como o DIU, por exemplo.
Outro ponto é que DIREITO REPRODUTIVO também quer dizer o direito de escolher quantos e quando ter filhos, o que deveria formar uma sociedade que respeita as mulheres que escolheram ser mães, com espaços que recebam aquelas que, além de mulheres, são mães.
Muitas vezes, as pessoas não refletem sobre o fato de que ninguém questiona a existência de um adulto, mas, questiona as crianças e consequentemente questiona a presença ou mesmo a existência de mães em certos espaços.
É preciso pensar de maneira que as mães se sintam incluídas e aceitas nos espaços de negócios. Pensar que a maternidade é MAIS UMA faceta da mulher e não o determinante que irá excluí-la de atividades e espaços. Pensar atividades que contemplem as mães não é um “favor”, é se mostrar parte de uma sociedade que, bom, crianças não nascem grandes e temos rigorosas leis que protegem esses seres sociais.
Creches, espaços para crianças em eventos, seminários, empresas e outros círculos em que são realizadas negociações importantes e mulheres não devem ser excluídas.
Como disse, o problema da maternidade muitas vezes não está na criança, mas, na sociedade que esquece que a criança também é parte dela.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

É COISA DE PRETO, COISA DE NEGÃO!

setembro 10, 2018 0
"- É porque o preconceito começa de vocês mesmo..."
"- Não começou de mim mesmo não, amigo, dá uma puxadela no teu calendário aí que tu vai ver que começou tem coisa de 400 anos... Eu sou de 93..."

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Yuri Marçal - Humorista Carioca. Foto: Reprodução da Página Oficial do Facebook

O humor negro vai, finalmente, ser apresentado em Belo Horizonte, no próximo dia 16 de Setembro, no Teatro Ouro Minas. Junto de Yuri estarão outros humoristas, Thiago Carmona, Fred Café e Gui Preto. Eles prometem um espetáculo "com objetivo de promover a cultura afro e fortalecer a luta pela classe." (Sympla)

O jovem de 25 anos ficou conhecido por mim através de vídeos com o tal humor negro de que tanto gosto, piadas ácidas, assertivas e muito engraçadas que incomodam os lugares de privilégio social. A ironia na medida de Yuri e a forma como utiliza situações do racismo cotidiano para confrontar a branquitude fazem de Yuri um grande sucesso. 

O racismo reverso toma corpo e fica evidentemente engraçado na interpretação de Yuri. O vídeo Mulher Preta, que já conta com mais de 1,3 milhões de views no Facebook, fala com muito bom humor sobre amar a nossa estética no outro, uma forma engraçada de rebater o famoso "amor não tem cor", que tanto se ouve na internet.


"Mulher preta é Deus, cara!"


Com mais de 190 mil seguidores, o ator ganha cada vez mais espaço com a ressignificação do conceito de "humor negro", mostrando que coisa de preto é fazer um humor que não ofenda ou ataque a subjetividade de outras pessoas, provando que é possível se divertir sem ser racista e fazer piadas que envolvem pretos sem ser ofensivo.

Por enquanto a peça tem apresentação única em Belo Horizonte, os ingressos custam R$30,00 e podem ser adquiridos através do Sympla

sábado, 8 de setembro de 2018

MATCHFUDING: CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLETIVO PARA YOUTUBERS NEGRAS

setembro 08, 2018 0

Campanha de financiamento coletivo vai apoiar profissionalização de 10 youtubers negras brasileiras



O projeto "Sou Negra e Quero falar!", do Clube de Blogueiras Negras, busca arrecadar 25 mil reais para promover oficinas de análise do discurso, segurança digital e produção de vídeo, para jovens que criam conteúdo socialmente responsável.

De 31 de agosto a 15 de outubro, acontece a campanha de financiamento coletivo do projeto Sou Negra e Quero falar!, uma iniciativa da jornalista, designer e historiadora mineira Lívia Teodoro, criadora do canal e do blog NaVeia da Nêga e do Clube de Blogueiras Negras.

Por dois dias, 10 blogueiras e youtubers negras participarão de oficinas de análise do discurso, produção de vídeo e segurança digital. No fim, o conteúdo produzido será disponibilizado para votação pública e as vencedoras receberão equipamentos. “Acredito que esse projeto seja de extrema importância para colocar as youtubers negras em outro patamar. Num momento em que vemos grandes canais no YouTube entrando em polêmicas racistas, machistas e xenofóbicas, é importante valorizar e dar espaço àquelas que vêm fazendo uma comunicação representativa e socialmente responsável”, diz Lívia.

A campanha é na modalidade matchfunding, quando uma empresa apoiadora multiplica o valor recebido. “A cada real arrecadado pela campanha, o Movimento Coletivo vai somar mais dois. Assim, quem contribuir com 10 reais pode sentir no coração que colaborou com 30”, destaca Nattany Martins, uma das youtubers que será beneficiada pelas oficinas do projeto.

Hoje, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas produtoras de conteúdo que estão fora dos assuntos considerados comerciais é encontrar motivação para continuar a produzir mesmo sem patrocínio. Vivemos num mundo que privilegia os conteúdos bem produzidos. Logo, além de saber o que falar, é preciso transmitir com qualidade. Essa é a finalidade da nossa formação!”, finaliza Lívia (foto).

As contribuições vão de 10 a 500 reais, e recompensas são oferecidas como contrapartida para os benfeitores. O site para colaborar é www.benfeitoria.com/cbnegras, no ar a partir de 12h do dia 31. A campanha fica no ar por 45 dias. A produção executiva é de Zaíra Magalhães.

Projeto Negras Potências

Fortalecer econômica, política e socialmente as mulheres negras, grupo que experimenta a desigualdade e a violência de maneira mais profunda. Este é o foco dos 16 projetos selecionados – dentre eles o Sou Negra e Quero falar! –, em junho, no edital Negras Potências, para participar de uma campanha de matchfunding. A iniciativa é uma parceria entre o Baobá – Fundo para Equidade Racial, a plataforma de mobilização Benfeitoria e o Movimento Coletivo.

Nesta modalidade de financiamento coletivo, toda a captação realizada pelos projetos na Benfeitoria será triplicada pelo Movimento Coletivo, a plataforma de investimento social da Coca-Cola Brasil, por meio de um fundo de R$ 500 mil.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A PRETA DA VEZ

agosto 24, 2018 1
A busca pela representatividade, principalmente nas mídias comerciais, têm trazido à tona uma questão específica e bem nova para a comunidade negra. É possível falar de pessoas negras "padrão"? Existe um padrão em que o corpo negro caiba?
Existe corpo negro padrão? Projetado pelo Freepik
Quando falamos em corpo padrão, é óbvio que o socialmente construído é conhecido por todos nós: branco, magro, alto, de preferência loiro, a princesinha no imaginário das histórias infantis. Logo, é difícil imaginar o corpo negro ocupando qualquer coisa próximo de um lugar padrão. Mas, como explicar então as pessoas negras padrão, aquelas que têm sido procuradas para serem representatividade de marcas e da mídia que precisa incluir pessoas negras – mas não qualquer negra?

As pretas da vez estão em muitos canais. Não é difícil identificar a preferência de certas marcas e mídias por negras  de pele mais clara, "traços finos" (com todas as aspas do mundo, para entendermos o racismo que há nesta expressão), magras, com cabelos longos e cacheados. E aí, é possível negar que há uma negra padrão?

É importante termos em mente que o padrão é branco e estamos na luta para que ele seja erradicado (Salve, Rincon Sapiência!), portanto, pessoas negras não cabem no padrão social nos moldes macro, mesmo as magras, mesmo as de pele clara, mesmo as heterossexuais, mesmo as perfeitas. Mas, também é importante reconhecermos que, quanto mais próximo da branquitude, mais fácil ser um tipo aceito por ela. Afinal, o que é mais cômodo do que colocar na sua lista uma pessoa negra que não agrida o seu padrão? Assim, as pessoas negras que são gordas, com ""traços grossos"" (fazendo aqui a mesma observação do racismo), de pele mais e mais escura, homossexuais, bissexuais, ou seja, todo que destoe do que seria algo equivalente ao padrão branco, só que negro, sequer entra na fila da representatividade nos canais hegemônicos da mídia ou das marcas legais, que resolvem contratar apenas os e as pretas da vez.

E o que fazemos com isso?

Adianta nos voltarmos contra as pessoas negras padrão? Acredito que o problema está no sistema e acredite, esse não é um problema novo. Dividir para conquistar é historicamente usado contra o nosso povo. Escravos da casa e escravos da lavoura, por exemplo, uns contra os outros, usando os privilégios dos escravos da casa para incitar a ira dos escravos da lavoura. Mas, não há como ter privilégio nenhum em ser escravo e o ideal seria que ambos não fossem.


Acredito, também, que o primeiro passo para desconstruirmos o que vem sendo chamado de padrão e na verdade é mais uma divisão para conquistar, é que os que são considerados padrão entendam do que está sendo falado. Isso é, se você é magra, precisa entender que você é mais tolerada que negras gordas. Isso te faz menos negra? Não! Isso não é um campeonato de opressão. Mas, te faz uma negra magra que agride menos os olhos da branquitude. E, bom, se eles tem que tolerar uma preta, que seja uma que agride menos aos olhos. Agora, pense, você quer mesmo ser essa peça? 

No começo pode ser interessante ter esse acesso – porque não é privilégio nenhum ser tolerada –, mas, a que preço? Ser magra, ser de classe média, ser heterossexual, ter pele clara ou tudo isso junto, confere a mulher negra acessos em algumas situações e não ser assim retira esses acessos. 

Porque acessos? Porque eles podem ser revogados pela branquitude a qualquer momento e sem aviso prévio. Ser rica ou de classe média, ser magra, ser hétero, não garante que os males do racismo não vão te atingir, se você ainda for negra ou negro. 

Precisamos entender o lugar de acesso que ocupamos e desconstruir a ilusão de que é privilégio poder frequentar a casa grande. Privilégio mesmo é liberdade.

Existe corpo negro padrão? Projetado pelo Freepik

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

BB CREAM AVON - COMBATE A ESPINHAS [COR ESCURA]

agosto 16, 2018 0
A pele negra tem uma facilidade maior em adquirir manchas consequentes da acne ou do sol em excesso, por isso a importância do uso do protetor solar. Mas, depois que as manchas já estão lá, é possível usar artifícios que disfarcem as marquinhas, com um efeito natural e sem carregar na maquiagem. É para isto que serve o BB Cream.
BB Cream, numa tradução livre, significa "bálsamo de beleza", é um produto multibenefícios que, além de cuidar da sua pele, pode ter efeito de uma base leve. Este é o caso do BB Cream Combate Espinhas, da Avon. Lançado em 2018, o produto faz parte da linha "Clear Skin", que tem outros produtos para cuidados com a pele oleosa e acneica. 

BB Cream Cleaskin Avon - Cor escura - Resenha

A marca promete uma cobertura "natural e seca", além de prometer que o produto irá auxiliar no combate a espinhas. 

O QUE EU ACHEI?

O produto tem uma cobertura bastante leve e disfarça levemente minhas manchas de acne, no entanto, deixa a pele de fato sequinha e transfere bem pouco, normal para um produto com cor escura, que se adapta bem a minha pele. 
A embalagem poderia sr um puco maior, devido a baixa cobertura, é necessário reforçar o produto nas áreas mais escurecidas e acabamos gastando um pouco mais, a embalagem de 30g poderia ser, pelo menos, do dobro do tamanho.

Quer saber mais?

Tem vídeo no canal, mostrando a aplicação e falando um pouco mais sobre este lançamento da Avon:

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A AMBIÇÃO É UM PRIVILÉGIO E NÓS PRECISAMOS FALAR SOBRE ISTO

agosto 10, 2018 0
Escrever é um privilégio.
Ler e gostar de ler é um privilégio.
“A ambição é um privilégio.” (Clarice Guimarães)
E hoje nós precisamos e vamos falar sobre isto.



O racismo é uma ferramenta de poder que não foi criada pelos próprios oprimidos, embora os filósofos eventuais das redes sociais insistam em repetir esse discurso, batam na tecla de que “racismo está nos olhos de quem vê”. Mesmo que esse argumento não se sustente, ainda precisamos falar sobre as pessoas que acreditam que os subalternos se colocam neste lugar e não que são colocados. Quando somos falados pelo outro, geralmente o falado reflete o desejado por este outro. E é assim que estudiosos sobre a pobreza, que não são ou nem ao menos foram pobres um dia, teorizam sobre o que leva ou o que mantém os pobres onde estão.

Assim como o racismo a educação também é uma ferramenta de poder. Também usada para manutenção das relações, a educação enquanto ferramenta é usada para escolher quem vai e quem não vai acessar este ou aquele espaço. É básico: saber falar difícil te leva a certos lugares e te dá certas condições que não são dadas a quem não sabe. Assim como conhecer os mecanismos de certos grupos sociais pode te fazer entrar neste ou naquele local. Ao mesmo tempo, entender que isto é uma ferramenta também compõe um “privilégio”, que no caso das pessoas negras, por exemplo, pode ser apenas uma salvaguarda, mas, saber como e onde entrar a educação é uma forma de exercer poder sobre as camadas sociais.

Assim nós criamos a falsa ideia de que, pessoas que não acessam a educação não o fazem ou porque não querem ou porque são socialmente incapazes de se importar com isso de maneira autodeterminada. Certo? Não. Se a educação é uma ferramenta de poder, é impossível que o próprio oprimido esteja fazendo uso dela enquanto aparelho. Isto não faz nenhum sentido.

E é aí que o argumento dos filósofos virtuais, cai.

É possível acreditar que toda uma população que estivesse consciente do quanto a educação pode transformar sua realidade, pode tirá-los da condição de expectadores e levá-los ao lugar de roteiristas de suas próprias vidas, que poderia levá-los para frente, seria capaz de abrir mão deliberadamente disto? Repita em voz alta, se você soubesse que a educação é poder e fosse instruído de como ela pode te fazer avançar, você diria “não, obrigado, quero me manter aqui, pobre, resignado, submisso e fraco”? Você acredita mesmo nisto?

E é assim que os privilegiados fazem, dizem que “negros são maioria da população carcerária porque gostam de roubar”, ou que “são minoria na educação porque não gostam de estudar”, assim como já ouvi dizerem que mulheres negras “são minoria no mercado de casamentos porque não gostam de se casar”. Repito, é exatamente quando o teorizador privilegiado fala pelo oprimido que ele projeta nessa conclusão o esperado por ele, ou seja, a explicação mais óbvia para quem sempre teve acesso a informação e escolheu absorvê-la, é que todos os outros tiveram e escolheram não fazer, por isso não têm.

A educação para muitas pessoas não é uma escolha fácil, para outras ela não é sequer uma alternativa. Fazemos parte de uma sociedade capitalista e, como tal, é preciso ter pessoas específicas para cada setor desta sociedade, fazemos partes de uma engrenagem de uma coisa maior e a sociedade precisa continuar fabricando peças para todos os setores. É impossível manipular e “adestrar” pessoas basicamente educadas, é impossível pagar salários medíocres por trabalhos pesados se as pessoas que desempenham este trabalho forem educadas o suficiente para contestar esta lógica. Então, pense um pouco: Para quem interessa uma população não educada? Àqueles que trabalham dia e noite em trabalhos considerados subordinados e pesados, ou à quem precisa lucrar com aquela mão de obra barata? Não precisa ser um gênio para entender isto, mas, é preciso um repertório básico que nem todos tem. E é assim que a sociedade decide várias questões importantes, como por exemplo a criminalização do aborto, que atinge majoritariamente a população negra e pobre do Brasil. Não se educa sobre métodos contraceptivos, não se permite o aborto seguro e legal, depois criminaliza-se a saída desesperada das mulheres, pronto! Você tem uma fábrica de mais e mais pessoas que farão parte deste grupo que trabalha para sustentar a outra parte da história que não é criminalizada e muito menos presa por realizar um aborto, afinal, paga por ele.


Educação é um privilégio e nem o acesso a isto garante que vamos mudar as estruturas completamente, fato. Mas, pensar que quem não acessa escolhe simplesmente não o fazer é irresponsável. As perspectivas de vida dadas para certas camadas da sociedade são diferentes, elas servem ao interesse daqueles que detém o poder, como já disse anteriormente. E, não é porque nós tivemos algumas escolhas que todas as outras pessoas também tiveram.



Pessoas negras não tem privilégios sociais, mesmo quando têm acesso à educação. Para usufruir de privilégios numa sociedade racista, você precisa necessariamente não ser negro (ou indígena, no caso do Brasil). O que a pessoa negra adquire ao ter acesso à educação é um acesso, uma salvaguarda que não vai livrá-la de sofrer racismo, o espaço acadêmico está aí para nos provar isto, mas, vai dar acesso às ferramentas, conhecê-las ao menos para saber como são utilizadas enquanto instrumento de poder. E isto já pode ser alguma coisa.

LEITURA RECOMENDADA SOBRE O TEMA:

Pode o subalterno falar? Gayatri Chakravorty Spivak
O que é lugar de fala? Djamila Ribeiro

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